Coleção Rubáiyát retorna em comemoração aos 90 anos da José Olympio

30/03/2022 609 visualizações

A coleção Rubáiyát retorna em comemoração aos 90 anos da José Olympio, a editora mais tradicional do Brasil. Por ocasião da efeméride, uma série de reedições comemorativas reconstroem projetos clássicos que marcaram o catálogo da Casa, contribuindo para a pluralidade do mercado editorial brasileiro.

 

O resgate dos títulos da coleção Rubáiyát restaura a estética das décadas de 30 e 40 em um mergulho histórico. Na época, a coleção agitou o mercado pela elegância e qualidade dos textos, e a proposta atual é retomar essa emoção pelo objeto-livro como um todo.

 

'O livro de Job'Capa de 'O vento da noite'Os arabescos e fontes foram redesenhados à mão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O nome da coleção surgiu como homenagem ao livro de Omar Caiam, poeta e autor do livro Rubaiyat, (em português, “quadras” ou “quartetos”), que conquistou fama e renovou o interesse dos leitores brasileiros pela cultura asiática e do Oriente Médio.

 

Para o êxito desse resgate, houve um esforço coletivo do editorial de pesquisa e buscas em sebos (locais em que livros antigos e/ou usados são vendidos) por exemplares da primeira edição de cada um dos títulos.  As raras edições foram localizadas após ampla procura e reconstituídas com esmero gráfico desde então – cuidado que vemos refletido nas reedições publicadas neste primeiro semestre de 2022.

 

As versões fac-símile exigiram minucioso trabalho de composição do miolo seguindo fielmente os projetos originais com recriação de capitulares, arabescos típicos da Rubáiyát e outros caprichos gráficos. Ou seja, os arabescos e fontes, que já não existem mais, precisaram ser redesenhados à mão. E toda a lombada recebeu uma atenção especial para corresponder às edições de outrora. A corriqueira tarefa de composição de miolo, que normalmente é feito em poucos dias, levou dois meses para ficar pronto por conta da quantidade de detalhes.

 

A pesquisa, o olhar para o projeto gráfico, a tipografia, a diagramação sofisticada, contaram com a habilidade editorial e artística de Daniel Pereira, e a execução teve à frente Santa Rosa, produtor gráfico da JO.

 

O livro de JobO vento da noite e A ronda das estações são as primeiras reedições, e fazem jus ao espírito da coleção por renuir o melhor da poesia em múltiplos contextos, abarcando temporalidades diversas e oferecendo a tradução primorosa de Lúcio Cardoso, autor de Crônica da casa assassinada, ganhador do prêmio Machado de Assis e tradutor de renomados títulos da JO, como os clássicos Ana Karenina, de Liev Tolstói, e Orgulho e Preconceito, de Jane Austen.

 

A primeira edição de O livro de Job e a versão fac-símile

O livro de Job, considerado por diversos teólogos como o primeiro registro bíblico, narra a história de Job tal qual poesia. O maior devoto de Jeová é torturado pelo próprio Satã para ter sua lealdade a Deus testada, num monólogo poético de angústia e fidelidade. Com tradução de Lúcio Cardoso e ilustrações de Alix de Fauterau, a obra traz a mesma estética do ano de sua publicação, 1943.

 

O vento da noite, da mesma autora de O morro dos ventos uivantes, reúne 33 poemas de Emily Brontë em uma seleção que mescla o lado romântico e o sombrio da poética brontiana. A edição possui capa, capitulares e ilustrações nos mesmos moldes gráficos de 1944, feitas por Santa Rosa, artista muito influente no cenário das ilustrações do mercado nacional do período.

 

A ronda das estações, escrito ainda no século V,  explora os prazeres eróticos e mundanos sob a perspectiva da natureza, relacionando as fases de uma paixão com as alternâncias de cada estação, nas formas com que o amor se reacende e se transforma. Acredita-se que o autor, considerado um dos principais escritores sânscritos da história, tenha escrito estes poemas durante sua juventude. O projeto apresenta a miniatura de P. Zenker, reproduzida, bem como as demais ilustrações e vinhetas, da excelente edição francesa de H. Piazza. Todo esmero remonta aos arabescos orientais, e são reconstituídos aos moldes manuais da época.

 

A imprensa especializada da época reconheceu a coleção como um marco do mercado editorial brasileiro, e saudou-a tanto pela qualidade de papel utilizado quanto pelo time de artistas e tradutores envolvidos no projeto. Foi fundamental para a JO se estabelecer como referência em termos de excelência editorial.

 

Agora, a iniciativa faz parte da lista de lançamentos vintage que celebram os 90 anos da histórica casa editorial. Além dos três livros da Rubáiyát, a JO também resgatou os projetos icônicos de Macunaíma, de Mário de Andrade, e Viagem, de Graciliano Ramos. Parte da celebração também inclui um olhar para o futuro com o lançamento de talentos nacionais como Francisco Mallmann, Marília Arnaud, Vanessa Passos e a coletânea de contos Dias de domingo.