Por Mariana Moreno
Com 88 anos, definidos por ele como dois infinitos em posição vertical, Antônio prepara um almoço para celebrar os 100 anos de casamento de seus pais. É na cozinha, na madrugada que antecede ao encontro, que ele resgata as memórias de toda a sua vida e as histórias da família, a maioria delas contadas por sua tia-avó Palma. O presente de casamento dela aos pais de Antônio, um pacote com o arroz despejado no cortejo aos noivos, é o fio condutor da trama e entrelaça dramas e alegrias de quatro gerações.
Romance de estreia de Francisco Azevedo, “O arroz de Palma” foi lançado pela Record em 2008 e se tornou um best-seller mundial, tendo sido publicado em 11 países além do Brasil. Em 2015, a editora preparou uma edição comemorativa em homenagem ao alcance da marca de 50.000 exemplares vendidos no país. A fórmula exitosa da história combina delicadeza e nostalgia para tratar de um tema que, com inúmeras particularidades, é caro a todos: a família.
O narrador-personagem visita várias fases de sua vida, de sobrinho-neto e ouvinte atento de tia Palma até o avô interessado nas novidades da última geração, apresentadas pelo neto Bernardo [“Se avô é pai com açúcar, neto é filho com proteínas, vitaminas e sais minerais”]. Ao percorrer um século na história de sua família, que veio de Portugal para o Brasil no início do século XX, Antônio versa também sobre as mudanças sociais e culturais do país, os anseios dos imigrantes e o retorno afetivo às raízes.
“O arroz de Palma” fala ainda sobre o envelhecimento, a perda do rigor físico e os voos da alma. [Tia Palma dizia que velho na horinha da morte conhece o máximo e o mínimo de si mesmo. É ao mesmo tempo elefante e louva-deus. É sequoia e flor-do-campo, oceano e poça de chuva, cordilheira e grão de sal].
Em momentos doces e amargos, o arroz de Palma está presente. Causador de inveja entre irmãos, motivo de peripécias entre as crianças, base de receitas para curar a saúde e abençoar relacionamentos. A conservação do alimento por décadas e décadas parece mágica, mas é simbolizada pelo amor, transmitido de Palma para toda a família.
Trecho
Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema – principalmente no Natal e no Ano-Novo. Pouco importa a qualidade da panela, fazer uma família exige coragem, devoção e paciência. Não é para qualquer um. Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes, dá até vontade de desistir. Preferimos o desconforto do estômago vazio. Vêm a preguiça, a conhecida falta de imaginação sobre o que se vai comer e aquele fastio. Mas a vida – azeitona verde no palito – sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite. O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida. Fulana sai a mais inteligente de todas. Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade. Sicrano – quem diria? – solou, endureceu, murchou antes do tempo. Este, o mais gordo e generoso, farto, abundante. Aquele o que surpreendeu e foi morar longe. Ela, a mais apaixonada. A outra, a mais consistente.
E você? É, você mesmo, que me lê os pensamentos e veio aqui me fazer companhia. Como saiu no álbum de retratos? O mais prático e objetivo? A mais sentimental? A mais prestativa? O que nunca quis nada com o trabalho? Seja quem for, não fique aí reclamando do gênero ou do grau comparativo. Reúna essas tantas afinidades e antipatias que fazem parte da sua vida. Não há pressa. Eu espero. Já estão aí? Todas? Ótimo. Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados. Logo, logo, você também estará cheirando a alho e a cebola. Não se envergonhe se chorar. Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza.