A essência de Umberto Eco

11/12/2018 2 visualizações

Mais que uma simples palestra, a participação do italiano Umberto Eco no festival La Milanesiana se tornou um aguardado acontecimento do calendário cultural europeu  e, a cada ano, atraía fãs do autor a Milão. A partir de determinado tema, Umberto Eco preparava um escrito que era lido na forma de lectio magistralis, acompanhado pela projeção de vasta iconografia. Com sua habitual irreverência, o semiólogo versou sobre temas recorrentes em sua vasta obra ensaística, sem soar repetitivo, aprofundando conceitos de filósofos e teóricos de diversas épocas. As leituras  proferidas entre 2001 e 2015 deram origem a uma primorosa edição ilustrada de capa dura, batizada Nos ombros dos gigantes, título de sua primeira palestra no La Milanesiana. O livro é um lançamento mundial, que chega ao Brasil pela Record.

Saudado como a quintessência deste generoso pensador, Nos ombros dos gigantes é uma bela prova da capacidade do abstracionismo do pensamento humano. Falar sobre o invisível foi o desafio proposto a Eco pela curadora do La Milanesiana Elisabetta Sgarbi na edição de 2009. O semiólogo não apenas destila sua enorme erudição como conduz a audiência por reproduções de gravuras e desenhos pertencentes a coleções públicas e particulares e de fotos de grandes estrelas como Maria Callas e Isabelle Huppert. “Não é culpa minha se a Milanesiana retorna de modo um pouco obsessivo a assuntos intratáveis”, reconheceu, certa vez, bem humorado.

A constante interação entre conceitos teóricos e imagens torna a leitura de Nos ombros dos gigantes extremamente prazerosa. São quase 150 imagens de obras de artes e outros grandes momentos da criação artística ao longo de praticamente cinco séculos. O trabalho iconográfico é especialmente marcante no último capítulo que trata sobre o sagrado. Surge, neste momento, vasta iconografia sacra com criações de Caravaggio, Tintoretto, Giorgione, Lorenzo Lotto, Carlo Maratta, pertencentes a instituições como o Vaticano, Louvre e o Museu da Idade Média.

A imagem da capa, que surge no capítulo dedicado ao Absoluto e relativo, é o retrato que William Blake pintou de um Isaac Newton jovem e musculoso em vez do habitual senhor a que estamos acostumados. A inusitada representação, do acervo da Tate Gallery, em Londres, ilustra a passagem em que Umberto Eco confronta a visão de mundo dos holistas.

Na última de suas participações em 2015, Eco recorre a Karl Popper e Daniel Pipes para investigar a fixação da humanidade por teorias conspiratórias. “De fato, se estou convencido de que a história do mundo é dirigida por sociedades secretas — sejam os Iluminados ou o grupo Bilderberg —, que estão prestes a instaurar uma nova ordem mundial, o que posso eu fazer? Só me render e me angustiar. Portanto, as teorias da conspiração direcionam a imaginação pública para perigos inexistentes, distraindo-a das ameaças autênticas”, alerta o pensador.

Umberto Eco (Alexandria, 1932 − Milão, 2016) foi filósofo, medievalista, semiólogo, crítico literário e midiólogo. Estreou na ficção narrativa com O nome da rosa, seguido de O pêndulo de Foucault, A ilha do dia anterior, Baudolino, A misteriosa chama da rainha Loana, O cemitério de Praga e Número zero. Entre suas numerosas obras ensaísticas (acadêmicas ou não), recordamos: Tratado de semiótica geral, Os limites da interpretação, Kant e o ornitorrinco, Da árvore ao labirinto, Quase a mesma coisa e A definição da arte. Publicou os volumes ilustrados História da beleza, História da feiura, Vertigem das listas e História das terras e lugares lendários. Reconhecido como um dos mais importantes escritores e pensadores dos últimos tempos, grande parte da sua obra se encontra publicada no Brasil pela Editora Record.