80 anos de Lya Luft

20/09/2018 13 visualizações

“Escrevo para tentar entender a vida”. A frase da escritora gaúcha Lya Luft sintetiza a inquietação criativa por trás de um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea. Nesta busca por um sentido, Lya conduz o leitor por mundos imaginários que habitam a imaginação da escritora desde a infância em Santa Cruz do Sul, quando lia contos de fadas em alemão, língua-materna de seus antepassados.

O prazer em criar transparece em suas tramas habitadas por personagens intrigantes, como o felino misterioso que aparece em O tigre na sombra, escolhido o melhor romance de 2012 pela Academia Brasileira de Letras. Para homenagear a escritora, que completou 80 anos esta semana, selecionamos trechos de sua obra mais recente publicada pela Editora Record, A casa inventada, e de alguns de seus grandes sucessos de público e crítica.

“Há porões de segredos nas casas, em todas elas, também nos barracos e nos apartamentos: a gente é que não sabe. Estamos habituados à ilusão de que nada de perigoso existe ali, nada que não possamos entender. Velharias, coisas inúteis que guardamos pensando “um dia posso precisar”. E nos esquecemos delas como de pessoas e amores.”
 – A casa inventada (2017)

“Meio oculto nas espumas um tigre é incrivelmente perigoso e sedutor. Atrás dele, que cortejo de rostos, de prantos, de delírios, que dor? A majestade dele vara minha alma, fala de inevitabilidade e destino. De decisões nebulosas porque a gente não sabia de nada. Um tiro contra o teto, um anel quebrado, amores perdidos, traição.

Ele espia na sombra, levanta a cabeça poderosa, me encara com seus olhos tão azuis, e diz:

– Vem, vem, vem! Eu te acolho, eu te entendo, eu tenho o remédio final para tudo.

Mas apesar de toda a tristeza eu finjo que não ouvi.

Ainda não, ainda não.

Pois ainda existe vida.”
– O tigre na sombra (2012)

“A vida é para ser vivida e, mais que isso, para ser administrada, para ser domada, com nossas escolhas, muitas vezes com luta feroz… O mesmo acontece com um país: deve ser observado, ajudado, administrado, feitas escolhas lúcidas pelos seus habitantes. Pois, sinto muito, não somos sempre, nem mesmo agora, no Brasil, vítimas de fatalidades, mas de equívocos de um lado e crimes de outro, bem planejados, bem executados, quase perfeitamente escondidos debaixo dos narizes dos incompetentes ou dos nossos próprios, desinteressados e ingênuos.”
– Paisagem brasileira (2015)


“Uma palavra pronunciada, um texto lido podem nos fazer enxergar o que devia ser evidente mas não é: por ser inquietante demais é melhor que fique embaixo de todos os tapetes da nossa resignação. Íamos nos conscientizando de que amor não deve ser servidão. De que em qualquer idade podíamos apostar em nós. Era possível abrir novas portas e se preciso derrubar algumas em torno e internamente”
– Perdas & ganhos (2003)