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Julián Fuks Home > Autores > Julián Fuks
Entrevista - Procura do romance

Julián Fuks é paulistano e nasceu em 1981, filho de argentinos exilados no Brasil. É autor de Histórias de literatura e cegueira (Record,2007), livro finalista dos prêmios Jabuti e Portugal Telecom. Com Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu, ganhou o Prêmio Nascente de 2003. Como jornalista e crítico literário, trabalhou na Folha de S.Paulo e foi colaborador das revistas Entrelivros e Cult.

 
Procura do romance é uma obra versando sobre a dúvida, a angústia, a dor e a indecisão no ato de escrever. O processo é assim com você?
 
Sim, já há algum tempo escrever tem sido isso para mim, um mergulho sempre sofrido na imprecisão da língua, em seu fracasso, em sua falência, em sua arbitrariedade irredimível. Se outras vezes tentei escrever burlando esse sofrimento, à revelia dessas certezas, neste livro a decisão foi inversa: quis fazer com que a angústia da escrita se refletisse na matéria do texto, o atravessasse em cada frase construída a custo, penosamente, e se convertesse em um de seus temas. Por isso fiz escritor meu protagonista, para poder imputar a ele minhas dúvidas, minhas inquietações, meus receios. Foi ele quem teve que se haver com os impasses da literatura, com suas aporias, com a crise da narrativa tão própria do nosso tempo. Legando a ele meu sofrimento, pude me liberar disso tudo, prosperando onde ele padeceu, recolhendo meu romance nas ruínas do livro que ele não escreveu. 


O protagonista Sebastián reverencia o método e a escuridão, além de a trama se passar na Argentina. Pode-se perceber uma reminiscência a J. L. Borges, tema de seu livro anterior?
 
Há uma extensa linhagem de escritores da agonia, de autores que abrem mão de uma literatura soberana em que tudo cabe, tudo é possível, preferindo problematizar sistematicamente o método, a própria escrita. Borges o fez com maestria, não há texto seu que não verse em alguma medida sobre o próprio fazer poético, e essa pode ter sido de fato uma influência.
Agora, não é por isso que a trama se passa em Buenos Aires. A Argentina está – não posso deixar de confessar – no meu passado e nas minhas origens. Meus pais são argentinos, e só abandonaram o país porque foram perseguidos pela ditadura. Eu nasci aqui, mas morei alguns anos em Buenos Aires durante a infância, no apartamento que se tornou o cenário principal do livro, cenário das lembranças que emprestei a Sebastián. Em certa medida, escrevi esse romance para explorar alguma argentinidade que existia e existe em mim, para elaborar tantas idas e vindas, para entender como a minha história está marcada por um certo exílio que inevitavelmente herdei.

 
Algum livro pode ser considerado como influência a esta sua obra?

Como o livro trata, entre outras coisas, do penoso processo de elaboração de um livro, e como seu protagonista é um sujeito obsessivo que se preocupa em rejeitar tudo o que já tenha sido feito, tudo o que já tenha sido escrito, é natural que sobre ele recaia o peso de toda uma tradição de páginas infinitas. Nas minhas, tentei explorar essa consciência extrema do protagonista em alguns diálogos narrativos, diálogos com obras clássicas que assediam a mente de Sebastián, que o assombram ao mesmo tempo em que o fascinam. São diálogos às vezes mais velados, às vezes mais explícitos. E os autores que menciono ao longo do livro, Drummond, Joyce, Woolf, Saer, Camus, assim como outros que refiro de forma mais sub-reptícia, Beckett, Piglia, são alguns dos que estimo e que gostaria que houvessem exercido, por que não?, uma influência forte sobre este meu livro. 


Na sua opinião, à moda de Kafka, esta é, como você menciona no texto, “uma história feita de entraves, impedimentos, embaraços e interrupções”?
 
Sim, se uma das questões que eu queria expressar era a impossibilidade de qualquer expressão, era importante que a história que eu construísse fosse uma não-história, uma história feita de entraves, impedimentos, embaraços, interrupções. Mas o leitor que tenha paciência para superar esses primeiros contratempos há de se deparar, é o que creio, com o ponto onde eles encontram seu limite e desvanecem. Ao fim, contrariando toda expectativa, a negatividade se faz positiva e uma história acaba por se constituir, a história do menino esquecida no tempo, a história desses dias em terra estrangeira, a história de alguém que investiga suas origens tentando se descobrir, tentando se conhecer.


No processo de criação do personagem, fascina, além de saber o que ele escreverá, sabermos o que ele não escreverá e por quê. A autocrítica do escritor é uma grande censora?
 
Sim, Sebastián é o grande censor de si mesmo, é seu próprio perseguidor, carrasco e vítima de seus rigores autênticos, da rigidez de seus julgamentos. Mas eu não, minha posição é outra. Com Sebastián, justamente, eu me protejo. Repassando a ele minha autocrítica, livro-me das minhas incertezas e posso ir em frente. O que nele é censura, em mim é a condição essencial para continuar escrevendo.
 

São tristes as memórias do Sebastián menino. A ótica psicanalítica ajuda a conduzir este livro?
 
Curioso que você tenha feito essa pergunta. Meus pais são ambos psicanalistas, a psicanálise sempre teve um papel importante na minha vida, era assunto de discussão na mesa, era a perspectiva com que encarávamos cada questão ou cada problema. Parece razoável que agora, ao perscrutar em retrospectiva minha infância, ao buscar algo de literário nela e assim distorcê-la, transmitindo-a a Sebastián e decerto atribuindo-lhe maior tristeza, essa distorção se dê por uma leitura psicanalítica de seus vários acontecimentos. Há um trauma original que Sebastián vasculha em si mesmo, mas esse trauma pode ser apenas um vazio, é o que ele crê, pode ser a ausência sintomática de qualquer trauma verdadeiro.  
 

É uma escrita altamente sensorial, com uma grande gama de emoções e gestos muito bem traduzidos à linguagem literária. Esta é uma preocupação sua?
 
Sim, é uma preocupação constante, quase uma obsessão, a tentativa de retratar em detalhes o fluir do tempo presente. Não gosto de grandes acontecimentos, grandes revelações, tramas mirabolantes; vejo mais beleza nos gestos ordinários e nas emoções costumeiras. Mas gestos ordinários e emoções costumeiras são tão bem conhecidos de todos, já foram narrados tantas vezes, e tanto se empobreceram pelos usos de sempre, que para resgatar-lhes alguma beleza é preciso observá-los minuciosamente, quase interrompê-los, descrevê-los em destempo. É isso o que tento fazer.  
 

Quais são os projetos para a continuação de sua carreira literária?
 
Estive muito tempo imerso nesse projeto, quatro anos erguendo pouco a cabeça, distraindo-me pouco desse único texto, e agora tem sido difícil me liberar de vez dele. Por ora habito um certo vazio, à espera de que alguma nova ideia me sobrevenha. Enquanto isso, vou me entregando a projetos menores, de fôlego restrito, um e outro conto que me esforço em verter sobre o papel, alguns artigos e resenhas preparando o doutorado, um livro infantil que consegui escrever para minha própria surpresa.



Procura do romance
Julián Fuks
R$ 52,90

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