‘Amor de cabelo’ e empoderamento infantil

16/04/2020 294 visualizações

Por Rafaella Machado*

Não é nenhuma novidade que os padrões de beleza começam a oprimir a autoestima das meninas cedo em suas vidas, minando a autoconfiança e deixando marcas profundas. As meninas negras, além de sofrerem a pressão estética, são ainda mais afetadas pelo racismo velado da sociedade, que muitas vezes aparece na relação delas com o cabelo. 6 em cada 10 meninas cacheadas não gostam do seu cabelo. Os dados são de uma pesquisa da Dove em 2018.

O Brasil é um país de maioria negra, e é também o país inventor e campeão nas “escovas progressivas” e outros alisamentos a base de Formol. Não raramente esse tipo de procedimento agressivo é feito em meninas muito novas, na tentativa de aplacar o bullying vivenciado nas escolas.

Felizmente, de uns anos para cá, uma mudança surgiu e mulheres cacheadas começaram um movimento de aceitação e transição capilar, abandonando de vez as químicas e voltando às raízes.

Em 2017, pela primeira vez no Brasil, as buscas no Google por cabelos cacheados superaram a busca por cabelos lisos. Os dados foram divulgados pelo próprio Google e publicados na revista Ela, d’O Globo, que ainda revelou um crescimento de 232% na busca por cabelos cacheados no último ano. Na mesma tendência, o interesse por cabelos afro subiu 309% nos últimos dois anos.

Um dos principais fatores que contribuíram para essa mudança de paradigmas foi o discurso de empoderamento feminino e de aceitação da própria beleza. Além, claro, da representatividade. As crianças aprendem através dos exemplos, e se elas não forem expostas a outras mulheres parecidas com elas, se a criança não vê ninguém como ela sendo exaltada e reconhecida por sua competência, beleza e aparência, fica praticamente impossível se valorizar.

A geração que hoje tem 30 anos cresceu com Barbies loiras, bonecas brancas e magras, viu modelos e atrizes eurocêntricas na televisão e nas revistas e aprendeu instintivamente que para ser bonita precisava de uma chapinha alisadora e muita química no cabelo. Finalmente, essa maré começou a virar, com cada vez mais atrizes, cantoras e influenciadoras negras conquistando espaços na sociedade e ressignificando a beleza dos seus fios naturais.

O cabelo é uma parte importante da nossa identidade, de quem somos e de nossa herança. Passar uma vida inteira lutando contra isso é desgastante, doloroso e muito nocivo para a autoestima de uma pessoa. O movimento de aceitação capilar, a valorização da estética negra, tudo isso está ajudando a construir um mundo mais justo.

Mas para se consolidar, as mudanças sociais precisam chegar às novas gerações. Como será a relação das crianças negras e cacheadas com seus cabelos e qual o nosso papel nessa mudança? O que precisa acontecer para que as crianças nascidas hoje cresçam sem a violência de odiar a si mesmas e sem propagar o mesmo preconceito com seus pares?

As histórias que ouvimos na infância têm um papel profundo em quem nos tornamos. É nelas que assimilamos os valores que nortearão a fase adulta. Editar livros infantis é uma responsabilidade enorme, pois escolhemos os temas, os personagens e as mensagens que pautarão a próxima geração. É por esse exato motivo que estamos publicando Amor de cabelo.

O livro é baseado no curta vencedor do Oscar de melhor animação em 2020, de Matthew Cherry, e é uma história simples que consegue ser revolucionária em sua simplicidade. A trama? A busca pelo penteado perfeito. Os personagens? Zuri e seu pai. O fato de o pai ser o responsável por cuidar da menina e arrumar seus cabelos é mais um exemplo de simplicidade revolucionária. Quantos livros infantis mostram unicamente pais cuidando de suas filhas? Quantos deles são protagonizados por crianças negras? Muito poucos, infelizmente.

E isso só significa que temos um longo trabalho pela frente, mas estamos muito animados que o futuro começou, um livro de cada vez.

*Rafaella Machado é editora-executiva da Galera Record, editora pioneira na publicação de romances LGBTQI para o público jovem