“O arroz de Palma”, de Francisco Azevedo

23/01/2016 4071 visualizações

Por Mariana  Moreno

Com 88 anos, definidos por ele como dois infinitos em posição vertical, Antônio prepara um almoço para celebrar os 100 anos de casamento de seus pais. É na cozinha, na madrugada que antecede ao encontro, que ele resgata as memórias de toda a sua vida e as histórias da família, a maioria delas contadas por sua tia-avó Palma. O presente de casamento dela aos pais de Antônio, um pacote com o arroz despejado no cortejo aos noivos, é o fio condutor da trama e entrelaça dramas e alegrias de quatro gerações.

Romance de estreia de Francisco Azevedo, “O arroz de Palma” foi lançado pela Record em 2008 e se tornou um best-seller mundial, tendo sido publicado em 11 países além do Brasil. Em 2015, a editora preparou uma edição comemorativa em homenagem ao alcance da marca de 50.000 exemplares vendidos no país. A fórmula exitosa da história combina delicadeza e nostalgia para tratar de um tema que, com inúmeras particularidades, é caro a todos: a família.

O narrador-personagem visita várias fases de sua vida, de sobrinho-neto e ouvinte atento de tia Palma até o avô interessado nas novidades da última geração, apresentadas pelo neto Bernardo [“Se avô é pai com açúcar, neto é filho com proteínas, vitaminas e sais minerais”]. Ao percorrer um século na história de sua família, que veio de Portugal para o Brasil no início do século XX, Antônio versa também sobre as mudanças sociais e culturais do país, os anseios dos imigrantes e o retorno afetivo às raízes.

“O arroz de Palma” fala ainda sobre o envelhecimento, a perda do rigor físico e os voos da alma. [Tia Palma dizia que velho na horinha da morte conhece o máximo e o mínimo de si mesmo. É ao mesmo tempo elefante e louva-deus. É sequoia e flor-do-campo, oceano e poça de chuva, cordilheira e grão de sal].

Em momentos doces e amargos, o arroz de Palma está presente. Causador de inveja entre irmãos, motivo de peripécias entre as crianças, base de receitas para curar a saúde e abençoar relacionamentos.  A conservação do alimento por décadas e décadas parece mágica, mas é simbolizada pelo amor, transmitido de Palma para toda a família.

Trecho 

Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema – principalmente no Natal e no Ano-Novo. Pouco importa a qualidade da panela, fazer uma família exige coragem, devoção e paciência. Não é para qualquer um. Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes, dá até vontade de desistir. Preferimos o desconforto do estômago vazio. Vêm a preguiça, a conhecida falta de imaginação sobre o que se vai comer e aquele fastio. Mas a vida – azeitona verde no palito – sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite. O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida. Fulana sai a mais inteligente de todas. Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade. Sicrano – quem diria? – solou, endureceu, murchou antes do tempo. Este, o mais gordo e generoso, farto, abundante. Aquele o que surpreendeu e foi morar longe. Ela, a mais apaixonada. A outra, a mais consistente.

E você? É, você mesmo, que me lê os pensamentos e veio aqui me fazer companhia. Como saiu no álbum de retratos? O mais prático e objetivo? A mais sentimental? A mais prestativa? O que nunca quis nada com o trabalho? Seja quem for, não fique aí reclamando do gênero ou do grau comparativo. Reúna essas tantas afinidades e antipatias que fazem parte da sua vida. Não há pressa. Eu espero. Já estão aí? Todas? Ótimo. Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados. Logo, logo, você também estará cheirando a alho e a cebola. Não se envergonhe se chorar. Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza.