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Entrevista - Vianinha, cúmplice da paixão

Segundo a crítica Helena Silveira, Vianinha foi “o menino que saiu do grande laboratório que foi o Teatro de Arena, para dar seu recado político e existencial como autor e ator que jamais traiu sua formação, suas idéias e seus ideais”. Para contar um pouco dessa carreira e do homem por trás dela, o jornalista Dênis de Moraes escreveu Vianinha, cúmplice da paixão, originalmente publicado em  1991 e que agora ganha nova edição, revista e ampliada. Mas o livro é muito mais que uma simples reedição. Com a abertura de uma série de arquivos — inclusive do SNI — Dênis teve acesso a várias fontes novas e praticamente o reconstruiu.

O que mudou em seu livro em relação à primeira edição, de 1991?

Achei que era preciso atualizar o livro, pois, nos últimos dez anos, muita coisa aconteceu no Brasil. Foram liberados à consulta os arquivos de Polícia Política e da Divisão de Censura de Diversões Públicas. Várias obras sobre Oduvaldo Vianna Filho saíram depois da minha; era preciso avaliar o que acrescentavam ao meu estudo. Também esmiucei os ensaios e entrevistas de Vianinha, para detalhar suas idéias sobre política, cultura, teatro e televisão. Ele não foi apenas autor e ator, mas também — como agora procuro realçar — um pensador da cultura como fator de conscientização e transformação social. O resultado desse esforço foi um acréscimo de cerca de 25% de conteúdo em relação à primeira versão do livro. Agora, a espinha dorsal da biografia foi preservada, principalmente o painel cultural e político das décadas de 50, 60 e 70. A produção intelectual de Vianinha tem estreita conexão com o processo histórico; era preciso, portanto, contextualizá-la.

Como você define o homem, o artista e o militante Oduvaldo Vianna Filho?

Acima de tudo, ele foi um apaixonado pela política e pela luta social. Abriu mão do conforto material e de uma carreira estável em nome da militância em tempo integral. A sua vida afetiva e familiar fica em segundo plano, embora tenha sido um dos grandes namoradores do meio artístico da época. Mas eram relações geralmente efêmeras, que não resistiam à supremacia da política. Antes do golpe militar de 1964, deu o melhor de si ao Teatro de Arena de São Paulo e, sobretudo, ao Centro Popular de Cultura da UNE, que liderou com rara dedicação. Chegava a dormir dias seguidos na sede do CPC, tantos eram os compromissos a realizar, inclusive como autor e ator nos célebres esquetes do teatro de rua do CPC. Por outro lado, Vianinha tinha uma urgência de criação, como se intuísse que viveria pouco (morreu aos 38 anos, de câncer no pulmão). Jogava-se por inteiro em tudo o que fazia. Se estava com febre de 40 graus e recebesse telefonema de um companheiro do Partido Comunista Brasileiro para um reunião, parecia revigorar-se. Mal tinha tempo para cuidar de si. Era um franciscano, que se penitenciava por pegar um táxi. Odiava o consumismo. E não hesitava em tirar de si em favor de um projeto coletivo. Por exemplo, em 1966, ganhou uma passagem aérea Rio-Paris-Rio por ter sido o melhor autor do ano, com Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Meses depois, foi co-produtor de uma peça que resultou em fracasso de bilheteria. Para pagar as dívidas, simplesmente renunciou à viagem a Paris e vendeu a passagem aérea. 

O que descobriu no arquivo da Censura?

Localizei os processos que resultaram na proibição das peças mais conhecidas de Vianinha, a obra-prima Rasga coração e Moço em estado de sítio.
A pesquisa me permitiu desvendar os bastidores das interdições das peças e revelar o cerco impiedoso movido por autoridades do regime militar contra um dos mais belos textos do teatro brasileiro, Rasga coração — premiado pelo Serviço Nacional de Teatro em 1974 e, absurdamente, censurado, durante os cinco anos seguintes, pelo mesmo governo que lhe reconhecera os méritos artísticos. Ignorantes em matéria teatral, os censores faziam malabarismos retóricos e recorriam a chavões anticomunistas para sustentar o insustentável, que a peça “feria a dignidade e os interesses nacionais”.

O que de fato ocorreu nos bastidores da Censura a respeito de Rasga coração?

Os autos da Censura confirmam o que o diretor teatral José Renato havia me informado anos atrás: foi o então ministro da Justiça, Armando Falcão, quem, por duas vezes, bateu o martelo e manteve Rasga coração censurada durante todo o governo Geisel. Houve três exames da peça na Divisão da Censura. No primeiro,  próprio o diretor do órgão, Rogério Nunes, determinou a interdição do texto. Nos dois recursos posteriores, apresentados por José Renato, o diretor da Polícia Federal à época, coronel Moacyr Coelho, sugeriu ao ministro Armando Falcão a manutenção do veto. Foi atendido. Curiosamente, no último recurso, houve empate no julgamento dos censores: um votou pela liberação, outro pela proibição da peça. Rasga coração só foi liberada em fins de abril de 1979, pelo novo ministro da Justiça, Petrônio Portella, no início da abertura política. Ganhou todos os prêmios teatrais daquele ano.

E no arquivo da Polícia Política, o que foi possível apurar?

O prontuário de Vianinha no famigerado Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) do Rio de Janeiro é bastante robusto... Há uma série de anotações sobre suas atividades políticas e culturais, principalmente nos períodos em que liderou o Centro Popular de Cultura da UNE e integrou o célebre Grupo Opinião. Depois de ler todo o material, cheguei a duas conclusões: 1) o DOPS mantinha o meio artístico sob estreita vigilância, obcecado em provar uma suposta “infiltração subversiva”; 2) havia total falta de rigor nos informes produzidos pelos agentes; eram imprecisos e, não raramente, beiravam o ridículo.

Poderia citar exemplos?

Informações destituídas de qualquer fundamento eram reproduzidas de relatório para relatório, sem a menor critério ou averiguação complementar. Artistas que jamais foram ligadas a organizações de esquerda — alguns até de direita — apareciam fichados em companhia de comunistas históricos, como Vianinha, Mário Lago e Dias Gomes. A paranóia anticomunista levou os arapongas a deslizes impagáveis. O informe confidencial de 18 de maio de 1971, que o DOPS elaborou a pedido do Centro de Informações do Exército, incluía os insuspeitos apresentadores Hebe Camargo, Sílvio Santos e Flávio Cavalcanti, a atriz Dercy Gonçalves e o radialista Haroldo de Andrade entre 61 artistas de televisão que deveriam ser averiguados, por suspeita de “subversão e perturbação da ordem política e social”. A citação de Hebe, por exemplo, baseava-se no fato de ter assinado o Manifesto dos Radialistas de São Paulo contra a Lei de Segurança Nacional, firmado em 20 de dezembro de 1949!

Alguns críticos da nova geração dizem que o teatro de Vianinha é datado politicamente. Como você analisa a questão?

Só posso atribuir esse tipo de opinião à desinformação ou a preconceito. As pessoas que falam em “peças datadas” de Vianinha, Gianfrancesco Guarnieri e Dias Gomes costumam achar o teatro engajado careta, mal-humorado e chato. A má vontade às vezes resvala para o maniqueísmo: é bom o que diverte e não preocupa; é monótono e datado o que induz à reflexão. Para nossa sorte, há críticos teatrais competentes no Brasil, que sabem avaliar a importância da dramaturgia de Vianinha. Sábato Magaldi, por exemplo, foi exato ao escrever: “Vianinha não é o dramaturgo que usou o teatro para fazer política. Dramaturgo dos maiores, ele não poderia omitir a política entre as suas grandes inspirações.”

A contribuição dele como dramaturgo vai resistir ao tempo?

Vianinha era profundamente preocupado com o destino do homem brasileiro. E como fazem falta, hoje em dia, autores que ressaltem o compromisso da arte com a realidade do país, sem cair no proselitismo e na camisa-de-força da ideologia. A geração de Vianinha foi extremamente criativa, inconformista e rebelde. Fez o Arena, o Teatro Oficina, o CPC da UNE, o Teatro Opinião, Tropicalismo — movimentos que constituem referências fundamentais para se compreender o processo sociocultural dos últimos 50 anos. E Vianinha, seja a favor ou contra, participou de todos eles. Mesmo em suas peças claramente políticas, Vianinha aborda questões que dizem respeito às inquietações, os  aspirações e as frustrações do ser humano. A política, para ele, nunca podia dissociar-se dos percalços da condição humana. Suas peças denunciavam as injustiças, as imposturas sociais e a opressão, mas sempre procuravam lançar um olhar de compaixão sobre os dramas vividos pelos personagens. Em seus últimos escritos, fez autocrítica do radicalismo ideológico dos anos de juventude e mostrava-se convicto de que era possível conciliar o aprimoramento estético da criação artística com o compromisso sociopolitico. As remontagens de peças como Rasga coração e Mão na luva demonstram a vitalidade e a atualidade de seu teatro. Nunca é demais lembrar a extraordinária contribuição dele à renovação da teledramaturgia, tanto com o inesquecível seriado A grande família, que praticamente introduziu a comédia de costumes na TV brasileira, quanto com as adaptações de clássicos teatrais nos Casos Especiais.

Qual é a lição atual que se pode tirar da trajetória de Vianinha?

Vianinha foi o paradigma do artista criador e do intelectual consciente, que acreditou na arte como forma de conhecimento e a utilizou como arma para a libertação. Estou plenamente de acordo com o dramaturgo Alcione Araújo, quando afirma que nunca precisamos tanto das idéias de Vianinha, quer como artista, quer como cidadão, quer como pensador da sociedade brasileira. Ele era uma voz incansável contra o pessimismo, o conformismo, a alienação e a ganância das elites. Era uma voz que nos conclamava a construir um país capaz de democratizar os frutos do progresso e de restituir as esperanças ao povo brasileiro.



O rebelde do traço: A vida de Henfil
Dênis de Moraes
R$ 64,90

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