“A rainha da neve”, de Michael Cunningham

7/05/2016 40 visualizações

Por Mariana Moreno

As pessoas são mais do que supomos que sejam. E são menos, também. O truque reside em lidar com ambos os aspectos.” Esta frase de “A rainha da neve”, romance de Michael  Cunningham lançado pela Bertrand Brasil em 2015, resume com precisão a essência dos personagens do livro. Vencedor do Pulitzer em 1999 com “As horas”, Cunningham apresenta como protagonistas de seu novo livro dois irmãos que moram em Nova York e buscam transcender suas vidas medíocres.

Barret, 38 anos, acabou de ser dispensado pelo namorado por uma mensagem de celular. Ele é formado em Yale, mas pulou de emprego em emprego até se tornar vendedor em um brechó de uma amiga. Tyler, 43, é um músico frustrado que trabalha como bartender nas horas vagas. Sua vida nos últimos tempos se resume a cuidar da namorada Beth, que está com câncer. Como gesto derradeiro de amor, ele tenta, obsessivamente e com auxílio das drogas, compor uma música especial para ela.

O livro, que faz no título uma alusão ao clássico conto de Hans Christian Andersen, traz seu componente místico logo no primeiro capítulo, quando Barret vê uma luz pálida e translúcida no céu do Central Park. Mais do que simplesmente tê-la visto, ele afirma que a luz o encarou. Apesar de pouco afeito a religiões e crenças, ele começa a acreditar que a experiência tem algo de sobrenatural.

Com uma linguagem poética e sarcástica, Cunningham mostra a vida ordinária dos irmãos e de seu círculo mais próximo de amigos. A maioria dos personagens está numa faixa etária em que os anseios e as euforias da juventude deram lugar a uma certa melancolia e  sobriedade, apesar do álcool e das drogas serem elementos marcantes do romance.

Em parte frustrados por um futuro que não se concretizou como promissor, Barret e Tyler  (cuja relação de cumplicidade é um dos destaques do livro) parecem agir como se vislumbrassem algo que os retirassem de suas vidas pequenas e insignificantes para o resto do mundo. Como diz Barret: “mais que procurar o amor e pensar aonde ir para jantar”. Enquanto ele reflete se foi o escolhido para ser testemunha de um fenômeno surpreendente, Tyler vai da cocaína para a heroína em busca de uma inspiração que o tire do anonimato profissional.

Sem apelo a qualquer tipo de heroísmo, “A rainha da neve” mostra que ressignificar as rotinas e expectativas também é uma forma de transcender.

Trecho:

“Quase nunca o resultado é o esperado, certo? Nossas esperanças podem parecer frustradas, mas muito provavelmente estávamos esperando pela coisa errada. Onde foi que nós, a nossa espécie, adquirimos esse hábito estranho e perverso? Deus te abençoe, Barret. É o desejo do seu irmão mais velho no apartamento do quarto andar da Avenida C. Não exatamente um olho no céu, mas, afinal, só podemos oferecer o que temos, certo? A benção do seu irmão levemente perturbado, que não consegue prover romance, mas provê intimidade e libertação. Conheço você, já vi isso. E, tudo sabendo, liberto você.

O céu piscou para você, certo? Talvez. Talvez tenha piscado. Ou talvez fossem apenas um avião  e uma nuvem. Mas, se o Céu pisca para alguém, sem dúvida há de ser para os que menos atenção chamam; para os que remexem entre o que foi descartado; os que preferem a trilha à avenida, o buraco na cerca aos portões majestosos. Talvez por isso não haja provas verificáveis, certo? O universo só pisca para aqueles nos quais ninguém acredita.”