“Ariana”, de Igor Gielow

14/10/2015 61 visualizações

Por Manoela Sawitzki

fotoautor3Em 1992, Igor Gielow começava uma carreira jornalística intensa. Foi repórter, redator, editor-assistente, editor-adjunto e editor. Quatro anos mais tarde, tornou-se correspondente internacional e especializou-se, sobretudo, na chamada “guerra ao terror”. A experiência na cobertura em zonas de conflitos, como o Paquistão e o Afeganistão, deram a ele uma privilegiada “massa crítica de informações” que serviria de base para a construção do romance Ariana. Uma estreia no texto ficcional, de fôlego e vigor incomuns, em que a verossimilhança foi “pedra de toque”. Ou, nas palavras de Clóvis Rossi, o “making of” de uma grande, brilhante reportagem”.

Sua carreira jornalística começou em 1992. De lá para cá, você ocupou diferentes funções, de repórter, redator, a editor e correspondente internacional, sempre ligado ao grupo Folha. A escrita esteve presente como prática, claro, mas na esfera de outra linguagem. E quanto à escrita literária, e à literatura em si, mesmo como leitor, a partir de quando começa essa relação? Quais são suas principais referências?

Tudo começa em casa. Tive o privilégio de uma criação entre livros, com estímulo à leitura desde muito cedo — a biblioteca era meu campinho de futebol, até porque eu sempre fui uma negação no esporte. A partir da idade em que nos obrigam a decidir isso, sempre pensei em ser historiador. Acabei incidentalmente no jornalismo, o que de todo modo é uma forma de historiografia do presente. Assim, li muita história, o que naturalmente implica uma influência ao menos do ponto de vista de tentativa de precisão — um bom livro do John Keegan vale por muitos romances. Do ponto de vista de influências ou preferências estritamente literárias, elas mudaram ao longo dos anos, cada uma deixando sua parcela de culpa. Recentemente, cito W.G. Sebald, Sandor Márai, os britânicos contemporâneos (McEwan à frente), com pitadas de Bellow, Roth e a simbologia dos clássicos orientais (Farid Ud-din Attar, as sagas todas).
Numa nota correlata ao meu livro, não sou leitor de romances de espionagem. Li praticamente nada de Greene e Le Carré, apenas vi filmes baseados nos seus trabalhos — logo, se influência há, é por meio da cultura mais pop.

Você estreia com o fôlego de romancista, escreve um longo romance, com enredo de engrenagem complexa. Há um grau de detalhamento quase fílmico, que transporta o leitor com precisão às situações descritas pelo narrador. Gostaria que falasse um pouco sobre como foi o processo de pesquisa e escrita do livro. A cobertura em zonas de conflitos (sobretudo na região do Paquistão e Afeganistão), e a especialização em geopolítica e questões militares, ou seja, sua trajetória como jornalista lhe deu todo o material necessário para a construção de fundo dessa trama?

Sim, toda a matéria-prima que molda Mark e seu entorno saiu da minha experiência direta. Comecei minha carreira internacional em 1996, como correspondente em Londres, e desde o primeiro momento me envolvi com jornalismo de conflito, cobrindo uma das várias guerras no Líbano naquele ano. Passei muito pelo Oriente Médio e Norte da África, além de incursões europeias e sul-americanas e pelo mundo ex-soviético. A partir de 2001 me especializei na chamada “guerra ao terror”, e passei a década seguinte visitando Paquistão, Afeganistão e Iraque — o que gerou a massa crítica de informações para o romance.

Mas houve também desafios?

Sim. Como jornalista imerso na profissão há 23 anos, naturalmente tive de lutar para fugir da narrativa convencional do meu ofício — que implica simplicidade e clareza, além de didatismo. Ainda que haja detalhamentos necessários para a construção da trama, temi que as digressões geopolíticas e didatismos mais aprofundados prejudicassem a fluência do texto.

Mark Zanders, o jornalista brasileiro radicado em Londres, protagonista do romance, carrega uma questão de identidade curiosa: a descoincidência entre nome e nacionalidade, algo que causa alguma confusão com seus interlocutores. Pode-se pensar o mesmo sobre Igor Gielow. Não apenas em relação ao nome, mas também à trajetória. Até que ponto há aproximações e distinções entre autor e personagem? Temos aqui um thriller, mas também um exercício autoficcional?

Bom, sim e não. Não porque a vida de Mark é muito mais interessante do que a minha, para começar. Mas posso dizer que há poucas coisas no livro que não ocorreram ou comigo ou com pessoas que eu conheço. Verossimilhança foi minha pedra de toque, e naturalmente a coisa mais verossímil que conhecemos é nossa própria experiência. Ao mesmo tempo, tudo que vemos no mundo passa pela nossa lente de fantasias, criando na própria realidade que descrevemos uma idealização. No jornalismo, isso tem de ser controlado e evitado; na literatura, não. Assim, acho que esse tipo de ficção acaba sendo uma extensão hiperfantasiada de uma realidade verossímil — logo, não é autobiográfica no sentido estrito do termo, embora carregue signos que podem ser rastreados em suas origens.

“Ariana” fala de guerras no campo militar e político, guerras civis, tribais, intermináveis, mas também de batalhas pessoais, afetivas, de partes que não chegam a entendimentos, de conquistas (o outro como território), enfim, de um território afetivo complexo e minado, e ações (ou inações) que levam a rompimentos, remorsos, conflitos que parecem insolúveis. Esse paralelismo foi intencional?

Naturalmente. Para ficar na metáfora da Tábua da Esmeralda, o que está em cima é igual ao que está embaixo, e vice-versa, para criar uma coisa só. Todas as guerras e disputas geopolíticas me parecem uma reprodução ampliada do que ocorre em nível celular, e nossa vida emocional está em algum lugar no meio do caminho.

O nome Waqar — no livro, ele é o fixer, assistente e intermediário local que dá suporte a Mark na sua chegada ao Paquistão, e se tornará uma figura fundamental na trama, e esse nome também aparece na dedicatória do livro. Waqar realmente existe?

Sim, existe um Waqar que foi meu fixer durante anos no Paquistão. Mas está vivo e bem, ainda que exilado, e nunca foi um espião. Mas foi, do jeito dele, um herói.

A figura do fixer é pouco conhecida fora da esfera jornalística, ou mais ainda, do jornalismo voltado à cobertura internacional em zonas de conflito. No entanto, seu livro torna clara a importância desse personagem. A visibilidade de Waqar, em “Ariana” é uma forma de reparação?

Não, não acredito em reparação porque não acho que os fixers precisem disso; o contrário, creio, seria uma espécie de vitimização ao gosto do politicamente correto. Ao trazer uma atividade por natureza algo invisível ao público para o centro de uma trama, contudo, acredito que ajudo a jogar luz sobre ela. Espero que tenha sido de forma justa.

“Ariana” traz à tona uma teia de relações por vezes contraditórias, ou definitivamente escusas, criminosas, por trás da chamada “guerra ao terror”. Relações que envolvem governos, serviços secretos de diferentes países, movimentos fundamentalistas, facções terroristas, espionagem, e cujos “danos colaterais” geram um lento holocausto civil. Relações que perpetuam conflitos. Até que ponto, como jornalista, você teve acesso direto e, como seu personagem, correu os riscos da vizinhança com esses meandros? Como a história por trás de Ariana, que Waqar e Mark perseguem, há tantas outras que, com a suposta liberdade da literatura, pode-se revelar?

Como disse antes, verossimilhança foi um compromisso interno meu com o texto, embora naturalmente ele seja uma fantasia — felizmente, não se sabe de malucos fundamentalistas com acesso aos recursos de destruição citados na trama. Mas sim, vi muito desse “spy game” sendo jogado e observei como as manipulações entre seus atores acabam por desconsiderar vidas de pessoas ao redor — uma visita a um campo de refugiados ou a uma aldeia atingida por drones é bem didática sobre isso. Do outro lado, vi nas áreas tribais paquistanesas e afegãs irracionalismos tão ou mais bárbaros no seu descompromisso com a humanidade, assim como em escritórios de autoridades variadas.
Alguém poderia ficar tentado a fazer um paralelo entre o caso da menina Malala e Ariana, mas cabe um reparo: a trama original foi escrita entre 2008 e 2009, muito antes de a tragédia da garota acontecer e ser divulgada. Mas alguma semelhança vaga é inevitável dados os elementos, que permanecem inalterados: a condição da mulher no ambiente tribal, os irracionalismos já citados, a hipocrisia ocidental ao lidar com aquele “outro”.

Creio que Ariana sirva mesmo como personagem arquetípica — como ela, segundo você mesmo diz, há muitas. Poucas, como Malala, conseguem emergir. Seu romance toca muitas vezes nesse ponto: nos lugares que as mulheres ocupam. A relação do protagonista com o feminino, aliás é bastante conturbada. Você falar um pouco a respeito?

Mark é um homem bem ordinário em seu meio, o dos correspondentes internacionais. Ou seja, um alienígena na maioria das vezes em que se aventura a trafegar em território feminino. Em adição, não é exatamente o modelo de um sujeito amável pela sua psicologia. É atrapalhado e quase misógino aos olhos de uma feminista, embora eu prefira o considerar um misantropo borderline — ou um humanista platônico, melhor dizendo. Mas, com o tempo, ele passa por uma espécie de aprendizado forçado, a partir de sua atribulada relação com o outro feminino do livro (e ele está em todo canto). A resultante não é, claro, a de um sujeito bem-resolvido e “moderninho”, nem muito menos algum relato de redenção simplista. Mas ao menos acho que ele emerge mais acomodado com suas limitações e talvez embarcado em alguma jornada de autoconhecimento. E quem se conhece, teoricamente ao menos, tem uma possibilidade bem maior de vir a conhecer o outro com menores defesas.

Clóvis Rossi, que assina a orelha do romance, o apresenta como um “making of” de uma grande, brilhante reportagem”. Em determinado momento do livro surge a questão das marcas da guerra, feridas físicas e emocionais às quais todos que integram um território em guerra estão expostos. O romance, de certa forma, expõe marcas de suas experiências nessa zona? É possível cobrir uma zona de conflito sem ser alterado e ter que viver com o transbordamento de tudo aquilo que não pode ser publicado no âmbito jornalístico ?

Não, exceto que você seja um daqueles jornalistas que cobre a guerra trancado num quarto de hotel, e existem vários. Num ensaio escrito antes de morrer, a Susan Sontag revia alguns dogmas que havia enunciado no “Sobre Fotografia” sobre o poder das imagens da guerra sobre o público. Num dado ponto, ela explicitou o que achava dos soldados, jornalistas, agentes humanitários e outros trazidos ao conflito: são todos parte de uma espécie de confraria silenciosa, mesmo com a natureza exclusivista de seus ofícios (soldados se matam entre si, jornalistas quase isso na disputa pelo furo etc.). Pela minha experiência, digo que ela está certa. Todos compartilharam em algum momento um pedaço da dor que cobre esse tipo de evento, lidando muitas vezes com efeitos que vão do cinismo exacerbado ao estresse pós-traumático e suas várias colorações.
Como lidar com isso? Você pode tentar traduzir sua experiência em textos mais pessoais, algo em voga na geração atual e com resultados para mim bem discutíveis na prática. Ou você pode salpicar essas impressões ao longo de textos mais objetivos, o que foi sempre minha meta como jornalista, e buscar narrativas que envolvam e informem igualmente.
Falando sobre literatura em geral, e “Ariana” em particular, acho que a liberdade que a ficção dá permite que seus piores temores sejam abordados sem as amarras da realidade exigidas pelo rigor da reportagem. Isso gera uma simbolização lacaniana que deve ter lá sua função clínica, mas essa interpretação eu acho melhor deixar para o meu analista (risos).