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Entrevista - Humana Festa

"De quebra, tentei ajudar a melhorar o mundo"

Uma obra pioneira. Humana Festa, de Regina Rheda, pode ser considerado o primeiro romance brasileiro a tratar dos direitos animais. Às vésperas de completar 52 anos — no dia 6 de janeiro —, essa paulista de Santa Cruz do Rio Pardo que vive desde 1999 nos Estados Unidos transforma em ficção a causa do veganismo, adotada por ela há oito anos. Regina não consome nenhum tipo de alimento ou produto de origem animal. No livro lançado pela Record, ela centra sua história em dois casais que vivem conflitos relacionados ao tema. De um lado está a ativista Sybill e seu marido Bob, um chef que tenta a todo custa convencê-la que sua postural radical diante do veganismo é equívoca. De hábitos idênticos, a filha dela, Megan, passa a namorar o brasileiro Diogo, filho de um fazendeiro brasileiro, especialista na exploração dos animais. Uma visita dela à família do futuro marido em um latifúndio no interior de São Paulo desencadeia o conflito.

Por que abordar os direitos animais como principal temática de Humana Festa?

A idéia surgiu da minha indignação com a maneira que os seres humanos encaram os outros animais. Para quase todos nós, humanos, os animais são pouco mais do que “coisas” que só apareceram no mundo para nos servir como comida, roupa, diversão ou companhia. Por causa dessa maneira de encararmos os outros animais, vivemos numa civilização estruturada sobre uma grande injustiça. Todos os anos, o ser humano usa muitas dezenas de bilhões de animais, os faz sofrer e depois os mata, só por causa do sabor dos produtos feitos a partir desses animais. A ONU divulgou que a criação de animais para consumo, como a pecuária, é uma das principais emissoras de gases causadores do efeito estufa e grande poluidora da água potável do planeta. Enfim, o uso de animais por humanos não se justifica, seja do ponto de vista da ética, do ambiente ou da saúde. Os animais têm o direito a não serem usados como nossos recursos. Eles têm o direito a não ser considerados nossa propriedade.

O tema é realmente urgente e interessante, mas não deixa de ser peculiar mostrá-lo em um romance.

O tema desse romance talvez pareça peculiar a muita gente porque ainda não se encara os animais como seres que estão na condição de “pessoas”, em vez de estarem na condição de “propriedade” dos humanos. A literatura tem sido eminentemente antropocêntrica. Mas um romance como Humana Festa está no mesmo patamar de qualquer outro que trate de outras formas de injustiça contra seres que não querem ser dominados, usados, torturados e mortos, por exemplo, a escravidão humana, o racismo, o anti-semitismo, a homofobia, etc. De qualquer modo, não existe tema que não possa ser trabalhado em literatura. Literatura se faz com palavras e tudo é possível. Seria diferente se estivéssemos tratando de um filme com a mesma temática. A menos que pudessem filmá-lo somente com imagens de animais criadas em computador, ou criadas de uma maneira que não usasse animais de verdade, eu nunca faria o filme Humana Festa. Afinal de contas, animal não quer ser artista de cinema.

O romance pode ser considerado pioneiro?

Humana Festa pode ser visto como peculiar no sentido de que está sendo pioneiro, no Brasil, em elaborar sobre os direitos animais como assunto principal, e está sendo considerado um romance original. Mas é perfeitamente possível que, conforme o nosso paradigma de relação com os outros animais for mudando, apareçam cada vez mais romancistas veganos e alguns desses romancistas queiram tratar mais especificamente da injustiça cometida contra os animais em seus escritos.

Quais foram os cuidados para que a abordagem não ficasse com cara de discurso ideológico ou ecológico?

O humor me ajudou na hora de equilibrar representação, emoção e conceito. Em momentos que pudessem soar mais militantes que literários, procurei incluir algum fator engraçado ou irônico. Mas não foi muito fácil trabalhar, com humor e ironia, um tema delicado e, ao mesmo tempo, terrível. Usei humor, mas com muito cuidado para que, em determinados casos, a graça fosse percebida pelos leitores como restrita às personagens e às situações que elas vivem (no caso de Megan e Sybil), e não como um sinal de desprezo da autora pelos esforços dos ativistas. Também tentei trabalhar o humor, além de outros fatores, de forma a deixar o mais claro possível que certas atitudes de certos personagens têm uma atitude correspondente criticável na vida real. Outras vezes, fiz uso de ironia sutil e ambígua, pelo puro prazer de escrever ironias. Mais importante ainda, tomei muito cuidado para jamais banalizar a situação dos animais.

Dê exemplos dessas ironias.

Humana Festa é um romance com muitas idéias e alguns personagens que militam por uma causa, então outra preocupação minha foi colocar as frases que são um pouco mais “panfletárias” somente na boca desses personagens, já que, se eles fossem gente de verdade, diriam aquelas frases. As personagens Megan e Sybil são ativistas pelos direitos animais, então eu permiti que, às vezes, elas dissessem coisas mais didáticas. Mesmo assim, amenizei com elementos humorísticos. Diogo, antes de se tornar vegano, critica a namorada por aquilo que ele percebe como “pregação chata”. Cada vez que Megan faz uma pregação, ele marca um ponto contra ela num bloquinho. Em contrapartida, ela marca um ponto contra ele, toda vez que ele faz ou diz algo que ela considera especista. Creio que essa dinâmica tenha dado um sabor gostoso à aparente panfletagem de certas falas e tenha enriquecido a interação entre os personagens.
 
Humana Festa também tem por trás uma trama familiar, mostrando pessoas em conflito. Essa foi a forma encontrada de tornar a história mais palatável ao leitor?

Em cada letra que escrevi desse romance eu me apliquei ao máximo para dar prazer ao leitor. Quando apresento questões desagradáveis, tento equilibrá-las com humor, surpresas, idéias inusitadas, imagens bonitas, narrativa envolvente. A família Bezerra Leitão vive aqueles conflitos porque precisei criar personagens — e personagens interagindo em romances precisam viver conflitos. Como a história se passa nos dias atuais, as personagens vivem problemas de hoje. A ideologia de Bezerra Leitão é a da nossa sociedade patriarcal, onde vigora o domínio dos machos poderosos e violentos sobre todos os outros seres diferentes deles: mulheres, animais, homossexuais, crianças, pessoas cuja pele tenha outra cor. Não seria absurdo dizer que a desagregação daquela família Leitão reflete a minha vontade de ver o modelo patriarcal ruir.

Qual é o seu envolvimento com a defesa dos animais?

Meu envolvimento com a defesa dos animais é ser vegana, fazer traduções autorizadas de textos sobre a abolição da exploração animal e passar essas idéias às outras pessoas, mostrando-lhes a importância do veganismo. Tenho seis gatos em casa e alimento outro, um gato feral que nos visita durante o almoço e a janta. Todos os meus gatos foram adotados depois de salvos do abandono, e dois deles vieram comigo de São Paulo para morar nos Estados Unidos. Tenho uma gata preta, a Samantha, em quem me inspirei para escrever os doze gatos adotados pela personagem Sybil.

O que faz você comprar essa causa em livro também?

Eu costumo escrever movida por um assunto que me apaixone. Desta vez, foi direitos animais. Na minha opinião, a razão para a existência de um romance é permitir ao autor que ele se expresse através de sua obra. O autor precisa ter total liberdade para se expressar, qualquer que seja o assunto e seu estilo. Tal liberdade lhe permite, inclusive, escolher escrever de alguma forma que, no seu entender, ajude a melhorar o mundo. Mas esta não é a principal finalidade de um romance. Esta é a principal finalidade de um livro de teoria de caráter filosófico ou científico, ou de ensaios e panfletos educativos. Eu escrevi o Humana Festa para me expressar livremente por meio de um trabalho artístico sobre um assunto que considero apaixonante; de quebra, tentei ajudar a melhorar o mundo.
 
Você é vegana desde 2000, certo? O que levou você a essa opção?

Eu era uma carnívora inveterada. Uma parte de mim se preocupava com os animais, tinha dó do que fazem com eles nos circos e nos laboratórios de pesquisa, adotava gato ou cachorro de rua. Mas também comia carnes e outros produtos animais, ia a zoológico e, ainda por cima, achava que não havia maneira de produzir ciência confiável sem o sacrifício de animais. Há oito anos, um pouco depois de eu me mudar para os Estados Unidos, vi um website de defesa animal com fotos impressionantes explicando tudo o que os animais passam nas fazendas, nos matadouros e durante a pesca para produzirem os produtos que os humanos consomem. Olhava as fotos e chorava, chorava... Saí do computador e fui fazer outras coisas, mas continuei chorando... Naquela noite, meu jantar foi totalmente vegano e eu disse ao meu marido que nunca mais compraria nada que tivesse sido feito às custas de qualquer animal.

O que o fato de viver nos Estados Unidos influenciou na criação dessa obra? Existe um olhar distanciado do Brasil?

Acho que meu veganismo teria tardado a chegar, se eu não tivesse mudado para os Estados Unidos em 1999. Foi no ambiente americano, um ano depois da minha mudança, que as informações sobre a defesa animal me alcançaram. Aqui nasceram, trabalham e vivem os dois principais autores de teorias de direitos animais, que são Tom Regan e Gary L. Francione. Aqui, quase todo mundo sabe o que é um vegan. Moro numa cidade pequena, linda e bastante arborizada do norte da Flórida, chamada Gainesville. Ela me serviu de inspiração para criar as partes que se passam na cidadezinha de Weekeewawkeeville, onde vivem os personagens Megan, Diogo, River e doutor Stanley.

É mais difícil misturar personagens de várias nacionalidades?

Sempre gostei de escrever sobre a relação entre personagens de diferentes nacionalidades e diferentes visões de mundo. Depois de mudar para os Estados Unidos, esse gosto aumentou. Eu não vejo o Brasil à distância; vivo nos dois mundos. Na minha cabeça, tudo que presencio no dia-a-dia, ou que me chega do Brasil, passa por uma versão bilíngüe. Em casa, converso nas duas línguas e invento palavras brincalhonas, mais ou menos como fazem as crianças.

O quanto tem de você nas experiências dos personagens?

Se escrever um romance é sonhar um romance, e se todos os personagens de um sonho são representações da pessoa que está sonhando, então eu posso dizer que todos os personagens do meu livro são representações de mim mesma. A fazenda dos Bezerra Leitão foi escrita a partir de lembranças das férias que eu passei, quando criança no interior de São Paulo. Durante minha vida no Brasil, tive contato com gente que possuía algum tipo de fazenda. Eu me divertia com meus primos, andava a cavalo e dava mamadeira para os carneirinhos. Achava gozado que, depois de passear um pouco sobre o cavalo, ele sempre voltava correndo para beber água no cocho. O que eu não sabia é que os cavalos eram forçados a passar sede durante a doma e durante o dia inteiro também, para ficarem obedientes. No romance, eu reproduzo a imagem que me ficou dos bichos tristes e apáticos em ambientes fedidos e poeirentos, da superpopulação de moscas que plantam bernes nas carnes deles e das pessoas.

Um tema muito forte no livro é o choque de culturas, principalmente a partir de Dona Orquídea. Para você, o que essa personagem, representante de um mundo tão simples, simboliza na obra?

Dona Orquídea é uma senhora simples, muito pobre e sem cultura formal, mas bastante inteligente e sensível. Ela não come nenhum produto de origem animal porque tem nojo desses produtos e dó dos animais. Sua patroa Vanessa chama-a de vegana, mas ela não chega a ser. Ela tem preconceito contra gato preto e critica quem não usa lã e couro. Ficamos com a impressão de que se aparecesse um ativista em sua vida, que soubesse orientá-la, ela se tornaria vegana. E a ironia é que esse vegano aparece realmente, na forma de Megan e Diogo, mas diferenças de classe, cultura e idioma impedem que haja uma interação entre ela e esses dois. Eu me senti angustiada durante a escrita das cenas em que dona Orquídea está fisicamente tão próxima de Megan, mas culturalmente tão distante; se pudesse ter havido uma comunicação entre as duas, talvez dona Orquídea aprendesse sobre o que fazer para ajudar de verdade os animais.
 
No final das contas, Humana Festa é um romance extremamente otimista, pelo menos para os defensores do veganismo? Foi essa mesma sua idéia?

Eu não quis dar um final escancaradamente feliz para a trama porque acho isso bobo. Humana Festa combina uma mistura de sucessos e fracassos. Algumas vezes, no decorrer do romance, é representada, de um modo ou de outro, a noção de que a solução para o problema dos animais é sermos veganos e educarmos a sociedade sobre o veganismo. Há personagens que agem conforme essa proposta: então, neste caso, os fracos e indefesos estão se dando bem. No final, a decisão tomada por Diogo mostra que os fracos estão se dando bem. Essa conversa de Diogo com Megan representa otimismo sim. 



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