Clóvis de Barros Filho reflete sobre o desejo

12/06/2020 84 visualizações

Para celebrar o amor no Dia dos Namorados, o Grupo Editorial Record selecionou um título que reúne reflexões sobre o ímpeto humano por desejar. Em Desejo – Inclinações do corpo, conjecturas da alma (Ed. BestSeller), o autor Clóvis de Barros Filho traz uma leitura revigorante e necessária com consagrados autores de língua portuguesa, músicas populares e referências a séries e filmes blockbusters. De Carpinejar a Pessoa, de Belchior a Gil Vicente, de Chitãozinho e Xororó a Cecília Meireles, o vasto repertório permite o leitor se conectar com o tema.

Confira um trecho do livro abaixo:

“No desejo, temos lacunas. Carências. Vazios. E a mente nos brinda com mundos que poderiam preenchê-los. A pertinência da adequação entre esses mundos e a natureza específica das nossas carências depende do nosso conhecimento. Daquilo que sabemos a respeito do objeto do nosso desejo.

É aqui que surge a tendência a dar uma forçadinha. E construir esse objeto sob medida para o buraco que nos toca preencher. Acontece entre as pessoas que não enxergam direito defeitos impeditivos de uma convivência harmoniosa, destacando, apenas, as curvas que parecem encaixar no tabuleiro, ainda cheio de lacunas.

Às vezes, a vontade do encaixe é tamanha que nos forçamos à cegueira. A não ver o óbvio. A tal ponto de inverter os atributos da realidade que, na nossa mente, é desejada.

Sócrates diz, no Fédon, que, quando um corpo aprisiona a alma, o aprisionado é o primeiro a ajustar ainda mais os grilhões de seu aprisionamento. Assim, quanto mais intenso o desejo, mais forte a volúpia, maior a tendência a negar a realidade em nome de um ajuste conveniente.

O desejo intenso busca a eliminação da falta, custe o que custar. Mesmo que isso represente o total desalinhamento entre realidade e imaginação. A distância completa. A inversão absoluta entre o mundo e o que pensamos dele.

Assim, um vagabundo vira trabalhador. Ou estudioso. Um psicopata vira ingênuo, cândido e crédulo. Um ignorante vira erudito. Um gatuno vira astuto e inteligente. Um anão vira gigante. Um imbecil vira gênio. Tudo isso pode acontecer quando a vontade do encaixe beira o desespero. Quando o aperto aperta. E as opções alternativas desaparecem.”