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Entrevista - Um defeito de cor

Ana Maria Gonçalves escreveu um romance histórico, situado no século XIX, de leitura voraz, que prende a atenção do leitor até o fim. O livro conta a fascinante história da escrava Kehinde  e flerta com a fronteira entre o real e o  imaginário. A heroína do livro foi inspirada em Luísa Mahin, uma mulher que é lenda na Bahia, mas de quem não se consegue confirmar a existência e sobre quem não se sabe muita coisa. Há boatos de que ela tenha sido inventada pelo poeta Luís Gama em uma tentativa de dignificar o seu próprio passado. O leitor é convidado a partilhar com a personagem as dores e os dissabores de suas memórias: a captura na África, a travessia no navio negreiro, a chegada à Ilha de Itaparica, a mudança para São Salvador, as andanças por São Luís, pelas cidades do Recôncavo Baiano, por Santos e São Paulo, a ida para a cidade de São Sebastião e o regresso à África. Nesses cenários, Kehinde interage com fatos históricos imersos no cotidiano e na vida de mais de trezentos personagens. Um defeito de cor é fruto de quase quatro anos de produção, entre pesquisa, escrita, reescrita e revisão. Durante todo esse tempo, Ana Maria Gonçalves se entregou, de uma maneira visceral, apenas ao exercício da escrita e jura que a sua única expectativa é a de continuar escrevendo.     

Você definiria Um defeito de cor como um romance histórico ou sobre seres imaginários?  Por que optou por esse gênero?

Se nos ativermos à definição clássica de romance histórico, com a recriação de uma determinada época e seus hábitos, costumes e acontecimentos, suas influências políticas, sociais e culturais, Um defeito de cor é um romance histórico. Mas não é fiel à história, principalmente se levarmos em conta que já estamos ficcionando quando saímos do meramente descritivo para recontar qualquer acontecimento, principalmente se não o presenciamos. Temos que nos apropriar dele e ordená-lo a partir de um lógica e de uma visão próprias baseadas em narrativas de terceiros. Há muitos personagens no livro, mais de trezentos, e boa parte deles realmente existiu e esteve inserida naquele contexto, e o que tentei fazer com eles foi questionar e simular uma verdade histórica. Aristóteles dizia que o poeta, e acredito que nos tempos atuais podemos também nos referir ao prosador, cria ou reproduz um passado possível, e não real. Já ouvi chamarem o romance histórico pós-moderno de metaficção historiográfica e de ficcionismo, e acho que o caminho é por aí. Esse é um dos meus gêneros preferidos para leitura, e provavelmente foi por isso que me interessei também para a escrita.

O que significa o título do livro, Um defeito de cor

No período colonial havia uma lei, entre as muitas outras leis segregacionistas, que impedia que negros e mulatos ocupassem cargos civis, militares e eclesiásticos, reservados aos brancos. Quando o talento, a competência ou a vontade eram muito grandes, o negro ou mulato podia pedir a "dispensa do defeito de cor", que foi concedida, por exemplo, ao padre mulato José Maurício, um dos mais importantes musicistas e compositores coloniais brasileiros. Ele apenas pode se tornar Mestre da Capela Real e responsável pela música sacra que lá tocava depois de dispensado do defeito de que padecia.

De onde surgiu a inspiração para a criação deste romance?

Este romance nasceu da minha vontade de entender melhor o que foi a Revolução Malê, tão importante quanto curiosa, pois se trata de uma rebelião coordenada por escravos mulçumanos em plena Bahia, em 1835, e da qual passei todo o meu período escolar sem ter tomado conhecimento. Acredito que um interesse maior sobre esse assunto tenha surgido depois da invasão do Iraque, mas antes era mais conhecida apenas na Bahia e por estudiosos da história colonial e africanistas. Depois, quando ouvi falar de Luísa Mahin, o romance tomou outro rumo e a Revolução Malê acabou se concentrando mais em apenas um dos dez capítulos.

Que documentos serviram de base para a composição de um romance tão rico em detalhes e descrições de um longo período histórico do Brasil e da África?

No fim do livro há uma bibliografia com as fontes mais importantes. Foram muitos livros —acadêmicos, de ficção, de história, biografias, teses etc —, além de documentos de arquivo do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, do Arquivo Público do Estado da Bahia, do Arquivo Histórico do Município de Salvador, muitos jornais de época da Bahia, de São Paulo e do Rio de Janeiro, sites, entrevistas, conversas etc...
 
O que mais a surpreendeu na pesquisa?

Em primeiro lugar, a riqueza de material de pesquisa que há na Bahia e, em segundo, a quantidade de histórias interessantes que estão à espera de alguém que se interesse por contá-las. Ao contrário do que eu pensava, são muitos os documentos e manuscritos que dão voz aos negros e mulatos, escravos ou livres, e não apenas aos membros da sociedade pública ou civil dominante.  Há muitos documentos que ainda preservam a "fala" do negro, seja através de suas músicas, seus provérbios, sua cultura, sua tradição oral, seja através de cartas, de textos de anúncios em jornais, de textos de ficção, como contos e até mesmo romances, ou documentos como testamentos e referentes a processos judiciários. Ou seja, ainda há muito para ser estudado e recontado.

Num romance histórico, por mais que se pesquise a realidade, há sempre uma linha tênue separando o real da ficção. Como você trabalhou a relação entre realidade e ficção? Onde começa um e termina o outro?  

Não me importei muito com isso, mas sim em assimilar as características da época e compor ou encaixar personagens que poderiam ter atuado nela nas situações descritas no livro. Como o livro está narrado em primeira pessoa, tomei a liberdade de brincar muito com a memória e o ponto de vista da personagem narradora. O que ela fornece é apenas uma versão dos fatos, do jeito que ela viu, ouviu ou sentiu, é apenas um dos muitos lados que pode ter a história.

Mas o que é verdadeiro e o que é invenção na narrativa do livro? Até que ponto você acredita que a ficção tem que ser fidedigna à realidade para ser credível? 

Eu ficaria imensamente feliz se isso do que é verdade ou ficção pudesse ser respondido pelo leitor, que ele se interessasse em pesquisar o período histórico a que me ative. Tenho certeza de que deixei muitos fatos interessantes de fora, pois o livro tinha um propósito a ser seguido. Aliás, de todo o material de pesquisa que reuni, não cheguei a usar nem a metade, e muitos outros livros poderiam ser escritos com o que "sobrou". Diante de tanto material, confesso que até eu me confundo, tomando por realidade o que posso ter inventado a partir de alguns fatos, de algumas circunstâncias e mesmo de algumas pistas e leituras de entrelinhas. Grande parte dos personagens realmente existiu e os fatos históricos podem ser facilmente comprovados, mas a maneira como tais personagens atuaram ou deixaram de atuar sobre eles, pode ter sido apenas imaginado. Foi isso que tentei fazer, tendo em mente que sou romancista, e é como um romance  deve ser lido, deixando o rigor histórico para quem de direito.

O livro aborda alguns acontecimentos políticos da vida pública e política do Brasil, entre eles uma das mais importantes rebeliões de negros da história do país, a Revolução Malê. De que forma a senhora acredita que a ficção pode ajudar a entender a história, principalmente em acontecimentos pouco divulgados nos livros didáticos?   

No sentido de chamar a atenção do leitor sobre um determinado fato e fornecer elementos para que ele se sinta interessado em pesquisar mais sobre ele, se for o caso. Acredito que a Revolução Malê, se estudada mais a fundo, pode fornecer elementos importantes para ajudar a compreender, por exemplo, as Jihads, que já existiam há muito tempo no território africano antes de ganharem o mundo. A Revolução Malê teve o grande diferencial de, além de buscar o fim da escravatura, pretender instalar o que mais tarde se chamou de "Califado Baiano", acredito que inspirado no resultado de algumas guerras ocorridas em território africano e na revolução haitiana. Os escravos tinham um sistema muito eficiente de informações, seja através dos escravos que acabavam de chegar ao Brasil ou dos trabalhadores do navios que faziam comércio entre a América, a Europa e a África. E é interessante perceber como, pouco tempo depois, na década de noventa do século XVIII, Toussant L'Ouverture era considerado um herói pelos negros revolucionários da Bahia, que andavam com seu nome ou desenhos de seu rosto presos a patuás pendurados no pescoço. Lancei no livro muitas informações desse tipo, sem me aprofundar para não tornar a leitura enfandonha, mas querendo despertar a curiosidade do leitor mais atento e interessado.

Não é a primeira vez que a senhora conta uma história sob o olhar feminino, aconteceu em Ao lado e à margem do que sentes por mim, a narradora é uma mulher que retrata todos os acontecimentos e pensamentos de sua vida. Por que essa escolha de contar histórias através da alma feminina, será que é “influência do axé”?  

Não acho que tenha sido uma escolha, mas uma facilidade de, por enquanto, escrever sobre um universo que é mais meu conhecido. Facilita o processo de composição de personagem. Mas acredito que essa é uma pergunta que não seria feita a um homem que lançasse dois livros com personagens principais masculinos, então não é algo que me preocupe. Preocupo-me sim, e muito, com a composição de personagens, pois a história pode até ser absurda, mas eles não, precisam ser coerentes na trajetória e no pensamento do princípio ao fim, e no dia em que eu achar que posso fazer isso com um personagem masculino, farei. Mas para a história que eu queria contar em Um defeito de cor, a escolha de uma personagem/narradora era essencial, pois muitas coisas e muitas situações somente eram vivenciadas pelas mulheres e não fazia muito sentido colocar um homem para contá-las, além do que há todo um matriarcado interessante na tradição africana, que eu não poderia deixar de obedecer também no livro.

Kehinde e/ou Luísa Andrade da Silva é uma personagem que reflete a consciência do seu tempo. Como a construiu?

É mais fácil compor um personagem com o distanciamento no tempo, e Kehinde foi composta com muita pesquisa, juntando pedacinhos de personagens fictícias e reais que viveram mais ou menos na época em que ela está inserida. Aliás, ela também se equilibra nessa divisão de território entre o real e o imaginado. Kehinde foi inspirada em Luísa Mahin (mas para não confundir uma com outra, grafei o nome da minha Luísa com “s”), uma mulher que é lenda na Bahia, mas de quem não consegui confirmar a existência e sobre quem não se sabe muita coisa. Dizem que ela pode ter sido inventada pelo poeta Luís Gama, filho de um fidalgo português e de uma escrava baiana. A mãe desapareceu quando ele tinha por volta de sete anos e ele foi vendido pelo pai, aos dez, para quitar dívida de jogo. Dizem que ele pode tê-la inventado como uma mulher forte e uma das principais articuladoras da Rebelião Malê para dignificar um pouco o próprio passado. Criei a Kehinde pensando em como poderia ter sido a vida dela na África, quando foi capturada, no Brasil, passando pela Ilha de Itaparica, por Salvador, por São Luís, no Maranhão, pelas cidades do Recôncavo Baiano, por Santos, São Paulo e Campinas, pelo Rio de Janeiro, e de volta à África, em duas cidades, Uidá e Lagos. Nessas andanças ela também se relaciona de alguma maneira com personagens como Joaquim  Manoel de Macedo, autor de A Moreninha, com o filho de um dos escravos do Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, o Padre Voador da trama de Memorial do Convento, do Saramago, e com Amleto Ferreira, um dos personagens de Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo  Ribeiro.  Ou seja, ficciono também o que já era ficção, como pode ter acontecido com a vida de Luísa Mahin.
 
Quanto tempo demorou para escrever o livro, uma vez que é um romance caudaloso? Deu para conciliar outras atividades?

Foram dois anos de pesquisa, durante os quais também escrevi o Ao lado e à margem do que sentes por mim, e quando terminei já estava com o Um defeito de cor esquematizado. Então foram mais nove meses de escrita e quase um ano de reescrita e revisão, onde cortei mais de quinhentas páginas de um livro que ainda ficou 952 páginas. Eu me dediquei a apenas escrever, e durante todo o tempo me sustentei com a indispensável ajuda dos meus pais e a venda de um carro e de um apartamento, frutos de anos trabalhando em São Paulo, como publicitária. Vendi tudo e me mudei para a Bahia, para pesquisar e escrever, e morei em Itaparica e em Salvador. Não acredito muito na literatura como hobby, como algo que se faça nas horas vagas. Acredito que um bom livro e a manutenção de um certo padrão de qualidade, com raríssimas exceções, é conseguido com dedicação total. Não necessariamente apenas à escrita, mas existem outras atividades que também podem enriquecer a bagagem de um escritor, como as traduções, as palestras, os ensaios e artigos, os concursos literários, as aulas. Mas sempre ligado à literatura. Eu nunca vi, por exemplo, um bom médico tendo como trabalho principal uma outra função qualquer e exercendo a medicina apenas nas horas vagas, ou à noite e nos finais de semana, ou nas férias. Com o escritor deveria acontecer o mesmo, e talvez até exista quem consegue ter outra atividade paralela, necessária às circunstâncias, mas acho que eu não conseguiria. Gostaria muito de poder viver de literatura para me dedicar apenas a ela e sei da quase impossibilidade de isso acontecer. Mas também conheço algumas pessoas que vivem, e se deu certo para elas eu gostaria de pelo menos tentar.

A população negra brasileira continua amargando os piores indicadores sociais do país. A senhora acredita que o Brasil ainda não superou a herança escravista, o estigma do "defeito de cor" ?

Acredito que haja um grande resquício sim, mas não apenas. Não acredito que hoje em dia o negro seja marginalizado somente por causa da cor de sua pele, mas também por questões econômicas, educacionais e culturais. Um negro rico, instruído e culto não sofre o mesmo tipo de preconceito que um negro pobre, com nenhum ou com baixo grau de escolaridade e cultura. O negro do primeiro tipo passa a ser respeitado pela bagagem adquirida, é quase como se fosse “dispensado do defeito de cor”. Se mais negros tivessem a mesma oportunidade, a diferença racial deixaria de existir, como antes de, a partir de conceitos biológicos que se demonstraram infundados,  a inventarem. Durante muito tempo, mesmo na literatura produzida por negros ou mulatos, a referência a negros era pejorativa, preconceituosa ou depreciativa. Mas isso nem sempre era fruto de racismo, mas de uma hierarquia, de uma sociedade dividida entre quem mandava e quem obedecia, inclusive em lugares onde aconteceu a escravidão branca. Veja-se ocaso de Hitler com os judeus, por exemplos, ou a história dos eslavos, que trazem na nacionalidade a carga de uma situação que viveram. É engraçado perceber que o conceito de "racismo" pode ter surgido no Brasil com o movimento anti-racismo, que tomou forma por volta de 1830, quando o termo raça ainda não era tratado com o pseudo-cientificismo de um sentido biológico. Isso depois foi reforçado por uma série de pesquisas e estudos divulgados nas duas primeiras décadas do século XX, que buscavam justificar os interesses imperialistas na África, na Ásia e na América Latina. Sobre isso, Hannah Arendt diz que "se o racismo não existisse, o imperialismo o teria inventado". Foi por volta de 1830 que surgiram, nas universidades européias e norte-americanas, estudos classificatórios de raças que se tornaram bastante populares, talvez para justificarem a escravidão negra, e acabaram se estendendo sobre o passado e se lançam até os dias de hoje. Naquela época, nos jornais O Mulato, O Homem de Côr e O Crioulinho, comandados por "homens de cor" ou simpatizantes da causa, saíram vários artigos em defesa da população negra e mestiça livre, que, paradoxalmente, podem ter levado a um maior segregacionismo "racial". O que pretendiam era lutar pelo cumprimento dos direitos de cidadãos garantidos pela Constituição de 1824, mas se limitaram a pensar em uma camada da sociedade negra ou mulata que já era livre e que, portanto, já se encontrava em uma situação um pouco melhor do que a que permanecia escrava. Os escravos não eram considerados cidadãos, nem ao menos pessoas, mas apenas bens semoventes, como vacas, bois ou porcos; e também foram esquecidos pelos pretos que queriam lutar apenas pelos seus direitos de cidadãos livres, tendo nascido livres ou adquirido a liberdade. A escravidão, mesmo para eles, era tida como intocável.
Tenho receio de que isso hoje ocorra também com, por exemplo, a implantação de cotas universitárias, sistema que favorece o negro que já está distante da base social e econômica, pois conseguiu terminar o segundo grau, deixando de lado aquele que, por razões muito mais graves e sérias, nem pensa em chegar lá. Cria-se toda uma discussão desgastante e desvia-se o foco da verdadeira necessidade, que é implantar um sistema de política pública e social que iguale todos ainda na base, ainda em um período da vida em que uma criança vai crescer capaz de lutar por uma vaga universitária, como deve ser em regimes verdadeiramente democráticos.

Este é o seu primeiro livro editado por uma grande editora. Qual é a sua expectativa?

Acho que minha única expectativa deve ser quanto a continuar escrevendo. O resto é conseqüência.



Um defeito de cor
Ana Maria Gonçalves
R$ 99,90

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