Centenário Paulo Freire: o legado

19/09/2021 426 visualizações

Hoje, 19 de setembro, o Patrono da Educação Brasileira completaria 100 anos. O Centenário de Paulo Freire é um marco que faz ressurgir no país a urgência se discutir uma educação inclusiva, acessível e não opressora. Para celebrar o seu legado, a Editora Paz & Terra, que publica a obra do educador brasileiro, preparou uma série de eventos virtuais e lançou projetos especiais para valorizar a obra deste que é o intelectual brasileiro mais citado em estudos acadêmicos em todo o mundo. Ainda este ano, a Paz & Terra lançará vinte e seis títulos, entre inéditos, edições comemorativas e reedições com novo projeto gráfico reunidas em boxes temáticos. 

Além de colocar à disposição dos leitores a obra completa de Paulo Freire em seu centenário, a Paz & Terra realizou uma série de eventos virtuais gratuitos. Para isso, entra no ar um portal colaborativo (centenariopaulofreire.com.br) criado para reunir imagens, criações artísticas e todo tipo de homenagem ao Patrono da Educação Brasileira.

Atemporal, sua obra se faz necessária no Brasil de hoje, desde um retorno às bases de seus escritos e ideais, em defesa de uma pedagogia livre de amarras do capitalismo e que torne o sujeito independente em seu pensar e agir, a ensaios e diálogos sobre a educação no mundo. Todo este pensamento está condensado em seu livro mais célebre, a Pedagogia da autonomia. Uma edição especial desta obra-prima abre a coleção comemorativa ao lado da coletânea A palavra boniteza na leitura de mundo, que reúne textos inéditos de especialistas em sua obra.

Com pintura artística nas laterais e páginas-pôsteres destacáveis, a edição comemorativa de Pedagogia da autonomia confere um caráter pop a esta que foi a última obra lançada em vida por Paulo Freire, em 1996. A capa desta publicação de colecionador é ilustrada com uma criação do artista paraibano Shiko. Em seus 25 anos de publicação, a obra é constantemente resinificada diante dos acontecimentos político-sociais do país.

Os outros dois lançamentos previstos para o centenário trazem textos de grandes pensadores sobre a obra de Paulo Freire. A edição especial de Pedagogia do oprimido traz artigos das ativistas como Débora Diniz e Preta Ferreira, que foi transformada pela obra do educador durante o período em que permaneceu injustamente presa.

Já a coletânea Testamento da presença de Paulo Freire, o educador do Brasil, com prefácio do cardeal Michael Czerny S.J, porta-voz do Vaticano e análises de Noam Chomsky, Lula, Leonardo Boff, Mario Sergio Cortella, Ana Mae Barbosa, Celso Amorim, Fatima Bezerra e Flavio Dino. Em sua contribuição para o livro, Chomsky ressalta “as contribuições distintas e originais de Paulo Freire”:  

“Levando adiante a tradição, Freire condenava a ideia de que educandos são “receptáculos” a serem “preenchidos” por educadores. Freire ridicularizava essa abordagem dizendo que se tratava de uma “educação bancária”, baseada em “projetar uma ignorância absoluta sobre os outros”, sendo o conhecimento “um presente concedido” aos ignorantes por seus superiores — nas salas de aula, por educadores. Essa abordagem não apenas “nega a educação e o conhecimento como processos de busca”, como também estabelece uma hierarquia de autoridade: o instrutor sabe-tudo e o “receptáculo” vazio para dentro do qual a “dádiva” do conhecimento é despejada. Como Freire compreendeu profundamente e explicou, esse conceito de educação bancária “satisfaz aos interesses dos opressores: para estes, o fundamental não é o desnudamento do mundo, a sua transformação”. Essa preocupação com o contexto mais amplo da educação é a característica distintiva das extensas inovações de Freire”. 

Renovação da obra

Em parceria com a família de Freire, a Editora Paz & Terra iniciou o relançamento dos livros do pensador com novo projeto gráfico ainda em 2019, no momento em que grupos conservadores civis e políticos tentaram difamar o autor e tirar dele o título de Patrono da Educação brasileira, concedido pelo governo brasileiro em 2012. O projeto gráfico realizado pelo time do Grupo Editorial Record busca evidenciar o nome e a imagem de Paulo Freire, trazendo às capas sua assinatura e seu rosto. Um destaque mais que merecido àquele que deu sua voz aos oprimidos em luta por uma educação mais inclusive e libertadora.

 A vida e a obra de Paulo de Freire

Paulo Reglus Neves Freire nasceu na cidade de Recife, em Pernambuco, no dia 19 de setembro de 1921. Aos 22 anos ingressou na Universidade de Direito do Recife e, no ano seguinte, casou-se com Elza Maia Costa Oliveira, professora primária com quem teve cinco filhos. Após a morte de sua primeira esposa, o educador casou-se com Ana Maria Araújo Freire em 1986.

Trabalhando desde o início da sua carreira como professor de Língua Portuguesa, Freire iniciou, em 1947, o trabalho de alfabetização de jovens e adultos do Serviço Social da Indústria (Sesi), já exercendo o cargo de diretor do Departamento de Educação e Cultura da instituição. Na década seguinte, o educador participou de um congresso educacional na cidade do Rio de Janeiro e defendeu que a alfabetização de adultos precisava caminhar junto às tarefas do trabalhador. 

Em 1959, Paulo Freire tornou-se diretor do Departamento de Extensões Culturais da Universidade de Recife, onde alfabetizou um grande grupo de adultos pela primeira vez. A experiência foi o início do que viria a ser realizado anos mais tarde em Angicos.

Um ano antes do início da ditadura militar, em 1963, Paulo Freire coordenou um projeto que causou alvoroço nas classes conservadoras do país. Em Angicos, no interior do Rio Grande do Norte, o educador, junto a sua equipe, alfabetizou trezentos trabalhadores rurais em apenas quarenta horas. Esse foi o projeto-piloto do que seria o Programa Nacional de Alfabetização do governo de João Goulart, presidente que viria a ser deposto no golpe militar de março de 1964. Em outubro desse mesmo ano, Freire deixou o Brasil para proteger a própria vida e retornou apenas em 1979, com a abertura democrática.

De 1988 a 1991, o pedagogo foi secretário de Educação do município de São Paulo, durante a gestão de Luiza Erundina na prefeitura. Em 2012, a então presidente Dilma Rousseff sancionou a Lei nº 12.612, que reconheceu Paulo Freire como Patrono da Educação Brasileira.

O educador, que faleceu em 2 de maio de 1997, aos 76 anos, foi condecorado com 42 títulos de doutor honoris causa, além de títulos de professor emérito, distinguished educator e investigador emérito, de diversas universidades nacionais e estrangeiras, ganhador de inúmeros prêmios, como Educação para a Paz, da Unesco, e Ordem do Mérito Cultural, do governo brasileiro. Paulo Freire também integra o International Adult and Continuing Education Hall of Fame e o Reading Hall of Fame.

A obra de Paulo Freire, disponível em novo projeto gráfico, pode ser acessada aqui: https://centenariopaulofreire.com.br/