Depois de refletir sobre suas vivências como mulher e mãe no emocionante e arrebatador “Carta ao filho”, Betty Milan mergulha agora na relação delicada de uma filha que passa a ser mãe da própria mãe que, aos 98 anos, está quase cega e quase surda, se locomove mal e se alimenta como um passarinho. Na impossibilidade de diálogo real, a filha-narradora escreve cartas para uma mãe imaginária, falando do seu drama. Faz isso no intuito de suportar a devastação física, a falta de comunicação e, mais ainda, para elaborar a perda da genitora antes mesmo da sua morte. Na obra, ela rememora o passado de uma mulher bem disposta e combativa que, por ter-se tornado viúva, assumiu a empresa do marido, cujas cartas de amor ela passou a ler e reler. As mesmas cartas que, na impossibilidade de enxergar, aos 98 anos, a filha lê para ela. E que a inspiraram a tornar-se, ela mesmo, escritora.
O seu último livro se chama Carta ao filho. Agora você escreveu A Mãe Eterna ? Que relação existe entre estes dois livros ?
Escrevi os dois para superar um drama pessoal. Mas Carta ao filho é um texto autobiográfico e A Mãe Eterna é um romance que se impôs por causa da velhice extrema da minha mãe. Graças a este romance, consegui aceitar a passagem da condição de filha para a da mãe da mãe, uma passagem extremamente difícil. De repente, nós temos que cuidar de quem sempre cuidou de nós e fazer um luto antes mesmo da pessoa morrer. Não há como escapar a isso. Mas como suportar e de que forma agir ? Ao escrever A Mãe Eterna, me deparei com um drama ao qual os filhos e os pais estão cada dia mais sujeitos, o da velhice extrema. Precisamente por isso, a longevidade é um dos temas do Museu do Amanhã do Rio de Janeiro, um museu que deveria servir de exemplo para vários outros. Um dos painéis diz : « Seremos ainda mais numerosos, com alguns vivendo por muito tempo. Seremos mais longevos e em muitas regiões se viverá três vezes mais do que no Império Romano. Os idosos serão tão numerosos quanto as crianças… » A longevidade obviamente terá consequências importantes para o planeta.
Você diz no romance que, por causa da longevidade extrema, seria necessário inventar um outro mundo para os velhos.
Sim, um mundo inofensivo e mágico. Nele, o fogo não queima e o gás se apaga automaticamente. Assim, o velhinho não corre o risco de se queimar ou mesmo de morrer por causa de um esquecimento. Neste mundo, bastaria ter uma idéia para ela se realizar. Se, por acaso, o velhinho imaginar que está indo da sala para a cozinha, o chão se desloca e o leva até a cozinha. Com o deslocamento, ele terá o sentimento de andar como sempre andou etc. Uma das grandes questões hoje é a nossa longevidade. Como lidar com ela sem excluir ou maltratar o idoso ? A heroína da Mãe Eterna procura soluções e às vezes encontra.
Você poderia falar sobre a história do romance ?
A mãe da narradora está quase cega e quase surda, se locomove mal e se alimenta como um passarinho. Na impossibilidade de dialogar com esta mãe, que caminha para o centenário, a filha-narradora escreve para a mãe que ela perdeu – imaginária– e fala do seu drama que está vivendo.
Apesar da idade, no entanto, a mãe real se conserva esperta e só faz o que bem entende. “Passa a perna” em quem tenta domá-la com orientação sobre os médicos, os remédios, a alimentação. Ou então, demite a cuidadora, mas, quando a filha traz outra, ela “por acaso” reencontra a anterior, que obedece sem discutir as suas vontades. Trata-se de uma velhinha muita engraçada , que faz pouco dos medos da filha. Por exemplo, o de que ela seja sequestrada. « – Uma velha, filha. Quem vai querer me embarcar ? » Ou então o medo de que a mãe beba muito. Neste caso, a mãe simplesmente diz. « – Um vinho ótimo. Quer experimentar ? Você vai gostar ».
O seu leitor vai rir, mas ele também vai se confrontar com questões sérias.
Isso era obrigatório. Ao refletir sobre a condição da mãe, a filha-narradora do romance se pergunta até quando a vida deve ser prolongada e questiona a conduta do médico, que procura vencer a morte a qualquer preço. A função do médico é de tratar e não a de prolongar a vida indefinidamente. Sem levar em conta o custo objetivo e subjetivo disso. A partir do momento em que a pessoa perde a independência, se ela quiser ir embora, precisa ser ajudada. Por isso, o subtítulo do romance é morrer é um direito. A velhice extrema pode ser tão sofrida quanto a doença terminal Se quisermos humanizar o fim, temos que respeitar o direito de morrer. De um modo geral não temos consciência deste direito porque somos educados para aceitar o sofrimento. A narradora da Mãe Eterna não aceita esta educação.
Você é a favor da eutanásia ?
Sou contrária à obsessão terapêutica. Quando a pessoa quer morrer, cabe ao médico suspender o tratamento e dispor dos recursos que ele tem para facilitar a morte. Disso eu já tratei no romance, que se chama Consolação. O herói tinha câncer e não queria que sua vida fosse prolongada. O médico não deu ouvidos. Com isso, ele exacerbou o sofrimento do paciente e dos familiares. Ninguém deseja morrer, mas pode querer isso quando a vida se torna insuportável. Neste caso, fazer ouvidos moucos é uma crueldade.
Mas é difícil se separar de uma pessoa querida …
Claro que é difícil. Por isso a filha da Mae Eterna diz : « Quando você diz que quer morrer, eu me digo que seria melhor para você não sofrer. No entanto, procuro silenciar o seu voto. » A heroína é sempre muito ambivalente porque nesta situação não há como não ser.
Você pode falar do drama de se tornar a mãe da mãe ?
Ser a mãe da mãe significa perder a mãe, não ter mais a pessoa que cuida e imaginariamente nos escuda contra a morte. Trata-se de um luto dificílimo de fazer porque a gente se confronta com a decadência da pessoa. No romance, a narradora fala da mãe como de um passarinho que quebrou a asa.
Quais as dificuldades ao cuidar de um idoso ?
Além das dificuldades objetivas – como a reorganização do espaço físico e o cuidador especializado – existem as dificuldades subjetivas com as quais a maioria dos cuidadores não está preparada para lidar. O velho sofre com a perda da independência e, por causa disso, tende a ser negativista. A tudo ele primeiro diz não. A conduta se torna menos irritante quando a gente entende que o não serve para afirmar a independência. O problema é que ao afimar a independência , a pessoa corre risco de fazer mal a si mesma ou corre risco de vida, saindo sozinha na rua, por exemplo.
No meu romance, são muitas as cenas em que a filha se desespera por não conseguir controlar a mãe. Conclui que a idade deu a esta um alvará para fazer o que bem entende. O velho pode ser comparado ao poeta, que tem licença de versificação, sintaxe e ortografia. As licenças do velho são outras, não catalogáveis, porque ele muda o jogo continuamente. Quem se ocupa de uma pessoa idosa tem que saber disso e dançar conforme a música.
No romance, o irmão da narradora diz que ela não respeita a liberdade da mãe.
Não se pode deixar a pessoa se expor inutilmente ao sofrimento, cair ou ser atropelada. A fratura precisa ser evitada porque a reabilitação do idoso é difícil e, depois da queda, é a cadeira de rodas. Quem cuida tem que proteger. Isso implica uma tática e requer um aprendizado. Inútil contrariar o idoso que acaba se enfurecendo e empaca. O cuidador tem que ser particularmente maneiro. Tem que escutar porque cada um é um e é preciso descobrir a forma de agir.
Isso significa que é possível aprender com o velho.
Aprender a ter paciência, a não se irritar. A narradora da Mãe Eterna inclusive diz que ela tem medo de se comportar « como uma megera em vez de ser o cordeirinho do bom pastor de que a mãe precisa”. Teme perder o contrôle. Acredito que, em nenhuma outra situação, eu tenha aprendido tanto quanto nesta passagem de filha para a mãe da mãe e isso talvez sirva de consolo para os que estão numa situação análoga. Mas o meu romance não fala só do luto, ele fala continuamente do amor. Porque a filha ama a mãe e a mãe é apaixonada pelo sentimento amoroso, evoca continuamente a correspondência com a marido .
Você também é apaixonada pelo amor, autora de O que é amor, Paixão de Lia, O Amante Brasileiro…
O amor nos leva ao céu embora também possa nos levar ao inferno. Me debrucei sobre o tema a vida inteira e escrevi uma peça para Nathalia Timberg, Paixão, que ela faz há vinte anos. A Mae Eterna fala da morte e também do amor. O tema da morte em geral é censurado, mas não é a censura que nos protege e sim a consciência de que somos finitos e de que a vida é sempre completa, independentemente da sua duração.
Fêh Zenatto
Nossa, adorei a sinopse breve do livro e também a entrevista da autora! Fiquei muito curiosa para ler.
Parece um livro extremamente tocante e real. A autora tem muitas opiniões das quais também compartilho, como a função do médico, a independência dos idosos e outras.
Adorei!
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