O mundo tem jeito? É possível pensar no desenvolvimento da humanidade fora de uma economia predatória? Eduardo Felipe Matias acredita que sim. Segundo o autor, Estado, empresas e sociedade civil devem entender como extrair o melhor da globalização para criar um “círculo virtuoso de sustentabilidade”. Isso é o que ele defende em “A humanidade contra as cordas” (Paz & Terra), obra que conquistou este ano o segundo lugar na categoria “Economia, administração, negócios, turismo, hotelaria e lazer” do Prêmio Jabuti, e também na entrevista abaixo, concedida na época desse lançamento.
“Vivemos uma situação insustentável. As grandes crises enfrentadas pela sociedade global – as financeiras e a ambiental – resultam, em grande parte, de incentivos perversos. Superá-las depende de reverter esses incentivos e criar outros, voltados para estimular a visão de longo prazo e a preocupação com a sustentabilidade, tanto econômica quanto socioambiental, de todas as atividades humanas”, afirma no livro o autor, que estará em Paris entre 5 e 11 de dezembro para acompanhar a última semana de negociações do novo acordo global sobre o Clima na COP-21. Nesse período, ele participa dos eventos paralelos promovidos pela ONU e por organizações da sociedade civil e empresariais.
Como surgiu “A humanidade contra as cordas”?
O livro surgiu por meu interesse nesses assuntos globais a partir de minha formação em Direito Internacional. Quando publiquei “A humanidade e suas fronteiras: do Estado soberano à sociedade global”, ficou muito claro que o grande problema da humanidade é a sustentabilidade associada às questões climáticas. Então passei a acompanhar debates sobre o assunto e a refletir sobre como essa sociedade global pode reagir e vencer esses desafios. Em outras palavras, como a globalização e a sustentabilidade interagem e como pode existir uma governança global efetiva em busca dessa sustentabilidade.
Há muitas críticas em relação aos Estados e seu papel na sociedade contemporânea. Qual é a importância deles hoje e qual é a relação que eles mantêm com as grandes empresas transnacionais?
Esses são os dois grandes atores da sociedade global. O Estado já teve mais importância do que tem hoje. Ele perdeu poder em relação às organizações internacionais e empresas transnacionais, como as ONGs e multinacionais. Mas o Estado ainda tem uma função muito grande nesse contexto, como regulador e indutor de práticas e comportamentos. Ele tem instrumentos importantes, como a tributação. Falo muito no livro a respeito da precificação do carbono. Enquanto não houver uma precificação do carbono, um entendimento de que sua emissão tem um custo social, o problema não vai se resolver. Esse custo até hoje não é arcado pelas empresas produtoras das emissões. Aí o Estado tem um papel fundamental.
E como o Estado pode ser indutor?
Ele tem um papel fundamental na inovação. Ele pode ser um grande promotor por meio de leis de incentivo, de proteção ao desenvolvimento e de apoio à inovação tecnológica. Mas só o Estado não vai resolver. Ele é um ator importante, mas precisa contar com o setor privado. E aí as grandes empresas transnacionais têm uma participação decisiva, já que elas são as grandes causadoras das emissões. Elas poderiam ser as responsáveis por uma economia verde, com o desenvolvimento de novas tecnologias com baixa emissão de carbono, por exemplo. Estado e empresas devem estar, portanto, muito bem coordenados para realizar um esforço conjunto em direção a uma nova onda de prosperidade.
Ainda existe muita gente que acredita que economia e meio ambiente são temas inteiramente distintos. De que forma eles estão relacionados?
Eles estão absolutamente interligados. Não é por acaso que começo o livro falando da crise ambiental e da crise financeira. Por que eu falo dessas duas crises? Porque elas têm a mesma origem. Há incentivos equivocados, perversos, que acabam afetando toda a forma de funcionamento da nossa sociedade e da nossa economia. Se esses incentivos não forem mudados para outras direções, a tendência é que tudo piore, que ocorram novas crises financeiras e que a questão ambiental continue se agravando. Faço uma análise muito minuciosa da crise ambiental e, especificamente, realizo uma análise da crise de 2008, um exemplo de mais uma das crises financeiras que ocorreram neste e no século passado. Também tivemos a crise asiática em 1997, que se espalhou pelo mundo inteiro. E todas elas são crises globais. E hoje ainda estamos no rescaldo de uma dessas crises que se iniciou no coração desse sistema, que é os Estados Unidos. Em 2008, vimos que foram pagos bônus para empresas que, na verdade, iam mal. Isso demonstra o predatório espírito da atualidade, de buscar lucros altos sem se preocupar com o futuro. E aí aponto um declínio do poder do Estado entre os anos 1990 e 2000.
Por que ele ocorreu?
Por conta da globalização. É um período em que a revolução tecnológica aumenta a mobilidade das empresas e, com isso, elas passam a ter um poder de pressão maior frente aos Estados, ameaçando levar capitais de um lado para o outro, caso o Estado não regule a economia da maneira que elas desejam. Os mercados financeiros têm igualmente um poder muito grande. Por conta desse grande aumento da volatilidade de capitais e securitização, ocorreu em 2008 uma grande crise do sistema. E aí o Estado é chamado para resgatar as empresas que estavam em dificuldades. É uma situação estranha, porque é o Estado com menos poder que vai bancar essas empresas e, no final das contas, quem paga a conta, através de impostos, somos todos nós.
Isso não leva a uma crise da própria globalização?
Sim, porque ela é questionada por se mostrar uma globalização meramente financeira. E com essa crise o Estado volta a ter importância. Com a crise de 2008, os Estados tiveram uma grande oportunidade de dar uma nova direção para a economia mundial focada na tecnologia verde, de baixa emissão de carbono. O G-20 (grupo formado pelos ministros da Economia e presidentes dos bancos centrais das 19 maiores economias do mundo mais a União Europeia) se reuniu naquela época para tentar contornar a crise, com uma coordenação global de estímulo fiscal. Aquele foi um momento crucial para instituir o que foi chamado na época de Green New Deal. E não foi o que aconteceu, apesar do esforço de alguns países.
Nesse sentido, é possível uma mudança nos paradigmas da economia mundial sem a participação do governo e das empresas dos Estados Unidos?
A gente chegou a uma situação muito grave. A economia precisa dar uma virada de quase 180 graus para escapar do desastre. Há uma matriz energética e um sistema de transporte muito imbricados na economia mundial que são de difícil reversão. Será preciso um grande esforço para reverter as mudanças climáticas através de tecnologias alternativas, energias renováveis e transportes públicos. Isso não vai depender de um só ator, muito menos de um só país, mesmo um tão importante quanto os Estados Unidos. Esses esforços terão vários focos distintos. E os Estados Unidos podem não entrar em um primeiro momento, mas isso não depende unicamente deles, mas de diversas ações para mudar essa matriz energética, nosso sistema de transportes e a vida de cada um de nós. Defendo no livro a ideia de um círculo virtuoso da sustentabilidade. Temos de forçar alguns atores a entrar nessa luta. Como? Quando algumas empresas têm vantagens em utilizar tecnologia de carbono zero e quando outras passam a ter novas vantagens com isso. Então começam a ocorrer coalizões entre empresas e entre empresas e Estados que, por sua vez, vão começar a fazer acordos internacionais de sustentabilidade. É preciso pôr esse círculo em movimento e aí vai chegar o momento em que os Estados Unidos vão se ver contra a parede, mais cedo ou mais tarde. Os países mais dependentes do petróleo devem ser os últimos a entrar no círculo. A solução só virá na medida em que esse círculo crescer e abarcar mais atores.
Para espantar a crise, nos últimos anos o Brasil concedeu incentivos fiscais a indústrias poluidoras, como a automobilística. Isso não é ir na contramão das mudanças?
Na prática existe um funil da sustentabilidade que está se estreitando por uma série de motivos. Entre eles, ambientais, com a escassez de recursos que leva a maiores dificuldades de produzir. O argumento é que as primeiras empresas que passam por esse funil serão as primeiras a ter benefícios por conta disso. Esse raciocínio também se aplica aos Estados. A China está nesse funil, por conta do aumento terrível de poluição que vem sofrendo. Seu governo percebeu que era preciso apostar na energia renovável e hoje ela é uma grande investidora nesse campo. Está saindo na frente. E quando houver um grande acordo global que, de alguma forma, precifique o carbono, e acho que é isso o que deve acontecer no século 21, ela vai estar na frente. O Brasil tem recursos naturais abundantes e uma localização geográfica privilegiada que permitem a adoção de tecnologias verdes. Seria uma pena que ele não as adotasse e ficasse para trás por não oferecer os estímulos adequados.
Sustentabilidade é, portanto, um problema político?
A sustentabilidade só vem com muita vontade política. Para que isso ocorra, é preciso o envolvimento das pessoas, dos Estados e das empresas. A globalização é muitas vezes malvista porque ela é associada a uma mentalidade predatória, a uma ideia de crescimento incessante que está esgotando nossos recursos naturais. Mas a globalização também é uma ferramenta muito útil para disseminar tecnologias verdes e, principalmente, para espalhar uma nova consciência para que a gente viva em um mundo mais sustentável. Estamos vivendo um início de século com uma contribuição muito grande da globalização para a política. A globalização era até então um fenômeno predominantemente econômico, um pouco cultural, mas politicamente tinha pouco a dizer. Mas no começo desse século vimos as Wikirevoluções, com a Primavera Árabe, o que aconteceu nos Estados Unidos, aqui e na Turquia. A revolução tecnológica permitiu também que as pessoas se organizassem de outras maneiras, em redes sociais, com celulares. Nesse sentido, a globalização pode servir para disseminar a ideia de que, do jeito que está, não dá pra ficar. É preciso repensar o modelo atual senão a gente vai ficar contra as cordas.