“As duas guerras de Vlado Herzog”, de Audálio Dantas

24/10/2015 3303 visualizações

Por Cláudia Lamego

 

Há 40 anos, o jornalista Vladimir Herzog, que comandava o jornalismo da TV Cultura e era responsável pelo telejornal “Hora da notícia”, se apresentou no DOI-CODI, órgão subordinado ao Exército, para prestar depoimento sobre suas supostas ligações com o Partido Comunista. Vlado, como era chamado pelos amigos, tinha sido procurado pelos agentes da repressão na véspera e se comprometeu a comparecer espontaneamente. Na carceragem paulista, o jornalista enfrentava a sua segunda guerra: quando criança, sua família foi perseguida pelos nazistas na Iugoslávia, teve seus bens expropriados e fugiu pela Europa. Nesta entrevista, o jornalista Audálio Dantas, autor de As duas guerras de Vlado Herzog – Da perseguição nazista na Europa à morte sob tortura no Brasil, fala sobre a dificuldade que foi escrever a obra, sendo ele parte dela, sobre o enfraquecimento nos sindicatos e os rumos da TV pública no Brasil.

Quarenta anos depois da morte, sob tortura, do jornalista Vladimir Herzog, o Brasil viu nascer a Comissão Nacional da Verdade, que ampliou o conhecimento de todos sobre esse período. No entanto, muitos personagens daquela época não foram julgados. Muitos casos também ainda permanecem obscuros. Você acredita, em meio à crise política que ora se instalou no país, insuflada por setores conservadores, que os arquivos ainda serão abertos? Ainda há esperanças de um reconhecimento oficial pelas tantas mortes e desaparecimentos?

A Comissão Nacional da Verdade foi um avanço, no sentido de que os crimes da ditadura, de muitos esquecidos ou ignorados, passaram a ser debatidos, levados ao conhecimento da sociedade. Muita gente, aliás, ignorava que o país vivera sob uma ditadura durante 21 anos.

Quanto à punição de torturadores ou dos que os sustentavam, a CNV, que veio tardiamente, não tem poderes para tanto. A CNV não tem esse poder e o governo que a criou não demonstrou nem demonstra que tenha interesse em tê-lo. Ainda no ano passado, ao responder à Corte Interamericana de Direitos Humanos, que pedia informações sobre as circunstâncias em que ocorreu a morte de Vladimir Herzog, nosso governo declarou estar impedido de fazê-lo pela lei da Anistia.

Na verdade, os sucessivos governos pós-queda da ditadura militar não tiveram a coragem de exigir dos militares a abertura de todos os arquivos.

Num momento em que grupos se atrevem a pedir a volta da ditadura militar, como a morte de Vlado e de tantos outros jornalistas, políticos e militantes, além da luta permanente por reconhecimento e justiça, pode servir de alerta e símbolo para que o arbítrio não se repita? Acha que a democracia corre algum risco no país?

Em 2013, quando milhões de pessoas foram às ruas, pretensamente a reclamar direitos, a Constituição de 1988 completava 25 anos, tendo como sua marca principal a garantia dos direitos dos cidadãos, a começar pela liberdade de expressão, ficou claro que a maioria desconhecia o que significara a luta pela conquista desses direitos. Não era de se estranhar, portanto, que desses “incertos cordões”, ainda hoje, participem os blocos dos que pedem a volta da ditadura militar.

O Sindicato dos Jornalistas de São Paulo foi uma importante trincheira na luta pela redemocratização do país. Como vê o papel dos sindicatos dos jornalistas em momento tão delicado de nossa profissão, em meio a demissões em massa e enfraquecimento político?

Não apenas os sindicatos de jornalistas, mas o sindicalismo como um todo passa por um momento de retração. A maioria deixa nas mãos das “centrais” o poder de negociar os direitos de seus associados. E não podemos ignorar que centrais sindicais estão nas mãos de negocistas como o Paulinho da Força.

A TV Cultura, lugar em que Vlado desejou fazer uma TV pública de qualidade e pela qual voltou ao país, mesmo em meio à ditadura que censurava e massacrava a liberdade de expressão, também enfrenta uma crise sem precedentes, com o encerramento de programas e demissão de funcionários. Qual o futuro desse tipo de jornalismo de interesse público no Brasil? Você vê saídas?

O fato é que ainda não temos no país uma verdadeira TV pública. A crise da Cultura, assim como a que atinge outras emissoras “educativas”, resulta do fato de que os governos que lhes destinam as verbas querem como troco espaço para a divulgação de assuntos de seu interesse.

Falando um pouco do livro, como foi o desafio de escrever uma história da qual você também é um dos personagens principais? Foi muito difícil escrever e relembrar de tudo, principalmente do amigo?

Estar no meio da história foi um fator que não só atrapalhou na escrita como na decisão de escrever o livro. Foi, de fato, um desafio que obrigou a fazer malabarismos para evitar, digamos, a minha intromissão na história. Mas nem sempre foi possível. Mas acho que consegui manter a devida distância.

Vlado enfrentou duas guerras: a fuga da Europa e a ditadura no Brasil, que covardemente o assassinou. Desde então, o mundo viu outros conflitos eclodirem, muitas pessoas continuam em diáspora e sofrendo os efeitos de deslocamentos forçados por guerras sem fim. Como manter a fé no que virá?

As cenas cada vez mais frequentes de multidões de refugiados buscando escapar da violência ou da miséria, expõem uma realidade sobre a qual devemos atentar. As medidas restritivas de vários países, principalmente da Europa, à entrada dessas levas de deslocados em seus territórios, podem levar uma crise humanitária de grandes proporções.

O pior é que em países como o nosso, que em outros tempos se abriram à entrada de imigrantes de todo o mundo, estejam hoje a imitar os europeus. Vimos isso, envergonhados, em recentes atos de hostilidade a imigrantes haitianos e, em outro sentido, nas reações racistas aos médicos cubanos.