“A cobrança”, de Mário Rodrigues

20/03/2018 195 visualizações

Por Marcelo Moutinho

Saúva está diante da marca do pênalti. Literalmente. Capitão da Seleção Canarinho, caberá a ele fazer a quinta cobrança na disputa que apontará o campeão da Copa do Mundo de 2018: Brasil ou Alemanha. Os poucos segundos nos quais observa a bola sobre o círculo branco de cal se esticam para um tempo quase infinito. Entre sombras e réstias de luz, Saúva remói o passado. Do nascimento, no mesmo ano em que o país ganhava a ‘Constituição Cidadã’, até o momento decisivo – e particularíssimo – do chute a gol.

No solilóquio do protagonista, Mário Rodrigues estabelece uma das linhas de força do romance “A cobrança”, sua estreia no gênero. Há outras duas: a lente grande angular sobre a chamada Era Collor, quando um país eufórico pela redemocratização acaba por expor algumas das chagas mais profundas; e a trama que, a partir de um caso de violência doméstica, desnuda a brutalidade da sociedade brasileira. Tão longe, tão perto.

O autor costura as diferentes camadas da história com a destreza técnica já demonstrada na seleta de contos “Receita para se fazer um monstro”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura em 2016. Díspares em forma e linguagem, os três eixos narrativos dialogam, complementam-se. E, por contraste, revelam um verdadeiro abismo entre o Brasil oficial e o Brasil real.

“Saúva tem a chance de se vingar do país através de um pequeno gesto: um chute”, afirma Rodrigues, que nesta entrevista ao Blog da Record fala sobre a gênese do livro, as inconsistências de nossa democracia e a paixão pelo futebol. Esporte que, sem resquício de modéstia, garante dominar como poucos: “Nunca joguei bola, sempre dei show”.

 

 

O livro é ambientado em boa parte na chamada Era Collor, período pouco retratado na ficção brasileira contemporânea, apesar dos traumas que deixou. No romance, aquele momento histórico é mais do que pano de fundo, está totalmente integrado à trama, reverberando na trajetória individual do protagonista. Como surgiu a ideia de abordar, num diálogo com a ficção, esse obtuso capítulo da República brasileira?

Foram duas as balizas que me fizeram trabalhar a chamada Era Collor. A primeira, de ordem pessoal; a segunda, de ordem coletiva.

Ocorre que nasci no final dos anos 1970, de modo que, no começo dos 1990, eu entrava na adolescência. Aquele período em específico tem, portanto, um valor sentimental profundo. São os anos de minha formação, de minha tomada de consciência frente ao mundo. Para se ter ideia: o meu comprovante de cadastramento no PIS é de 20/07/1992. O primeiro emprego que tive de carteira assinada foi durante o governo do Caçador de Marajás: aos 14 anos (sim, já se trabalhava com esta idade naquela época). Além disso, há outro fator. Minha obra, como um todo, tem por escopo abordar as décadas de minha formação. O meu primeiro livro pela Record, “Receita para se fazer um monstro”, se passa sobretudo nos anos 1980. “A cobrança”, nos 1990. O próximo, nos anos 2000. E assim por diante. É uma espécie de retrospectiva sentimental maior que vai palmilhando minha escrita.

No âmbito coletivo, a Era Collor foi uma época pródiga. Época que ostenta, como poucas, o imenso desafio que todo ficcionista brasileiro enfrenta: nossa realidade é inverossímil, supera qualquer ficção. Então, temos: um sujeito que é o salvador da pátria e subverte a esperança de dezenas de milhões no dia seguinte à posse; um tesoureiro baixinho, careca e bigodudo (que mais tarde se travestirá, na Tailândia, de príncipe árabe!), brigas fratricidas e intrigas entre as beldades alagoanas: a esposa-galega e a cunhada-morena etc. Desperdiçar esse potencial romanesco não me pareceu justo.

E quem viveu aquela época – e tem o som da maquineta etiquetadora de preços como um calo auditivo na memória, aquela arma dupla: puxava-se o gatilho, como pistola, e atacava-se o produto, como se fora um cassetete – saberá que a Era Collor deve ser sempre revista para não ser revivida.

Ao se referir ao juramento feito pelo primeiro presidente pós-redemocratização – no livro, o nome de José Sarney não é mencionado, mas a caracterização aponta na direção dele -, um dos narradores observa que a mão do maranhense estava “espalmada e trêmula”. E acrescenta: “metáfora perfeita do que viria pela frente: uma democracia espalmada e trêmula”. Seu romance seria uma denúncia da situação sintetizada nessa frase?

De fato, existe essa imagem, essa imagem em vídeo: a mão do então presidente, José Sarney, está extremamente espalmada e trêmula – uma quase espécie de Parkinson. É uma imagem que me marca muito porque ela – como diz “A cobrança” – metaforiza a democracia no Brasil.

Espalmada e trêmula – sim, nossa democracia não é coesa, sólida. Não cabe nesta resposta análise mais profunda, mas, no Brasil, em virtude de defasagens educacionais seculares, o poder não ‘emana do povo’. É o contrário disso: o poder mina o povo, “marionetiza” o povo. Mas eu tenho outra imagem em mente: na minha infância, a mão espalmada era a antevéspera da surra. Era o que chamavam de dar um “bolo”. Pegava-se, por exemplo, um chinelo ou palmatória e pedia-se ao surrado que espalmasse a mão – à espera do castigo e da dor. Nossa democracia sempre foi (e provavelmente sempre será) essa criança imatura e trêmula que oferece a mão à palmatória.

O livro é uma crítica direta a isso. Pois mostra um sujeito fora da curva. Um dos pouquíssimos – sobretudo na ótica dele, no contexto em que está inserido e com os subsídios parcos que a vida lhe ofereceu. Tendo sido inchado e lacerado pela palmatória do poder, agora tem a chance de mudar o estado de coisas e parece não tremer nem se dominar pelas circunstâncias. É um protagonista que tem a chance – raríssima para alguém naquele cenário – de se vingar do país através de um pequeno gesto: um chute. A nossa tomada de consciência, cristalizada por pequenos gestos no dia a dia, talvez seja a forma mais correta de se transformar e transformar essa realidade. E essa democracia, outrora espalmada, teria o punho cerrado, fortalecido o soco e partiria para a luta.

Você já disse, em entrevista, que sua principal preocupação é o personagem. No caso de “A cobrança”, a opção pelos três recursos de linguagem – o solilóquio, o texto mais conjuntural, a trama em si – está atrelada à composição do protagonista e dos que convivem ou conviveram com ele?

Reitero: sem grandes personagens, não há grande literatura.

A cada seção do livro, há essas três linguagens muito bem definidas. Elas confluem para explicar o homem que temos diante de nós: Saúva. Ele é o capitão. O time e o Brasil esperam que seja exemplo, mas, pensando bem, naquelas circunstâncias, qual a postura exemplar? Converter, chutar para fora ou abster-se. A história tripartida deste homem pedia uma linguagem análoga. E aquele longo solilóquio, que parece uma casa hermética, surpreendentemente tantas vezes nos fornece réstias de luz, que nos fazem duvidar se ele fará a cobrança ou qual cobrança ocorrerá.

Mas há um elemento extra. Aprofundando um pouco mais as escolhas técnicas, o fato de no solilóquio não haver maiúsculas nem pontos nos leva a notar o sussurro da consciência. Esta, em última análise, o derradeiro juiz da coisa toda. Por isso, as alusões históricas são dispostas na página como um bloco. Já a narrativa da vida de Saúva é, em si, fragmentada. É como se o bloco da história triturasse o próprio personagem e quebrasse sua vida, suas esperanças.

No final do texto, ele retoma o controle de tudo. Há, no livro, a clareza de que Saúva não será o herói. Em qualquer escolha que adote não será o mocinho. Por isso, acredito, há tanta empatia por este personagem. Porque ele somos nós – neste gramado, que é a vida, só nos resta seguir à marca do pênalti sem certezas de vitórias.

Em certa passagem de seu longo solilóquio, Saúva afirma que o futebol brasileiro começou a desaparecer graças a uma mudança lexical. No lugar dos apelidos, entraram os nomes compostos. Ou, nas palavras dele, “saíra a fantasia, entrara a cafonice”. O livro expõe outros sinais de um país que teria perdido a simplicidade. Estamos com muita pose e pouca autenticidade?

Estamos. Aqui cabe uma metonímia, a parte pelo todo. O futebol brasileiro acabou se forjando nas primeiras décadas do Século 20 com características próprias. Contribuiu para isso uma série de fatores: clima, gramados (ou ausência deles), formação genética – a miscigenação do povo. A flexibilidade em relação às regras do jogo inglês e os próprios esquemas táticos desrespeitados também entram nesta equação. Criamos um futebol só nosso. Ao lado da música, as únicas criações essencialmente nossas. O futebol brasileiro tinha DNA. E, independentemente de vitórias internacionais ou não, o ludopédio teria que ter mantido o seu DNA (a finta, a fantasia, o deboche e, lá atrás, a truculência dos zagueiros). “Estilo de jogo”: algo tão festejado hoje numa equipe como o Barcelona.

Inventaram, porém, de importar técnicas modernosas, esquemas táticos inalcançáveis por nossos atletas indomáveis, tudo para nos tornar competitivos. Aí, bagunçaram a festa. Eu preferiria ter demorado um pouco mais para ter vindo o tetracampeonato, por exemplo, do que ter perdido a essencial de nosso jogo.

Aplicando ao campo político-social, cito um texto do Jocimar Daolio: “Assim, o futebol brasileiro não é apenas uma modalidade esportiva com regras próprias, técnicas determinadas e táticas específicas. Mais que tudo isso, o futebol é uma forma que a sociedade brasileira encontrou para se expressar. É, por fim, uma forma de cidadania”. Poderíamos ter, em pontos fulcrais da nossa história, entendido que somos uma sociedade à parte (como uma Rússia que nunca quis ser ocidental). O Brasil errou ao querer emular modelos europeus ou norte-americanos. Ignoramos o que mais havíamos de qualidade. Preferimos ‘macaquear a sintaxe lusíada’ e viramos esboços condenados a nunca nos concluirmos. A volta a nós mesmos, básicos que somos, talvez aí estivesse a solução.

A Nova Zelândia, praticamente invencível no rúgbi, mas dançando o haka… nós preferimos dançar o rap norte-americano. Deixamos de torcer por Zizinho e Didi – escolhemos Wellington Nem e Wagner Love. Isso diz muito.

Saúva nasce em 1988, ano em que foi promulgada a “Constituição Cidadã”. Lei maior que é lembrada, a cada capítulo, com dispositivos de seu texto que nunca tiveram efetividade prática, como a vida de Saúva demonstra. Onde falhamos?

O livro é uma espécie de quebra-cabeça da Constituição ao contrário. Em vez de montá-lo, está-se desfazendo. Aquelas frases pomposas retiradas de um único artigo (o famigerado 5º artigo) se confrontadas com a vivência do personagem, Saúva, desmantem cada uma daquelas promessas e desmentem, também, de maneira flagrante, o próprio país.

O grande problema decorre do desconhecimento do Brasil real. É famosa a frase do Machado de Assis: “O país real, esse é bom, revela os melhores instintos; mas o país oficial, esse é caricato e burlesco”.

Havia um desenho animado na minha infância: “Os Superamigos”. De vez em quando, aparecia o Planeta Bizarro, o Htrae. Lá era tudo ao contrário. O Super-Homem, por óbvio, era bizarro. O Aquaman não sabia nadar. O Flash era o homem mais lento do mundo. E o Lanterna era amarelo.

O Brasil oficial é um país bizarro. Em uma página política de meio de semana em qualquer jornal brasileiro, você vê a comprovação disso. Presidentes que escolhem os juízes que irão julgá-lo, líderes trabalhistas que nunca trabalharam, um estado (RN) em que todos os seus deputados federais são netos ou filhos de políticos, uma família que elege deputados há 196 anos. Enquanto isso o Brasil real – sem acesso à educação e consequentemente à criticidade – não tem forças para conhecer e vencer o Brasil oficial, e dele não é sequer refém, porque não tem consciência do sequestro, mas é instrumento apenas.

Falhamos porque esses brasis hoje são inconciliáveis a curto prazo. A distância se tornou imensa. Só nos resta, como Saúva, com o poder que temos, com nossos chutes, partir para a cobrança. Diária e vigilante.

Vinte anos depois, vive o dilema de converter ou não em gol o pênalti que pode dar ao Brasil o hexacampeonato mundial de futebol, hesitando entre o carinho na população tão carente e a vingança contra o país que tão pouco lhe deu. Esse amálgama de amor e ódio seria uma alegoria do brasileiro hoje?

Graças ao Prêmio Sesc, pude viajar o Brasil inteiro, em 2017, com o “Receita para se fazer um monstro”. Literalmente de norte e sul, de leste a oeste. Estive em Roraima e no Rio Grande do Sul. No Mato Grosso e na Bahia. Essas viagens todas calcificaram o sentimento – que eu carrego há muito tempo – poderíamos ter dado certo.

É algo contraditório porque percebemos nossas potencialidades, contudo é patente o conjunto de mazelas. Como sua pergunta embute, há um carinho estranho por essa terra que é nossa. Um reconhecimento atávico que torna estúpida qualquer ideia de separatismo e torna covarde qualquer ideia de abandono. Penso na frase do Cazuza: “Quero construir um país e não abandoná-lo com uma pasta de dólares”. Estamos condenados a viver o drama daqueles moradores de Chernobyl, os “samosely”: está tudo contaminado ao redor, mas esse é nosso chão. É difícil partir, é difícil não amar.

Em debate na Festa Literária do Pelourinho (Flipelô), no ano passado, você afirmou que não se alinha aos autores que fazem uma literatura panfletária. Podemos dizer, contudo, que “A cobrança” é um livro político. Não cair no panfletarismo foi uma preocupação durante a escrita?

Em primeiro lugar devo dizer que não há nada de errado em um autor ter consciência política. Aliás, o ideal é que ele a tenha e seja ético e coerente com a defesa da mesma. Militante até, se for o caso. O Rubens Figueiredo diz, taxativo: “A literatura é política”, algo que endosso.

E mais: uma obra literária pode mudar (antes mais do que hoje, em virtude do esvaziamento social do discurso literário) os paradigmas de um povo. Vejamos a obra de Graciliano Ramos, meu escritor favorito. Vejamos a foto do García Lorca recitando poemas contra os fascistas que o fuzilariam: é das coisas mais forte feitas por um ser humano.

Porém, naquele contexto específico da Flipelô, a discussão girava em torno de: uma vez eu (escritor) descobrindo uma demanda social, a necessidade de um determinado grupo de pressão, uma vez determinada uma pauta politicamente correta, então eu (escritor) montaria uma obra ficcional para afagar esses nichos e por eles ser aceito e endeusado e reconhecido e, a partir daí, ter minha literatura (duvidosa) apreciada e circulante. Isso é falho. Já o é do ponto de vista estético, do ponto de vista ético é um acinte.

Ocorre que, na minha concepção de arte, a literatura está acima, não necessariamente dissociada, mas acima de discussões e contingências políticas. A literatura é maior, simples assim.

Como Goya, na Espanha deflagrada, que colocou sua arte acima da politicagem. E, no entanto, serão “Os desastres da guerra” o testemunho mais visceral e pungente de sua época e a crítica interminável dos desmandos dos poderosos.

“A cobrança” não é um livro pusilânime. É livro corajoso. Que não se esconde do Zeitgeist que vivemos. Mas eu não aponto caminhos em minha literatura. Proselitismos. Não há didatismo, beletrismo e autoajuda. Minha obra é labirinto. Joga o leitor nos canais e corredores. Há a direita e há a esquerda e há o centro. E, neste labirinto, está Astério, o minotauro.  Se você vai escapar dali com um fio de ouro na mão e a lâmina banhada pelo sangue antropobovino ou se terá seus fatos eviscerados pelos chifres pontudos do boi-real é, mais do que escolha, é competência de cada leitor.

Escrevo para causar estragos.

Quando Saúva e o pai migram (fogem?) para Alagoas, esse momento é visto como uma época de transição. “Não era aquela a vida eleita, era a vida que sobrara”. Em que medida nós todos não vivemos, sempre, a vida que sobrou?

No final do ano passado, em virtude dos 50 anos da morte de Guimarães Rosa, reli “Grande Sertão: Veredas”. “Viver é muito perigoso”. Acresço a isso o Manuel Bandeira, meu conterrâneo: “A vida toda que poderia ter sido e que não foi”. Alinhavando essas frases com questões anteriores é simples: herdamos este país, esta sociedade e esta vida.

Há sempre a possibilidade de simplesmente abrir mão disso. Evadir-se em busca dessa vida supostamente eleita. Há jogadores que diante da responsabilidade de uma partida decisiva fingem o machucado, ampliam a dor, dão o famoso “migué”. Há pessoas que fazem isso. Preferem o campo ascético do departamento médico passando suposto gelóis e contusões exageradas. Vivendo de seus placebos.

Mas há outras pessoas. Aquelas que veem a vida como partida decisiva, luta renhida. Há o Beckenbauer: que joga a semifinal com o braço em tipoia improvisada. São meus preferidos.

Ao mesmo tempo em que o romance tem um olhar crítico para o futebol como a “Pátria de Chuteiras” – um dos narradores chega a afirmar que a “morfina futebolística” produz algumas horas de anestesia e “a patética ilusão de que o país é relevante ao menos nesse aspecto” –, é possível perceber certo encantamento com o esporte, tratado em algumas passagens como algo mais do que um jogo. Qual a relação do autor Mário Rodrigues com o futebol?

Concordo plenamente com Nelson Rodrigues: “A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana”. O futebol é um esporte fantástico. Inigualável. E olha que eu acompanho esportes. E tive o privilégio de ver jogar os maiores de todos os tempos em diversos esportes. Vi o Michael Jordan, no basquete. O Tom Brady, no futebol americano. Tiger Woods, no golfe. O Giba, no vôlei. Mas o futebol é de outra esfera. Como diz o personagem no livro: “O futebol é um esporte macabro”.

Você não é obrigado a atacar. Você não é obrigado a pontuar. Você pode ganhar uma Copa do Mundo sem fazer nenhum gol no tempo regulamentar. Você pode, todavia, fazer inúmeros e perder o campeonato. Um único lance pode decidir toda uma partida e, no caso do livro, toda uma Copa do Mundo. Quatro anos de preparação. Milhões de sonhos.

Mas discordo completamente do Nelson Rodrigues: “Nossos escritores não sabem cobrar um reles escanteio”. Como digo até hoje aos meus alunos: Nunca joguei bola, sempre dei show. Os torcedores tinham que levar os óculos escuros, porque eu brilhava. Ocupei todas as posições no campo – de goleiro a centroavante. Confesso, porém, que sou mesmo um volante: gosto de jogar no meio-campo defensivo. Ali é onde o jogo se resolve (disso tenho plena certeza). Lá na meia-cancha tive minhas páginas de glória.

Só guardo uma mágoa. Não tenho um time de coração. Em virtude do trabalho de meu pai, mudamos muito durante minha infância e adolescência. Morei em vários estados brasileiros. Quando despertei, consciente para o futebol, morava em São Paulo. Era a época do grande São Paulo, de Raí e Telê Santana, Mundial em cima do Barcelona de Guardiola (então jogador).

Mas tivemos que voltar a morar em Pernambuco. Sempre achei patético torcer por times de outros estados. Torcer por times de outros países, nem me fale. Nem fale comigo, inclusive. Voltando a Pernambuco, eu já era crescido demais e afetivamente distante dos times de minha capital, Recife. Náutico, Santa Cruz e Sport nunca me comoveram. Os times de minha cidade – Sete de Setembro e AGA – faliram. Esse esporte macabro brincou comigo neste aspecto. Não possuo time do coração.

No entanto, como disse Camus: “Devo ao futebol os mais valiosos conceitos que tenho sobre a moral e a obrigação dos homens”.

 Há pouco mais de um mês, você publicou no Facebook pequeno arrazoado sobre futebol no qual desenha uma analogia entre escritores e jogadores. No texto, recorda-se quando esteve num estádio em que dois times jogavam sem que houvesse torcedores a assistir à partida. Então destaca: “Ouve-se, num processo metalinguístico e esquizofrênico, as próprias vozes dos jogadores narrando jogadas por vir e analisando lances em simultaneidade com a ocorrência deles próprios – o torcedor esquece o futebol”. “Escrever para o próprio umbigo, ouvindo apenas a própria voz, a esquizofrenia-metalinguística tão-somente, acreditem: é deprimente. O leitor esquece a literatura”, compara, ao fim do post. Para quem você escreve?

Há uma necessidade imensa por parte dos escritores brasileiros contemporâneos de chancela e de tutela de outros escritores. Isso criou uma geração frágil. Dependente e condescendente. De modo que muitos escrevem para flertar intelectualmente com seus pares. Trocar referências supostamente eruditas ou pop. Isso é texto chato e autorreferente. Sem viço porque cheia de vícios. Enfada o leitor. Mas a literatura extrapola esses grupelhos.

Dizem que Franz Kafka, o grande autor tcheco, trabalhava numa agência de seguros. Saía do trabalho depois do anoitecer. Ao chegar ao cinema (arte de que gostava muito), o filme em cartaz já havia começado. Ele sempre perdia a primeira parte da película.

No mesmo bairro de Kafka, havia um vigilante noturno. Seu trabalho começava no início da noite. Este homem também amava o cinema. Mas, infelizmente, só assistia ao começo do filme. Ele sempre perdia a última parte da película.

Numa certa tarde de domingo, esses homens se encontraram num café. O ambiente lotado os obrigou a dividir a mesma mesa. Houve o encontro. Houve a conversa. Falaram de cinema. Então o vigilante contou como era o começo de cada filme. E Kafka narrou, ao vigilante, o final de cada história. Eles se completaram.

Há livros – eles estão por aí: nos cafés, nas livrarias, nas escolas, nas casas – que nos completam, que contam o nosso início, quem somos. E, no momento em que os encontramos, também eles se completam. E o diálogo que nos justifica estará, enfim, acontecendo.

É este o leitor-vigilante que procuro.