A cor do leite

16/01/2016 4960 visualizações

Por Andressa Camargo

Mary tem uma língua afiada, uma perna defeituosa e cabelos claros como o leite. Vive na fazenda da família, com o pai, a mãe, o avô e três irmãs. Aos 15 anos, ainda não sabe ler nem ver as horas. Acorda antes de o sol nascer e só dorme bem depois dele ir embora. Logo cedo, ordenha a vaca; em seguida, cuida das plantações. Mesmo assim, seu pai, severo e violento, vive amaldiçoando a própria sorte: um filho homem faria melhor o trabalho e certamente lhe traria mais dinheiro.

A vida na fazenda é dura, mas é a única que Mary conhece. Por isso, quando lhe avisam que deve ir morar no presbitério para cuidar da mulher do pastor que está doente, ela reluta. Na nova casa, tudo parece estranho: ainda que o patrão tente se mostrar amável e educado, muitas exigências são feitas e todas as liberdades, tolhidas.

Mary é a protagonista e a narradora de A cor do leite, romance da inglesa Nell Leyshon lançado por aqui pela Bertrand Brasil. Ambientada em 1831, a trama se desenrola por meio de frases simples, que, no entanto, trazem à tona a voz de uma protagonista surpreendentemente forte. É na construção dessa personagem rica e cheia de nuances que reside o diferencial do livro. É também por meio dela que a autora se propõe a tratar de questões relacionadas ao poder e seus abusos em um mundo organizado segundo as vontades masculinas.

Durante o ano que passou no presbitério, a jovem camponesa aprendeu a ler e escrever. Agora que conhece as palavras, ela pode finalmente se tornar dona da própria história. Uma história cruel e indispensável.

TRECHO DA OBRA

dei a volta na casa e andei na direção do galinheiro e da outra porteira. fui batendo nas flores mortas com a vara de pau que eu carregava e as sementes delas se espalhando no ar.
o que que você tá fazendo?
eu olhei pra cima e vi o papai parado na porteira.
olha pra você, ele disse, de bobeira por aí como se não tivesse nada pra fazer.
eu não tava de bobeira, eu respondi. só queria ver onde a violet tava.
ela tá onde ela tem que estar, três acres pra lá, que é onde você tinha que estar também.
tudo bem, eu falei. tô indo pra lá.
então anda logo. não vai pensando que você é especial. só por causa disso aí.
ele apontou pra minha perna.
eu não falei que eu sou especial.
eu atravessei a porteira e passei pelo galinheiro e andei os três acres.
eu não falei que eu era especial.
eu nunca tinha falado.
nem nunca tinha pensado.
a minha perna é a minha perna e eu nunca tive outra perna. eu sempre fui desse jeito e sempre andei desse jeito. a mamãe diz que foi assim mesmo que eu vim pro mundo. eu era um pedaço de gente com cabelo da cor do leite e eu nasci depois da hora e por isso vim coberta de pelo feito bicho. e as minhas unhas eram muito grandes e ela disse que me olhou e eu abri a boca e gritei. tem gente que diz que eu nunca mais fechei a boca.
e tem gente que diz que a mamãe estava doente naquele verão mas continuava trabalhando no campo assim mesmo. que ela não conseguia se abaixar porque tinha um caroço na
barriga que era eu e eu ficava atrapalhando.
e me falaram que a minha perna nasceu enrolada em mim. e nunca mais virou normal.
quando eu era bebê até tentaram prender a minha perna num pedaço de pau pra ela ficar reta. mas tudo que conseguiram foi ela roçar tanto no pedaço de pau que começou a sangrar. eu berrei até tirarem aquilo da minha perna. e ela ficar do jeito que ela queria ser.
e é assim que eu sou.