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Entrevista com Marcia Tiburi

Doutora em Filosofia e autora de diversos trabalhos acadêmicos, Marcia Tiburi publica agora sua primeira obra de ficção. Magnólia, romance que ela mesma define como uma “prosa estranha”, nasceu inspirado tanto por Kafka quanto por Wittgenstein. “No verão escrevo mais literatura; no inverno, mais filosofia”, revela. “Se você olhar para alguns dos meus textos de filosofia verá que a literatura está ali com força.”  Atualmente, Marcia divide seu tempo entre a escrita e outras ocupações: além de ser professora de pós-graduação, apresenta os programas de televisão “Saia Justa” (exibido pelo canal de TV a cabo GNT) e “A Bela e a Fera” (da TV Unisinos/Futura). “Acho tudo divertido”, afirma. “Não consigo ficar sem fazer nada.”

Por que Magnólia? Qual o significado desse nome?
Magnólia é um nome de flor e um nome de mulher, mas é também uma palavra bonita. Marca o grande e o efêmero, o muito e o muito pouco. Era o nome adequado para esta pessoa que descrevo no livro. Não gosto de chamá-la personagem, pois, para mim, ela é mais que isso. Uma alegoria também é pouco, uma idéia também não diz o que ela é. Mas eu é que não vou saber o que ela é.

Como surgiu o romance? Fale um pouco do processo de criação.
Eu comecei a escrever literatura de modo mais sério em 1998. Atrasei em um ano o meu doutorado em filosofia por causa de outro livro que ainda estou escrevendo e não faz parte da trilogia que abre com Magnólia. Acho que vou concluí-lo logo, mas não sei. Magnólia eu comecei em 2001. Escrevi três versões, esta é a última. O texto surgiu por uma necessidade que eu mesma acho meio estranha: queria me livrar dos meus pensamentos e ela era a única pessoa que podia me ajudar. Então passei anos com ela, observando-a e deixando que me observasse. Mas ela era, sobretudo, algo que queria se transformar em letra.

Em que consiste a Trilogia Íntima, segundo a denominação que você deu a esse tríptico novelesco? Como os livros – o recém-lançado Magnólia e os vindouros A Mulher de Costas e O Manto – se interligam?
A trilogia poderia chamar-se do oco, da ausência, do vazio, do interno, do por-dentro, do imanente, do imo, do ínsito. Chamo-a assim porque acho que os três livros falam de um território: o íntimo. É um lugar em extinção. Só pode ser preservado pela solidão, mas a solidão está em baixa. Eu fundei um movimento para salvá-la. A Trilogia Íntima faz parte desse movimento. Os três livros falam de mulheres: a primeira está só e se enfrenta consigo mesma e toda a ausência que isso traz. Mas ela é cheia de linguagem e pensamento; o que lhe falta é a vida, falta-lhe que algo falte além de memória. Ela é a figura da razão, por isso o texto traz algo de filosófico. A segunda, a mulher de A Mulher de Costas, se enfrenta com a ausência da memória como a primeira, mas ela é uma figura do corpo. A personagem é uma princesa moura, a Teiniaguá da literatura gaúcha, tão bem contada por Simões Lopes Neto em Lendas do Sul. A história é quase a mesma da lenda, só que do ponto de vista dessa mulher perdida entre dois mundos. Em O Manto, o interno é figurado de um jeito muito simples: depois de 20 anos, um marido retorna à casa e a mulher se esconde no armário para contar o que sente. Ela então grava o livro inteiro. A gravação é como um manto de Penélope.

Moscas, besouros e mariposas são importantes personagens no livro, representados em ilustrações que você mesma desenhou. De onde vem essa sua fascinação por insetos?
Os insetos são lindos e inacreditáveis. A cada vez aparece um inseto novo; por isso, parecem imaginados e não um tipo existente na natureza. Cada um parece muito único e sem iguais. Invento meus insetos para aumentar a fauna mundial. Gosto, sobretudo, de coleópteros, mas também inventei lepidópteros. Mas a mulher de costas é outro animal...

Filósofa, professora, ficcionista e apresentadora de TV. Como você consegue conciliar ocupações tão diferentes?
Acho tudo divertido. Não consigo ficar sem fazer nada.

Sócrates e seu "conhece-te a ti mesmo" são citados logo no início de Magnólia. De que maneira se dá, em sua obra, a relação entre literatura e filosofia?
Eu só vejo uma diferença. Quando escrevo filosofia preciso pensar em níveis de comunicação. Na literatura, você deixa muito por conta da imaginação de quem vai ler. Gosto igualmente de escrever filosofia e literatura. Como numa tira de Moebius, é uma questão de movimento dentro da linguagem. Eu vivo em vários ângulos da onda.

Você já publicou diversos ensaios. Na sua opinião, Magnólia é uma ruptura radical com seus trabalhos anteriores ou, de alguma forma, pode ser facilmente encaixado em sua bibliografia?
Eu só não publiquei antes as minhas ficções, não me acho fazendo nada diferente. O meu tempo continua igual. No verão escrevo mais literatura; no inverno, mais filosofia. Se você olhar para alguns dos meus textos de filosofia verá que a literatura está ali com força.

Quando teve início a sua relação com as palavras?
Eu venho do desenho, foi a primeira coisa que fiz na vida. Acho que não perdi o sentido plástico das palavras, seu caráter de imagem. Em geral elas se grudam em mim quando as acho bonitas. Bonitas por serem estranhas, exóticas, secas, duras, maleáveis, tristes. Para mim elas estão vivas, como meus besouros.

Quais são as suas principais influências literárias? E quais as suas maiores fontes de inspiração fora da literatura?
Magnólia tem algo a ver com o Tractatus, de Wittgenstein, que não foi proposital.. É bem provável que os meus filósofos mais queridos estejam ali, de algum jeito: Kant, Nietzsche, Schopenhauer. Mas não pensei neles quando escrevi; se estão ali é por acaso. Mas Kafka, sim, este me inspira. Tem Kafka (Magnólia até cruza com duas imagens que tirei de Kafka), Raduan Nassar. Lavoura Arcaica é algo que me deixou perplexa, bem como o Avalovara, de Osman Lins, e o Memorial da Inquisição, de António Lobo Antunes. Mas Simões Lopes Neto é outra figura que não esqueço.

O que há de autobiográfico no livro? Escrever Magnólia foi um pouco como “vasculhar gavetas”?
Se o personagem não é você mesmo, é o seu outro. Não sei se é autobiográfico, acho mais que é algo que está sempre no espelho.



O manto
Marcia Tiburi
R$ 59,90

Filosofia em Comum
Marcia Tiburi
R$ 29,90

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