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Prefácio

Imagine se, sem aviso e de forma surpreendente, uma geração fosse beneficiada com um bônus extraordinário, não exatamente um prêmio em dinheiro, mas algo muito mais valioso do que isso: a oportunidade de estender sua existência por mais vinte anos. No caso de você estar entre os felizes ganhadores, o que você escolheria fazer com esse tempo extra, que cá entre nós é um belo período, equivalente a quase um quarto da vida? Como você se prepararia para viver mais plenamente essa singular e espetacular oportunidade?

Isso é exatamente o que está acontecendo com as pessoas que nasceram a partir da década de 1960. Os beneficiados mais imediatos deste bônus são as pessoas que hoje, em 2013, têm entre 40 e 60 anos. Elas vão descobrir aquilo que muitos homens e mulheres sessentões descobriram recentemente: os 60 são os novos 40. Esta é, em suma, a grande descoberta dessas pessoas que serão as pioneiras de uma nova era da humanidade. Uma era na qual a linha demarcatória de chegada à velhice vai se deslocar bem mais para a frente.

Até a década de 1960 era comum à maioria das pessoas imaginar que, após cruzar a marca dos 60 anos, homens e mulheres viravam, invariavelmente, velhotes e velhotas — indivíduos que se transformavam em figuras queridas, passivas, assexuadas e contemplativas e que, de forma genérica, rotulamos de vovô e vovó.

Aliás, foi exatamente esse contexto de costumes que estimulou o beatle Paul McCartney a compor a canção “When I’m Sixty-Four”, na qual, em versos escritos quando ele ainda tinha 16 anos, retratava dois velhinhos enamorados de 60 e poucos anos como se fossem um casal aposentado muito idoso e cercado de netos. Bem distante é a realidade atual daquela idealização de McCartney. Hoje, quem consegue ver como “vovozinhos e vovozinhas” indivíduos já setentões como Mick Jagger, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Jane Fonda, Sophia Loren e tantas outras figuras públicas, inclusive o próprio McCartney, que continua ativo em sua vida de compositor e realizando turnês e shows mundo afora.

Mas não são apenas celebridades e estrelas que se afastaram do estereótipo do envelhecimento. Toda uma geração que hoje tem entre 60 e 80 anos está escolhendo e construindo uma outra perspectiva de estilo de vida. Observemos como nossos próprios pais e mães estão distantes da figura de “vovozinhos fofos”. A nova atitude e o novo espírito do tempo os fazem encarnar personagens, ainda que mais velhos, muito distantes da imagem de fragilidade, do estado mais contemplativo e da passividade.

Nos anos 1960, velho era quem cruzava a linha dos 60. Agora velho parece ser quem cruza a linha dos 80. Será que em mais algumas décadas velhinho será quem tiver cruzado a linha dos 90?

Ao longo da história, desde o surgimento de nossa espécie na Terra — isto é, o Homo sapiens, há 240 mil anos —, vigorou sempre o padrão demográfico: crianças e jovens em proporção esmagadora, adultos em idade reprodutiva em proporção menor ocupando o segundo lugar, e, finalmente, os mais velhos, em geral pessoas já fora da idade reprodutiva e produtiva constituindo uma minoria marginal. Entretanto, estamos a ponto de vivenciar como espécie uma reviravolta demográfica. Nas próximas duas décadas, a pirâmide etária que vigorou por milênios na história da humanidade vai ficar quase de cabeça para baixo.

Neste novo contexto, a instituição aposentadoria tal qual a conhecemos e entendemos, instituição que foi aperfeiçoada em várias fases desde sua criação durante as reformas do chanceler prussiano Bismarck no final do século XIX, vai perder completamente tanto seu significado quanto a sustentabilidade econômica.

Em seus primórdios, a equação econômica montada para a previdência e aposentadoria no Brasil calculava até 31 contribuintes na ativa para sustentar um aposentado. Hoje, mesmo com os sucessivos ajustes e reformas previdenciários, nos aproximamos da proporção de dois contribuintes para um aposentado.

Por outro lado, as pesquisas já apontam que as pessoas que estão chegando à idade de se aposentar estão mais interessadas em encontrar respostas para a questão “Por que me aposentar?” do que na pergunta “Como posso fazer para acelerar minha aposentadoria?”. A natureza do trabalho mudou. Antigamente, a maior parte da humanidade se estuporava fisicamente no trabalho pesado nas fazendas, fábricas e minas. Agora a maior parte do trabalho pesado vai sendo executado por máquinas, com maior produtividade e sacrifício físico infinitamente menor para os seres humanos.

Na confluência de mudanças estruturais que viveremos sobretudo nesta segunda década do século XXI, as pessoas que pertencem às gerações entre a meia-idade e o início da velhice têm agora o desafio de aproveitar as novas e promissoras oportunidades para construir novos estilos de vida e novas instituições que vão lhes permitir estender a vida produtiva por pelo menos vinte anos.

Esses pioneiros do tempo vão abrir, para o restante da humanidade, as portas do que promete ser uma nova marca de meia-idade e uma nova perspectiva para as décadas finais da vida, traduzidas em uma existência mais extensa, mais plena de significado, mais participativa e com maior qualidade de vida. Vamos conseguir fazer dos 60 os novos 40?

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A tenção todos os que cruzaram a linha dos 40: vamos preparar nossos planos de desaposentadoria? Que tal nos inspirar nesses senhores e senhoras que já cruzaram a marca dos 80 e estão longe de serem vistos como decorativos “velhinhos fofos”?

Quando ficar velho — eu, pelo menos! —, quero ser como aqueles homens e mulheres que encarnam um novo tipo de ser humano que envelhece mantendo a capacidade de ser ativo e produtivo. Quero envelhecer como o ministro João Paulo dos Reis Velloso e o fundador da Embraer, Ozires Silva, que estão firmes e fortes e continuam trabalhando de forma inspirada. Quero envelhecer como as celebridades do rock, de Eric Clapton a Mick Jagger, Caetano e Gil, que, setentões ou quase, não pensam nem por um momento em parar de criar e trabalhar enquanto tiverem saúde.

Recentemente, li uma entrevista de um empresário brasileiro, Eugênio Staub, 72 anos, fundador da Gradiente, empresa brasileira de eletroeletrônicos que andou passando por duras dificuldades devido à concorrência com multinacionais. Na verdade, há seis anos, a Gradiente quase faliu. Staub, porém, conseguiu tirar a empresa do buraco e na referida entrevista revelou os planos para a Gradiente voltar a ter papel de protagonismo lançando tablets, smartphones etc. Ele revela que seus planos são de seguir trabalhando como sempre fez, em média 12 horas por dia. Staub imagina que com saúde tem ainda uns sete ou oito anos de vida ativa pela frente. Vai diminuir um pouco o ritmo, mas não pretende deixar de enfrentar os desafios que enxerga à sua frente, e parece contente com essa rotina. Mesmo sendo um homem rico que poderia estar aposentado, ele explica de onde tira a energia para essa vida: “Não jogo golfe, não tenho barco. Meu hobby é este negócio.”

Na verdade, vários estudiosos, demógrafos, antropólogos e cientistas sociais estão alertando para as evidências de uma mudança de padrão, com a formação de uma nova tendência de estilos de vida entre pessoas mais velhas. Mais e mais pessoas que poderiam se aposentar, ou que já estavam aposentadas, fazem planos de continuar no emprego ou de voltar a trabalhar. De maneira geral, essa perspectiva traz uma forte necessidade de ter que se reinventar. O importante nesse segundo tempo da vida, que as pessoas estão descobrindo que pode ser o tempo depois dos 50, é procurar se dedicar mais àquilo que dá efetivamente prazer, conciliar isso com oportunidades de ter uma renda extra, de continuar tendo convívio social com colegas que também estão na ativa e de continuar atualizado como ser humano contemporâneo de um tempo em que as mudanças e as inovações são a regra.

Qual o sentido dessas transformações?

O fato mais marcante em termos de demografia na passagem do século XIX para o XX foi o crescimento em proporção geométrica da humanidade. As melhorias nutricionais, de saúde pública e saneamento contribuíram para que a mortalidade infantil e das parturientes diminuísse de forma drástica. No início do século XX, os seres humanos sobre o planeta eram em torno de 1 bilhão e terminamos o século XX tendo ultrapassado a marca de 6 bilhões.

Felizmente começamos a desacelerar nos anos 1960, quando a humanidade começou a reduzir a taxa de natalidade de forma extraordinária, a ponto de alguns países já estarem antevendo a diminuição de sua população já nas primeiras décadas do século XXI, como é o caso do Japão, da Itália, da Alemanha e da Espanha. Se isso não acontecesse, como espécie, estaríamos em maus lençóis!

E o Brasil não fica fora dessa tendência. Uma mulher brasileira nascida nos anos 1960 tinha uma taxa de fertilidade de 6,2 crianças! Agora, graças ao aumento da escolaridade das mulheres e aos contraceptivos, essa taxa caiu para 1,8. Ou seja, a maternidade deixou de ser condenação para se tornar escolha. Além disso, a expectativa de vida do brasileiro, que era de apenas 33 anos no começo dos anos 1900, se encaminha agora para os 80 anos.

Disso tudo resulta que o fato mais marcante em termos demográficos neste início do século XXI é, sem dúvida, o vertiginoso aumento da proporção da população de idosos.

Como consequência, a humanidade começa finalmente a rever a idealização da aposentadoria no momento em que o modelo previdenciário concebido na virada do século XIX para o XX vai sendo implodido em todos os lugares do mundo. Vamos rever essa idealização por pressão econômica e também porque vamos descobrir finalmente que trabalhar ao longo de toda a vida pode ser muito legal e gratificante e, inclusive, alongar ainda mais a longevidade.

Da mesma forma que estamos redefinindo a economia e o trabalho, redefiniremos a idade longeva e a aposentadoria. A geração que tem agora menos de 35 anos não conhecerá a aposentadoria no sentido que nossos avós e pais conheceram. A entrada da humanidade na Economia do Conhecimento está criando inacreditáveis possibilidades de continuarmos ativos e produtivos mesmo dentro das condições físicas de idosos. E isso nos tornará mais saudáveis e menos deprimidos.

O guru de administração Peter Drucker, em seu livro The New Society, apontou ainda nos anos 1990 que, no século XXI, teremos certamente dois tipos distintos de força de trabalho, sendo uma parte dela composta por indivíduos com menos de 50 anos e outra parte pelas pessoas com mais. Estas duas forças irão diferir marcadamente em suas necessidades e comportamento. O grupo mais jovem necessitará da renda estável de um trabalho permanente, ou pelo menos de uma sucessão de serviços em tempo integral. O grupo mais velho, que deverá ter crescimento rápido, terá muito mais opções, e irá combinar trabalhos tradicionais, não convencionais, e lazer nas proporções que mais se adaptarem ao seu perfil e disponibilidade. Moral da história? Aposentadoria é para os fracos. Lembre- se: o diabo pode mais por ser velho do que por ser diabo… e gente mais madura periga criar os melhores projetos de trabalho, que poderão ser verdadeiros hobbies bem encaixados em seus estilos de vida enquanto pessoas ativas e produtivas da Sociedade Digital Global e da nascente Economia do Conhecimento.

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