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Carlos Moraes Home > Autores > Carlos Moraes
Entrevista - Agora Deus vai te pegar lá fora

O jornalista e escritor Carlos Moraes publica Agora Deus vai te pegar lá fora, que tem como subtítulo Anotações de um padre preso numa cidade sem zoológico. Carlos Moraes é gaúcho nascido em Lavras do Sul e criado em Bagé, onde foi ordenado padre em 1966 na diocese de Bagé. Em princípios da década de 70, foi julgado e condenado a cinco anos de reclusão pela Justiça Militar, com base na Lei de Segurança Nacional. Ficou preso na Cadeia Civil de Bagé à espera do julgamento, pois recorreu de sua sentença ao Superior Tribunal Militar, que, na época, estava se transferindo do Rio para Brasília. O livro conta a história de um padre à espera de dois alvarás de soltura: um de Roma, no qual dispensa de seus votos religiosos, e outro de Brasília, em que apela de sua condenação pela Justiça Militar da época. Hoje, Moraes mora em São Paulo e editou a revista Ícaro. Em 1981, ele ganhou o Prêmio Jabuti com o infanto-juvenil A vingança do timão, e há dois anos publicou pela Record Como ser feliz sem dar certo — e outras histórias de salvação pela bobagem, o qual considera um livro de contra-ajuda.

Você foi padre e preso político. Seu livro é uma autobiografia ou ficção?

As duas coisas. Um pouco do que nele se conta aconteceu mesmo naquela cadeia; outro pouco aconteceu também, mas não lá; outro pouco não aconteceu nunca e o resto merecia ter acontecido. Apanhei foi na hora de dar nome aos personagens. Alguns nomes de colegas reais foram ficando, mesmo quando nada ou pouco tem a ver com os fatos narrados. Foi mais por saudade, pela vontade de saber onde andam, o que fazem, se estão vivos ou mortos.

Como nasceu a idéia do livro?

Da idade e do chimarrão. Eis os dois grandes culpados. Com a idade a gente começa a acordar mais cedo, e um dia fiz um mate, sentei no computador e a coisa foi saindo, a trotezito, floxa no mais. Claro que eu já tinha uma idéia da história, até algumas notas soltas. No mais, a culpa é do chimarrão. Foi caindo tanta erva nas teclas que um dia minha mulher foi  limpar e reclamou: deu quase uma cuia. Expliquei que não tinha jeito, que o chimarrão fazia parte, mantinha vivo o lado verde, pampeano da história.

O  livro tem expressões bem gaúchas...

É, culpa do mate. Mas acho que nunca chegam ao maneirismo, a um regionalismo gratuito. Nasci em pleno pampa, em Cerro Branco, distrito de Lavras do Sul, onde minha mãe era professora rural. Vi uma cidade pela primeira vez ali pelos sete, oito anos. Minha infância foi vivida na década de 50 na gauchíssima  Bagé. Mas estou há mais de 30 anos em São Paulo, um outro mundo. Escrever é revisitar as próprias camadas arqueológicas, e as minhas são plenamente gaúchas. Assim que um certo tinido de esporas no texto é porque pampeano foi o meu mundo primordial, aquele que marca para sempre. E quando então, na cadeia, o personagem encontra gaúchos praticantes como o Bagual e Seu Noé, aí é que a coisa vira um relincho só.

Como você escreve? Estabelece uma certa disciplina?

Eu trabalho oito horas por dia, e tem o trânsito. Então na prática  eu só tenho as primeiras horas da manhã. É nessa agora que eu escrevo, todos os dias um pouquinho, com chimarrão. Me sinto tão bem. Dizer-se livremente logo de manhã cedo dá uma ossatura diferente ao dia.

Nos fins de semana, nada?

Nada. Eu fico com minha mulher numa casinha de floresta (com rio!) que a gente tem no litoral norte de São Paulo. Fico lá,  carregando terra, plantando, me reborquiando entre as pedras do riozinho.  Lidando com a vida de primeira mão. E depois, tem o Corinthians. Terra,  rio e  Corinthians – como vai sobrar tempo para o resto?

E tempo para ler?

Ah! isso sim é um sofrimento. Gostaria de ler mais. Tenho lacunas culturais lamentáveis.  No seminário a gente não podia ler tudo porque os superiores controlavam. Depois veio a vida de padre, o combate, a vontade de salvar o mundo antes do fim do primeiro ano. Depois, aqui em São Paulo, essa batalha pela sobrevivência, os filhos. Sim, eu gostaria de ler mais. Nunca li Machado de Assis, por exemplo. Leio muita poesia, isso sim. Jorge Luis Borges, Ferreira Gullar, Manoel de Barros, Adélia Prado. A poesia diz tudo, diz rápido, e com música.

Pensa nos leitores, nos críticos?

Eu me divirto, deixo fluir. A gente não faz melhor ou diferente por três motivos: falta de talento, falta de tempo e de prazer. Críticos nem me percebem muito porque minha postura nem é seriamente literária. Qualquer coisa, eu pergunto pra eles: cara, por que não vai te meter com alguém do teu tamanho?

Seu livro sai num tempo que se discute muito nosso sistema carcerário, especialmente depois de Carandiru, o filme e o livro.

Tenho lido pouco e menos ainda ido ao cinema. Infelizmente não li ainda o livro de  Drauzio Varella nem vi o filme do Babenco. E acho que nada de sólido poderia dizer sobre nosso chamado sistema prisional. Faço minhas as palavras do personagem no livro: “Eu o que não pego no lampejo, análise nenhuma depois me revela”.  No tempo em que estive preso, nunca cheguei a uma depressão profunda e nem àquela estóica serenidade propícia à  reflexão. Fiquei ali me segurando entre as duas. Então não analiso nada, só conto, vivo histórias.

Mas que são histórias de um preso político...

Um curioso preso político. Na Justiça Militar de Bagé eu fui condenado por unanimidade;  em Brasília, absolvido quase por unanimidade. O que prova que ninguém produz ficção melhor do que uma ditadura. Diante do que passaram militantes de esquerda nos grandes centros, eu chegava a me sentir até meio mal. Minha prisão foi mais Kafka que Marx. No livro, as cenas mais surrealistas são próximas do real e as mais maneiras foram as  inventadas. Se uma modesta contribuição política meu livro tem é mostrar um pouco como se dava a pequena, mesquinha e manhosa repressão no interior.

Ouvindo-o falar, parece que o personagem é mesmo você.

Mas não é. Às vezes ele igual, às vezes melhor, às vezes consegue ser pior que eu.  Seu apelido de família diz tudo: Tio Clésio, tio meio retardado que,  por ver tudo com certo atraso, às vezes via melhor também. É um professor do seminário quem melhor define o personagem: "Um raro caso de ingênuo capaz de ironia". Por ironias talvez ele tenha sido preso, e graças ao seu lado  meio lírico coisas engraçadas vão acontecendo em torno dele. Tem gente que, mesmo entre bandidos, tem o dom de despertar a candura alheia. O padre João Silveira é meio assim.

Mas às vezes não são divertidas demais para uma cadeia?

Eu vivi muitas coisas naquela cadeia, algumas delas bem antes de ficar padre. E posso dizer que, no dia-a-dia, as relações humanas numa cadeia não tão diferentes das que acontecem num convento, numa empresa, numa família. Parece que, a certa altura, por estranho que pareça, a miséria e a precariedade resultam numa  certa liberdade interior, num sentido  mais ágil e apurado de comunhão e de festa.


Você não tem medo de ser acusado de estar a favor do crime?

Tem que ver que crime. Imagina um político safado. Ele superfatura, leva por fora, rouba milhões numa sala bonita e limpa. Friamente, covardemente. Milhares de pessoas vão penar num corredor de hospital por causa daquele dinheiro que, serenamente, vai para um paraíso fiscal qualquer. Já crime de pobre exige trabalho, risco, envolvimento corporal, coragem física e risco real de cadeia, coisa que entre altos corruptos é a mais descarada exceção. Me sinto mal dizendo isso, mas consigo ver certo triste e avesso mérito no bandido comum.


Por que se joga tanto futebol no seu livro?

Pois é. Só depois de escrito é que eu percebi: é muito futebol. Mas diga-se a favor do réu   que raramente é puro futebol. No meu futebol o que mais se joga é o jogo da vida. Tanto que, vezes, claramente Deus entra em campo, chega junto, e de pés descalços. No livro, uma das cenas mais delicadas sobre a existência de Deus e o sentido das igrejas se dá uma noite, madrugada adentro, depois de um jogo de futebol.

No que você acredita hoje?

Como diz meu personagem padre, na dificuldade de separar a graça de Deus da graça da vida. O perfeito funcionamento do Universo pode ser explicado por alguma forma de inteligência da matéria impessoal. Mas a beleza, não. A beleza mundo, das coisas, das pessoas implica em alguma intenção, algum carinho, algum olhar pessoal. Na graça do mundo algum Espírito sopra.



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