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Márcio Souza Home > Autores > Márcio Souza
Entrevista - Desordem e Lealdade e Galvez, imperador do Acre

Com o lançamento do romance Desordem, segundo volume das Crônicas do Grão-Pará e Rio Negro, em conjunto com a reedição de Lealdade (primeiro volume da série) e de Galvez Imperador do Acre, a Editora Record inicia a publicação da ficção completa do escritor Márcio Souza, um dos autores mais vendidos do país. Segundo o romancista, as Crônicas são um grande painel da história da região amazônica na primeira metade do século XIX. Misturando personagens reais e fictícios, Márcio Souza demonstra como o Império do Brasil transformou um avançado projeto de nação que era o Grão-Pará na trágica fronteira econômica que hoje se chama Amazônia. Nesta entrevista, o autor fala sobre a gênese desta obra e das pesquisas necessárias para sua realização. Além disso, ele também discorre sobre a técnica de elaboração de romances históricos e sobre as terríveis conseqüências que tanto a anexação da antiga colônia do Grão-Pará, como a Cabanagem trouxeram para a população desta área. Em breve, a Record encerrará o lançamento da tetralogia com a publicação de Revolta e de Derrota, respectivamente  o terceiro e o quarto volume das Crônicas do Grão-Pará e Rio Negro.

Como surgiu a idéia de escrever as Crônicas do Grão Pará e Rio Negro e qual sua importância para o resgate da história da região amazônica?
 
Provavelmente esta é a primeira aproximação que é feita, seja do ponto de vista historiográfico, seja do ponto de vista literário, sobre este período da história do Brasil. Busquei responder uma determinada pergunta que me acompanhou durante muito tempo: o que realmente aconteceu na região amazônica durante o século XIX ? Há uma espécie de amnésia histórica. Nesta região, este período se erroneamente se confunde com o Ciclo da Borracha, que só ocorreu num período muito curto do final daquele século. Tecnicamente a exploração moderna da borracha pertence ao século XX. Observando essa confusão histórica, percebe-se que o século XIX não existiu, visto que não tem história. De fato, durante muito tempo foi difícil responder essa pergunta, até porque havia muito pouco material disponível. Praticamente não se encontravam documentos do período. Mas há uns cinco anos o arquivo público do Pará sofreu uma reforma e transformou-se em um centro de pesquisas importante. Este arquivo guarda os documentos de um projeto de país que não deu certo. A pergunta começou então a ser respondida não só a partir do contato com a documentação que se encontra no Pará, mas também com a pesquisa de documento que se encontram no Museu Britânico e na Biblioteca Nacional de Paris.

O que esses documentos revelaram ?

A pesquisa desses documentos prova de vez que existiam duas administrações  coloniais distintas. A história que é ensinada na escola secundária dá a impressão que o Brasil sempre teve a configuração atual, o que está longe de ser verdade. As duas colônias eram administradas por Portugal, mas com estratégias totalmente diferentes. Havia um modelo econômico para a colônia do Vice-Reino do Brasil, e outro para a colônia do Grão-Pará e Rio Negro. Esse processo histórico formou culturas distintas, com elites ideologicamente diferentes, que entraram em conflito quando se uniram. Antes disto ocorrer, o único ponto de contato entre as duas colônias era o fato de pertencerem a mesma Metrópole.

Havia realmente um projeto de nação para o Grão-Pará ? Como a região foi incorporada ao Império do Brasil?

No Grão-Pará, assim como no Brasil, havia uma perspectiva independentista, mas não um projeto nacional definido. Os publicistas paraenses tinha bem claro algumas idéias para o Grão-Pará livre. Eles eram republicanos, logo não se conformaram com a formação de um Império liderado por um soberano português, ainda mais da Casa de Bragança. A elite do Sul concluiu que era necessário destruir a elite do Norte, e foi este o projeto que José Bonifácio — uma das figuras mais sinistras da história brasileira — e o Regente Feijó levaram a cabo. O Império do Brasil partiu para uma estratégia de provocação deliberada, marcada pela imposição de governantes cruéis e inábeis. Isto culminou com a deflagração da Cabanagem, que foi maior insurreição da América do Sul, e que é o tema do terceiro volume das Crônicas, o Revolta.

As Crônicas são consagradas a Érico Verissimo; e assim como O Tempo e o Vento formam o painel de uma região nacional. Em que medida o senhor foi influenciado pelo autor gaúcho e quais os pontos de convergência e de divergência entre as duas obras?

Eu tenho uma grande admiração pelo Érico, mas acredito não ter parentesco literário com sua literatura. Acho que  o ponto de aproximação é a criação do grande painel. Ele realizou-o para o Rio Grande do Sul de uma forma única, através dos mitos e das mitologias de seus povos. Trata-se da saga da construção de um povo, permeada por uma narrativa muito mais próxima formalmente do romance do século XIX. No caso da minha tetralogia, elaboro uma saga que descreve a destruição e não a construção de um processo regional. A estrutura da minha narrativa é muito mais seca e não está mergulhada na mitologia. Ela também mantém uma certa relação irônica com a idéia do romance histórico, o que não ocorria com o Érico. Pode-se observar tanto no Lealdade como no Desordem, uma certa visão crítica em relação à própria narrativa. São distinções importantes.

Embora a história real seja inteiramente respeitada, o senhor fugiu do modelo clássico de romance histórico. Como o senhor equilibrou o painel histórico com o ficcional?

Observando bem, esses não são romances históricos em sentido estrito. Os livros históricos clássicos seguem uma trilha muito próxima da narrativa histórica antiga. A diferença é que o romancista se dá ao luxo de saber o que os personagens estão pensando, enquanto o historiador só narra o que está documentado. Não é o que acontece em Lealdade e em Desordem, que são romances cujos cenários estão situados no século XIX, mas a narrativa que conduz o romances não é histórica. Em Lealdade a história é contada a partir do ponto de vista de um personagem fictício, Fernando, que interage com personagens verdadeiros, como o cônego Batista Campos e o naturalista Alexandre Ferreira. Busquei ser mais verossímel do que verídico. Isto me afastou da estrutura tradicional dos romances históricos. Permiti-me realizar um jogo entre o que aconteceu e o que não aconteceu, entre o que foi histórico e o que não foi.

Que dificuldades o senhor encontrou com a linguagem da primeira metade do século XIX?

O fato de ser um romance que se passa no século XIX levanta desafios importantes para sua elaboração, principalmente o trabalho da linguagem. Especialmente porque minha opção foi escrever os romances na primeira pessoa. Embora normalmente eu não trabalhe nos meus romances com um narrador na primeira pessoa, fiz esta opção porque achei que no caso das Crônicas, esta solução introduziria o leitor mais facilmente no passado. O narrador na primeira pessoa estabelece uma espécie de diálogo com o leitor, uma conversa particular que faz com que este aceite com mais facilidade os pressupostos da verossimilhança daquele passado. Isto faz com que eu não tenha de mimetizar o português do século XIX , ou utilizar-me de outros artifícios. Assim, preciso apenas deixar indicada a cor local do passado sem ter que incorrer em exageros. O maior problema da narração na primeira pessoa é permanecer dentro dos limites intelectuais do personagem que narra a história. No Lealdade, o narrador, Fernando, é um personagem de formação puramente militar, o que implica num estilo seco, sem qualquer arroubo literário. Tive que pesquisar muitos relatórios militares para desenvolver seu estilo de narrar. A adaptação do vernáculo à personalidade do narrador agrava-se no segundo volume, porque além da narradora, Simone, ser uma personagem feminina, ela também é estrangeira.

Apesar de o núcleo dos personagens dois primeiros romances que formam as Crônicas ser o mesmo, cada livro apresenta um narrador diferente. Desta forma o leitor consegue ver os personagens de ângulos distintos. O Sr. poderia falar sobre este recurso e seus efeitos?

Os objetivos dos narradores ao escreverem suas histórias são distintos. Aparentemente, Fernando, o narrador de Lealdade, escreveu suas impressões já derrotado e nunca pensou em publicá-las. Quando sua narrativa se inicia ele é um fugitivo que caso fosse apanhado provavelmente seria fuzilado. Quando ele reaparece em Desordem, já o vemos a partir do ponto de vista de Simone. Eu mexo com a perspectiva.  Do ponto de vista da estratégia da construção da narrativa é importante que Fernando seja o personagem principal porque ele é a pessoa mais vulnerável da história. Através dele  podemos entender o dilema daquela geração. Ele era filho rico de portugueses e não tinha a cultura política que personagens reais como o cônego Batista Campos ou Eduardo Angelim possuíam. Em Desordem, pesei mais o fato de a narradora ser estrangeira do que mulher. Ela tem um olhar privilegiado sobre este período brasileiro porque olha de fora, e seu envolvimento sentimental com Fernando permite que ela narre a história de Desordem. A mudança de narradores permite-me direcionar a construção narrativa e leva o leitor a compreender o período mais profundamente. Eu poderia ter optado em centralizar a história na biografia do cônego e usar sua biografia como fio condutor da história, mas preferi ter espaço para a criação.

Qual a importância histórica do cônego Batista Campos para a história do Grão-Pará e Rio Negro?

Batista Campos está para o Grão Pará assim como Frei Caneca está para Pernambuco. Ele era o político mais bem preparado para desenvolver a conciliação necessária entre o Grão-Pará e o Império do Brasil. Era o único político capaz de segurar as forças radicais da região e de dialogar em pé de igualdade com os representantes do Império. Porém,  ele teve uma morte estúpida e prematura, vítima de gangrena ao cortar-se fazendo a barba. Assim que sua liderança desapareceu, ocorreu a radicalização do processo que terminou na eclosão da Cabanagem. Foi neste momento que o Império do Brasil conseguiu transformar um projeto de nação em fronteira econômica. O cônego editou sozinho o jornal O Paraense, e a publicação das suas obras e discursos é uma dívida que precisa ser saldada

Fica claro na leitura dos romances que a economia do Grão-Pará era muito dinâmica, mas que a incorporação ao Império do Brasil levou-a à decadência, ou, como o senhor disse, transformou a região em mera fronteira econômica. Como se deu este processo? 

Basicamente a economia do Grão-Pará e Rio Negro se baseava na pequena propriedade agrícola. Plantava-se principalmente café — que entrou no Brasil pela Amazônia, vindo da Venezuela —algodão e anil. Na calha do Rio Amazonas havia uma indústria naval incipiente e na área do Pará propriamente dito encontravam-se as manufaturas de produtos de látex, serrarias e uma série de pequenas estruturas industriais. Além disso, havia  o extrativismo de especiarias da terra voltado para a exportação. Todas essas atividades econômicas exigiam mão-de-obra livre. O trabalho escravo nesta região era incidental, praticamente irrelevante. Essa estrutura, organizada no período colonial, entrou em decadência porque o Império do Brasil não desejava esse modelo. Simplesmente solapou-se o que já existia. Em Revolta isto fica evidenciado no episódio da destruição da fazenda do Malcher — um fato real —, que era uma das mais produtivas da região.

Quais foram os principais impactos econômicos da Cabanagem?

Toda a economia do Pará foi sucateada, a cidade de Belém foi arruinada e o campo regrediu para uma economia de sustento e de trocas. Em 1840, quando o processo de integração do Grão-Pará ao Império do Brasil foi encerrado — com a anistia concedida pela Regência —, 40% da população tinha desaparecido. A recuperação econômica da região veio com a própria divisão internacional do trabalho, e não por meio do governo Império. Com a Segunda fase da Revolução Industrial, por volta de 1880, a borracha transformou-se em uma das matérias-primas essenciais para a indústria. Foi essa inserção que permitiu a Amazônia sair do atoleiro no qual se encontrava desde  a independência do Brasil.

Em que medida esses fatos ocorridos há quase duzentos anos determinam a situação da Amazônia atual?

Totalmente. Entende-se a questão da região a partir de processo da sua anexação. Imagine se o Rio de Janeiro tivesse perdido quase a metade da sua população entre 1823 e 1840? Quais seriam as conseqüências disto. Embora esse massacre tenha ocorrido, não se desenvolveu na Região Norte um sentimento de separatismo como ocorreu no Sul. Podemos fazer um comparação com a Guerra de Secessão nos Estados Unidos, só que aqui infelizmente quem venceu foi o Sul e não o Norte. Por isso não suporto ouvir dizer que o modelo econômico atrasado é um fardo que os paulistas levam nas costas. Tem que se entender o contexto nacional em uma perspectiva histórica.

Qual foi o legado da Cabanagem, que é o tema do terceiro volume das Crônicas, o Revolta, que deverá ser lançado no ano que vem?

Ao longo do século XIX, especialmente durante o Segundo Reinado, percebeu-se um fenômeno interessante. Em função da Cabanagem, a maioria dos políticos nortistas eram liberais, favoráveis à abolição da escravatura. Os contatos com os ideais da Ilustração, que nortearam o movimento, permaneceram na memória da população. A Cabanagem, em seu final, entranhou-se muito no imaginário das populações pobres e entre os povos indígenas. Esses povos aprenderam as táticas de resistência e acredito que só tenham sobrevivido até hoje porque aprenderam a resistir naquele momento.

Desordem descreve ricamente a sociedade paraense do princípio do Segundo Reinado. Destaca-se no romance a atuação de uma instituição formada exclusivamente por mulheres, a Sociedade das Novas Amazonas. O que foi esta organização política e qual seu papel na Cabanagem?

Foi uma organização surpreendente para o papel e para a posição que as mulheres ocupavam na sociedade ocidental naquele período. Mesmo as mulheres européias, até as mais ousadas, só tiveram papel de destaque na sociedade vinte anos depois do quê se verificou em Belém. A Sociedade das Novas Amazonas era estruturada no modelo das lojas maçônicas e seus estatutos disfarçavam a natureza política da instituição. Aparentemente, era uma sociedade voltada para reuniões sobre temas voltados para as prendas do lar, mas na verdade tinham uma atuação política forte. Tiveram intensa participação nos governos cabanos e só foram dissolvidas após intensa repressão. As novas amazonas eram mulheres em sua maioria da alta sociedade, mas havia representantes dos setores médios e pobres da população, especialmente lavradoras do interior. Participaram como força auxiliar importante durante os combates da Cabanagem, mas não chegaram propriamente a participar destes.

A Record está aproveitando o lançamento de Lealdade e de Desordem para começar a relançar sua obras de ficção...

Junto com os dois volumes das Crônicas saiu Galvez, imperador do Acre. Em julho deve sair o Mad Maria, e até o final do ano pretendo relançar outro romance, mas o título ainda não foi escolhido. Provavelmente quando eu lançar o Revolta, deve sair mais um. Aos poucos, em um ano e meio, todos meus romances estarão reeditados pela Record. O relançamento dos meus títulos me deixará livre do assédio de leitores que procuram determinados livros.

Depois de vinte e cinco anos do seu lançamento e de mais de um milhão de cópias vendidas, com o senhor vê Galvez, imperador do Acre?

Eu não lia o livro há muito tempo — raramente volto a ler o que escrevo —, mas tive que dar uma olhada no texto para cotejar as edições. Aproveitei para mexer em algumas coisas, o que deve enlouquecer os pesquisadores no futuro. Senti-me muito confortável lendo-o novamente. Lembro-me que quando o escrevi tive uma grande preocupação em evitar que o romance descambasse para um humor secundarista, um humor juvenil. Acho que consegui faze-lo e posso dizer que sua leitura, vinte e cinco anos depois, deu-me grande prazer. 



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