“O livro do destino” de Parinoush Saniee

14/11/2015 4 visualizações

Por Andressa Camargo

 

Massoumeh é uma jovem obediente, que sempre prezou pela reputação de sua família e respeitou os valores muçulmanos. Mas, ainda que enfrente represálias, insiste em continuar os estudos e sonha até em entrar na universidade. Por que não? É no caminho da escola, em uma pequena farmácia do Teerã, onde vive, que Massoumeh conhece o jovem Saiid, por quem se apaixona. Ela tenta inutilmente esconder seus sentimentos, assim como as cartas de amor que recebe, mas logo é descoberta. Apontada como uma desgraça, humilhada por todos, ela acaba se casando às pressas com um homem que nunca viu.

Nos anos que se seguem ao casamento, Massoumeh passa a olhar para a sociedade iraniana sob nova perspectiva. Hamid, seu marido, é um dissidente marxista, perseguido primeiramente pelo regime do Xá e, em seguida, pelos fundamentalistas que ele mesmo ajudou a colocar no poder. Em meio às reviravoltas de sua vida pessoal e às mudanças bruscas que ocorrem no país, nossa protagonista precisará amadurecer e tomar decisões difíceis.

Com uma narrativa que se inicia anos antes da revolução de 1979 e segue até o tempo presente, O livro do destino fala sobre amizade e paixão, medo e esperança – com uma rara visão interna da sociedade iraniana. A obra foi escrita pela socióloga e psicóloga Parinoush Saniee, que, em entrevistas recentes, disse ter criado Massoumeh inspirada pelos relatos de diversas mulheres que conheceu enquanto realizava pesquisas para o Ministério do Trabalho do Irã.

Confira um trecho:

Fui colocada à venda. Receber pessoas que me viam como uma esposa em potencial tornou-se o único evento sério em nossa casa. Meus irmãos e minha mãe espalharam a notícia de que estavam buscando um marido para mim, e apareceu todo tipo de gente. Alguns eram tão despropositados que até Ahmad e Mahmoud decidiram contra eles. Toda noite eu rezava para que Saiid aparecesse. E, pelo menos uma vez por semana, implorava para que a Sra. Parvin fosse à farmácia verificar se havia qualquer notícia dele. O médico disse a ela que Saiid escrevera uma veze que a carta que ele respondera tinha voltado. Parecia que o endereço estava errado. Saiid evaporara e desaparecera no ar. À noite, eu, às vezes, ia até a sala para rezar e comungar com Deus, depois ficava à janela para ver as sombras se movendo pela rua. Algumas vezes, eu via uma sombra familiar sob o arco da casa do outro lado da rua, mas assim que eu abria a janela, ela desaparecia.”