“A máquina de caminhar”, de Cristovão Tezza

7/04/2016 3030 visualizações

Autor dos romances “Fantasias eletivas” e “História da chuva”, Carlos Henrique Schroeder é escritor, editor, curador de um festival de contos e agora também colunista de literatura do Diário Catarinense. Na entrevista abaixo, ele conversa com o premiado Cristovão Tezza, que lançou este ano seu último livro de crônicas, uma seleta de 64 textos originalmente publicados na Gazeta de Notícias. A obra traz um delicioso ensaio sobre o gênero, em que Tezza decreta sua despedida desse tipo de texto. Este ano, o autor de “O filho eterno”, cuja adaptação para os cinemas já começou a ser filmada em Curitiba, lança novo romance, “A tradutora”.

 

Da densidade do romance para o bom-humor das crônicas: qual o caminho?

O primeiro lance foi simplesmente prático: largando meu ofício de professor na universidade, o convite para ser cronista abria um dos caminhos de sobrevivência do escritor na vida selvagem aqui fora. Do ponto de vista do texto, é uma passagem difícil – ser cronista é escrever em voz alta o tempo todo, o que pode ser mortal no romance.

No ensaio você admite nunca ter sido fã do gênero, até se render. Era um preconceito? 

Não – era um simples “conceito”, digamos assim. Todo mundo tem preferências, e a crônica não me atraía. Mas, como todo mundo, é claro que eu era um leitor de crônicas, pelo simples fato de ser um leitor de jornal. Elas estão sempre lá – é o ninho.

E quando exatamente você descobriu as potencialidades da crônica?

Ao enfrentá-las no corpo a corpo, no ringue do texto. Escrever revela. A gente vai descobrindo o que é possível fazer com aquele espaço estreito, na pressa semanal.

Uma das crônicas é sobre a violência na internet, que vem crescendo a cada dia. O Umberto Eco disse certa vez que a internet deu voz para uma legião de inaptos sociais (a palavra foi imbecis, mas vamos abrandar isso). O que você acha disso?

Ele tem razão. A internet abriu a caixa de Pandora da cabeça das pessoas. De repente, sob o poder diabólico de um misterioso feitiço, todas as pessoas passaram a falar furiosamente tudo sobre qualquer coisa o tempo todo. É infernal. Às vezes da vontade de fugir e se esconder.

Quem você considera o grande cronista brasileiro? Você acompanha algum cronista contemporâneo?

Entre os clássicos, continuo a considerar Machado um mestre absoluto do gênero. Na verdade, ele criou o formato da crônica brasileira moderna. Mas esclareço que não sou especialista – eu precisaria fazer uma varredura histórica mais precisa. Dos contemporâneos, leio sempre Cony, Ruy Castro, Verissimo, e acompanho a geração mais nova, como Antonio Prata.

O que a crônica pode ensinar ao romance? Muita gente ainda confunde conto e crônica, como você dividiria esses dois caminhos?

Assim como se brinca que conto é o que o autor considera um conto, podemos dizer também que a crônica pode ser qualquer coisa. Bem, para colocar um pouco de método, eu diria que a crônica deriva diretamente do jornalismo, não da literatura. Para mim, decididamente, crônica não é conto. Ela pode se apropriar de alguns traços do conto, mas as limitações típicas do “ambiente” objetivo da crônica acaba dominando a sua linguagem. No ensaio que fecha o livro de crônicas (“Um discurso contra o autor”) eu converso sobre isso.

Como você acha que Machado ou Braga veriam na crônica o atual momento político brasileiro?

Só para brincar com uma futurologia do passado: eu acho que Machado iria se divertir, ironicamente, com a situação, sem deixar se contaminar pela paixão e deixando implícito que, aconteça o que acontecer, o Brasil prosseguirá exatamente o mesmo. Já Rubem Braga provavelmente assumiria uma posição e deixaria isso claro em seu texto.

A crônica, amada nos jornais, vende pouco. Why?

Por ser justamente filha do jornalismo, escrava do instante presente, da referência mais ou menos imediata. Num livro, a crônica como que parece empalhada, fora de seu hábitat. Por outro lado, a sequência de crônicas, no livro, dá uma visão bem mais completa do olhar do cronista do que aquela que se tem na leitura fragmentária do dia a dia.

Das 355 crônicas apenas 64 entraram no livro. Como foi a seleção?

Quem fez a seleção e a apresentação foi o jornalista e tradutor Christian Schwartz – eu não palpitei absolutamente nada. Mas gostei muito do resultado. O Christian conseguiu seguir um fio temático do começo ao fim, fixando-se nos textos com um maior espírito de permanência, com temas menos incidentais.

Você se despediu da crônica em 2014. Pensa em voltar?

Como todo mundo diz, o futuro a Deus pertence. Mas, sinceramente, não penso em voltar – acho que esgotei o meu ciclo de cronista e, a esta altura da vida, quero me concentrar inteiramente na literatura. A crônica me dispersa muito.

Você usa Machado no ensaio. Você volta muito ao Machadão?

Sempre. Ele é uma referência absolutamente obrigatória da cultura brasileira.

Que espaço SC ocupa hoje na sua vida e literatura?

Bem, sou catarinense de pai e mãe. Passei minha infância – de que tenho lembranças maravilhosas, até o dia em que o meu pai morreu – em Lajes. Nos anos 1980, fui professor da UFSC (onde também fiz mestrado). Trabalhei vários anos nas peças do Rio Apa, na Lagoa. Escrevi “Ensaio da paixão” pensando na ilha. No romance “Aventuras provisórias”, a Lagoa tem um papel importante. Enfim, não escapamos de nossa origem.

Mas, literariamente, acabei me tornando um escritor de substância curitibana. Tenho sempre um toque do olhar de fora, é claro, mas Curitiba foi muito forte na minha formação. Como escritor, desde “Trapo”, publicado em 1988, eu me tornei inescapavelmente curitibano.

Dicas: que escritores contemporâneos você tem acompanhado e um clássico para quem quer escrever?

Eu tenho acompanhado menos a produção contemporânea do que gostaria. Desde que terminei meu novo romance, “A tradutora” (que deve sair em outubro pela Record), venho fazendo um planejamento de leituras e releituras de autores clássicos.

Sobre um clássico para quem quer escrever – é uma pergunta difícil! Depende muito de temperamento e da inclinação do candidato a escritor. A literatura se divide em “famílias”, que nem sempre se dão bem (como acontece nas famílias, aliás). Escritor tem de ler muito, e de tudo. E ele acaba se encontrando e fazendo seu caminho nesta floresta.

Poderia adiantar alguma coisa do livro novo?

Em “A tradutora” eu retomo a personagem Beatriz (de “Um erro emocional” e dos contos de “Beatriz”). Desta vez ela é contratada como intérprete de um assessor da FIFA que vem a Curitiba no ano da Copa do Mundo.