“Até você saber quem é”, de Diogo Rosas G.

21/06/2016 4270 visualizações

Por Manoela Sawitzki 

 

Por trás da travessia de Daniel Hauptmann, protagonista do romance Até você saber quem é, há outra – a de seu autor, Diogo Rosas G., um diplomata curitibano que já viveu em outras seis cidades e cinco países, e mora hoje na cidade do Porto, em Portugal, conforme nos conta a orelha de seu romance de estreia.

O percurso do primeiro inclui um projeto de fuga de Curitiba e a obsessão por superar o livro Grande sertão: veredas naquilo que ele supostamente não enfrenta de forma definitiva: o demônio.  Já o caminho de Diogo abarcou o retorno ao lugar onde nasceu, ao livro que é para ele “uma catedral gótica em língua portuguesa”, e a experiência quase heroica de escrever o primeiro livro enquanto passava por duras provações em Washington.

 

Você nasceu em Curitiba, viveu em outras cidades e países, e retorna a ela agora de modo impactante neste romance de estreia. Como o sertão de Guimarães Rosa, ali Curitiba é mais do que um lugar, talvez algo como um poderoso campo gravitacional.  Pode falar um pouco sobre esse trânsito e sobre sua relação com essa cidade, essa Curitiba mítica?

A princípio, o romance tinha um subtítulo (“Travessias”), que acabou não entrando na versão final. O exílio, a peregrinação e o retorno à casa são temas que me assombram há muitos anos. Não que isso tenha algo de extraordinário, é claro. A literatura começou com uma grande travessia, com um homem tentando voltar para casa; é um assunto que tende a ser retrabalhado porque tende a se repetir. Mas uma simples viagem não é uma travessia, e voltar ao ponto de partida não é chegar a Ítaca. É preciso conferir significado a tudo isso. Se meus personagens voltassem só para uma cidade de concreto e asfalto – ou se apenas fugissem de uma – seria algo banal e sem sentido. Eles chegam e saem de um lugar encantado, assombrado por memórias e associações, feito de símbolos e linguagem. É nesse sentido que falo em uma “Curitiba mítica”.

 

Há a travessia do Liso do Sussuarão, de Riobaldo, a de Daniel Hauptmann, em seu romance (para além de Curitiba e de uma programação de vida digamos que esperada, e para além do Grande Sertão), e também a de Roberto, voz narrativa, autor do livro dentro do livro. E quanto à travessia da escrita de um primeiro romance, como foi fazê-la?

Escrever Até você saber quem é foi mesmo uma experiência e tanto. Quando comecei o romance, eu estava lotado na Embaixada do Brasil em Washington. Minha rotina era acordar às seis da manhã e trabalhar no livro até as sete e meia, hora de me preparar para levar crianças à escola. Washington fica numa região de extremos de temperatura e, por um problema técnico, o quarto onde eu escrevia não tinha calefação nem ar-condicionado. No inverno, eu me sentia um personagem do Conto de Natal de Charles Dickens; no verão, Gabriel Garcia Márquez em Cartagena. Bom, pelo menos isso era o que eu gostava de imaginar, para me distrair do texto que me frustrava. No meio do caminho, fui diagnosticado com câncer. Durante o tratamento não consegui escrever “fisicamente”, mas continuei compondo o livro na minha cabeça. Foi, aliás, quando o trabalho mais rendeu; o título é também dessa época. Para terminar, o inverno de 2013-2014 foi o mais rigoroso dos EUA em décadas e, ao escavar uma das muitas pilhas de neve que se acumularam na porta da minha casa, retirei a bacia do lugar, o que me causou dores lancinantes. Assim, no período final da redação, eu só podia ficar sentado por curtos e sofridos intervalos de tempo. Nesse sentido, sim, é possível falar em “travessia”, pois eu queria sair daquilo tudo, emergir do outro lado como uma pessoa diferente, e o romance completo terminou sendo o fio que uniu o “antes” e o “depois”.

 

E quanto à literatura e à escrita, como foi sua “iniciação” como leitor e escritor?

Li muito na infância, tive um período afastado dos livros na adolescência e voltei a eles no início da idade adulta. Tenho uma tendência melancólica e simplesmente estar perto de livros me faz bem; bibliotecas e livrarias me dão paz e estabilidade. Leio muito, sem método, e cheguei ao quarenta com todos os defeitos do autodidata. Há alguns autores que falam especialmente comigo, dentro de cujas obras vivi um bom tempo e me sinto bem lá: Dickens, Borges, Guimarães Rosa, Bruno Tolentino e, em menor medida, Conrad e Eça. Quanto à minha “iniciação” como escritor, é curioso você usar esse termo tão cheio de ressonâncias. Para mim, escrever foi a promessa de uma vida nova, depois da sensação de ter perdido o rumo na velha. Se a ideia era começar de novo, por que não fazê-lo com algo difícil, quase petulante, com algo para o qual eu nunca havia me sentido preparado? Pensando assim, a decisão de escrever um romance não foi tão complicada.

 

O livro fala muito sobre tradução, algo que você mesmo estudou. A questão dos limites e desafios que cercam qualquer trabalho tradutório sério ainda é bastante discutida. Há histórias muito curiosas, por exemplo, em torno das traduções dos textos de Guimarães Rosa. Enfim, não deve ter sido por acaso seu protagonista abandonar o percurso profissional desejado pela família para se dedicar a uma vida incerta como tradutor…

É curioso você mencionar o assunto, mas digo sem medo que os volumes de cartas de Guimarães Rosa a seus tradutores para o italiano e o alemão estão entre os livros que mais me marcaram na vida. Ali você tem a imagem de um verdadeiro escritor. O que me impressionou foi ver um sujeito com formação de médico de província expondo seus conhecimentos extraordinários de botânica, geografia, mística cristã, folclore e literatura clássica e utilizando essa erudição gigantesca para iluminar sua própria obra a fim de auxiliar o trabalho seus tradutores. É impossível exagerar o impacto que essas cartas tiveram sobre mim. De certa forma, Daniel, o meu protagonista, poderia ter seguido aquele caminho, mas algo aconteceu no meio da travessia. O rapaz que poderia ter sido Guimarães Rosa e que se perdeu lendo Grande Sertão: Veredas, eu nunca tinha pensado dessa forma, mas talvez essa seja uma leitura possível de Até você saber quem é.

 

Daniel torna-se escritor para escrever uma história definitiva sobre o demônio, superando assim o próprio Grande Sertão: Veredas – tido como obra seminal sobre o tema na literatura brasileira. O pacto faustiano está presente de muitas formas no seu livro. Qual sua ligação com esse tema? A via de acesso foi a filosofia?

Nesse ponto, sou forçado a concordar com o Daniel. O tema do pacto fáustico era mesmo pouco explorado na ficção brasileira. A minha via de acesso a ele não foi propriamente a filosofia, e sim um interesse por temas religiosos que me acompanha desde a infância. Sinto que isso é algo historicamente negligenciado em nossa ficção. De cabeça, só me lembro do romance “Dedo Negro com Unha”, do Daniel Pellizzari, construído em cima de temas da mitologia gnóstica da antiguidade tardia. Especificamente sobre o pacto fáustico e a questão do demônio, é curioso notar que em sua Correspondência com seu tradutor italiano, Guimarães Rosa diz ter ficado sabendo que um padre de São Paulo estaria escrevendo um trabalho sobre A demonologia na obra de Guimarães Rosa. Não me lembro se o texto chegou a ser finalizado – creio que o próprio Guimarães Rosa diz que não – mas eis aí um estudo que muito bem poderia ter sido assinado por Daniel Hauptmann, o meu protagonista.

De todo modo, havia um filão a ser explorado; como eu era um principiante, me pareceu um caminho natural a seguir.

 

Estrear com um livro que não apenas fala da gênese de um escritor de sucesso, mas também comenta e critica o próprio meio literário e inclui personagens reais. Como foi encarar os riscos dessa empreitada?

Entendo que o livro possa ser lido como “a gênese de um escritor de sucesso”, afinal, ele também é isso. Mas, desde o princípio, minha intenção foi apenas a de escrever a história de alguém que mata, de alguém que morre e de alguém que volta para casa. Num primeiro momento, não era preciso sequer que fossem pessoas diferentes a fazer isso. O resto veio por acréscimo, incluindo a utilização de personagens reais, que sempre me pareceu muito natural no contexto da narrativa.

 

A amizade entre Daniel e Roberto também me parece acontecer dentro de uma certa atmosfera pactual. É uma relação estranha, simbiótica. Você poderia falar mais sobre ela, sobre os laços que amarram esse dois personagens?

É difícil responder a essa pergunta, me parece que o leitor tem de encarar isso sozinho e chegar a suas próprias conclusões. Tudo o que posso dizer é que, de fato, trata-se de algo central no romance e que uma possível chave para a questão está nos próprios títulos dos livros, o meu e o do Roberto.

 

E quanto à sua ligação com o livro de Guimarães Rosa, que tanto impacta Até você saber quem é?

 Grande Sertão: Veredas é uma catedral gótica em língua portuguesa. Para escrever Até você saber quem é, li o romance várias vezes e a sensação é mesmo muito parecida com a de explorar uma catedral. Você entra para ver algo muito específico, começa a procurar, e, sem se dar conta, já está fascinado com outra coisa, tomando notas, observando diversos ângulos de algo que tinha lhe escapado por completo da primeira vez.

Trata-se de um monumento, e o diálogo que meu romance estabelece com ele utilizando os temas da “travessia” e do pacto com o demônio pode ser replicado de muitas outras maneiras, em outras obras. Nesse sentido, se o Grande Sertão fosse uma carcaça de cachalote atada ao casco do Pequod durante a noite, não seria preciso arpoar os tubarões que tentassem devorá-la. Mesmo após uma madrugada toda de trabalho dos animais famintos, haveria ainda carne e óleo suficientes na manhã seguinte.