“A imaginária”, de Adalgisa Nery

5/09/2015 9 visualizações

Por Cláudia Lamego

 

Adalgisa Nery (créd. Paulo Garcez)Com curadoria do poeta Ramon Nunes Mello, a José Olympio planeja publicar toda a obra de Adalgisa Nery. Depois de A imaginária, será a vez do romance Neblina, dois livros de contos e uma nova reunião dos livros de poesia, num trabalho de resgate que pretende conquistar novos leitores e inscrever o nome da autora no merecido lugar de destaque na vida literária do país.

Com uma prosa impregnada de poesia, Adalgisa tece neste livro os dramas psicológicos da personagem, que em muito se assemelha a si própria. São muitos os pontos de ligação das duas: Adalgisa também se casou cedo, para fugir de sua madrasta, com o poeta Ismael Nery. Como o marido da ficção, Nery era um homem culto, rodeado de intelectuais, que, no entanto, não reconhecia seu talento e, uma vez tuberculoso, a oprimia.

Com esse romance feminino de formação, em que a narradora se insere na moderna literatura brasileira, Adalgisa Nery, voz atuante também no jornalismo e na política, ilustrou “como a sociedade e os homens imprimem na mulher as marcas da dominação a da repressão”, segundo o ensaísta Affonso Romano de Sant’Anna, que assina o posfácio da obra. O livro é, continua Sant’Anna, “a narrativa de como a mulher faz seu doloroso percurso de liberação desse massacre”.

Leia trechos e frases do romance:

 “Hoje, tenho uma enorme piedade daquela menina que descobriu o eco, daquela menina que desejou ser árvore e esperou ansiosamente pelas raízes que prenderiam o seu corpo à terra morna das tardes de verão! Coitada! Como esta menina era magnífica, era bela!… Como foi depois desfolhada e jogada aos ventos perdidos e aos violentos temporais!” (…) Que saudade daquela Berenice criança, tão pura e tão nobre que, mesmo respirando uma vida de contradições, de tristezas objetivas e subjetivas, possuía forças incubadas e grandezas em potencial! Com o correr do tempo essas forças e grandezas se foram desgastando, e hoje apenas ficou uma dolorosa e amarga sensação de ridículo e pobreza! Não sei se foi a noção do eterno que mais tarde adquiri, que fez com que hoje eu olhe para tudo e todos com lassidão, desinteresse e perdão.”

 “Conservo, apesar do constante combate a mim mesma, uma natureza impulsiva. Revolto-me com a burrice, a má-fé, as manobras sórdidas de traição alimentadas nos escaninhos dos caracteres e enojo-me com as inferioridades de espírito e a incrementação da ignorância. Mas, passado o meu arrebatamento, envergonho-me das minhas reações quixotescas e penitencio-me de não me ter esforçado para compreender melhor as criaturas. Obrigo-me à procura de sentir na confusão dessa miséria humana uma ação limpa e desinteressada em alguém.”

“A vida tem para mim formas infinitamente variadas em que a poesia sempre se manifesta com a mesma grandeza e o mesmo intenso colorido. Leva-me aos cumes mais altos do universo e atira-me às profundezas mais escuras das dolorosas regiões.”

 “Não creio que haja nenhum período feliz na nossa vida. Às vezes há uma fase de inconsciência da infelicidade.”

“Nunca fui e jamais me esforcei para ser boa. Todo o meu trabalho tem sido para ser compreensiva. O sentimento de bondade da natureza humana, a meu ver, sempre foi uma das deploráveis e sórdidas ilusões com que contamos para enfrentar julgamentos e guarnecer a vida. Em essência, essa ilusão só nos dá prejuízos. É uma manifestação de fundo egoístico. Praticamos a bondade com intenção dirigida, para que mais tarde possamos receber em troca alguma coisa. O céu ou o reconhecimentos dos nossos semelhantes.”

 “O otimismo não é senão viver unicamente o que desejamos que aconteça de agradável num futuro de dados desconhecidos.”

 “Abençoados aqueles que não tiveram tréguas na alma, porque podem ver as cores das madrugadas, o brilho das estrelas, sentir o calor do sol, receber o pranto das chuvas, colher o perfume das flores, ouvir a canção das águas e compreender a voz dos ventos. Esses, realmente, viveram em unidade, viveram dentro das forças contrárias, e por isso mesmo podem distinguir o valor das lágrimas e das alegrias, do silêncio e das canções e a grandeza do contentamento dos sentidos, largados em plenitude”.

 “Nunca desejei ser uma mulher forte. Aspirei sempre possuir a fragilidade. A luta com a vida, que a tantos engrandece e qualifica num plano de privilégio, nunca foi o meu sonho nem a estrutura da minha vaidade. A minha única aspiração, o meu único desejo, a minha única forma de perfeição, sempre foi e será o amor.”

 “Sou uma mulher com horror às medidas medíocres. Não podendo alcançar a perfeição, forço-me às mais completas imperfeições, não podendo ter tudo de maior e de mais belo, prefiro ficar reduzida à miséria, não podendo conseguir o maior e mais absoluto amor, retiro-me para a solidão, já que não me construí porque a vida tirou-me os elementos necessários e, constantemente, lembra-me a mediocridade em que me atirou. Rebato-a, destruindo-me como acérrima inimiga.”