Confira entrevista de Nélida Piñon à revista espanhola El Cultural

26/12/2019 225 visualizações

A revista El Cultural, uma publicação do jornal espanhol El Mundo, conversou com Nélida Piñon sobre sua trajetória e obra. A escritora, descendentes de espanhóis da região da Galícia, contou que, quando criança viveu na cidade interiorana de Pontevedra. Nesta entrevista, compartilha com o escritor Fernando Aramburu como a terra e a cultura de seus antepassados passam por sua literatura e fala sobre seu último livro, “Uma furtiva lágrima, que, segundo a escritora, “resume o banquete” de sua vida.

 

Confira aqui a íntegra da entrevista e leia abaixo alguns trechos:

Graças ao galego, entrei nos rios da língua portuguesa. Eu carrego no meu coração a gênese do português, que está ligada ao galego. Portanto, sem fantasias, eu defendo o universo imigrante. Como brasileira recente, que tira proveito de uma visão profunda de seu país sem renunciar à minha origem, tenho ao meu dispor uma memória universal: ser filha de imigrantes afiou minha estética e meu humanismo.

A literatura brasileira arrasta uma invisibilidade dramática. Desde sempre, sem interrupção, fomos excluídos dos banquetes internacionais que, a seu critério, governam a estética e distribuem bênçãos e consagrações. A baixa presença do Brasil no mundo não segue uma sequência sistemática, mas meu país não faz parte dos pactos vinculados ao cânone ocidental. Ao país atlântico é atribuída uma importância cultural reduzida.

Não construímos uma ponte suspensa simbólica entre o Brasil e a Europa sobre a qual viajar para apresentar nossas obras e nossos critérios estéticos. Não havia utilidade para o exemplo de hispano-americanos, que desde o século XIX ou mesmo antes, teciam uma malha extraordinária de acordos.

Eu professo estima e admiração por inúmeros colegas literários, porque minha história não é contada sem eles. Eu não cresço rancor, mesmo sendo severamente espancado. Salvei-me assumindo que o domínio da literatura é constituído pelo exaltado e pelo mal, e que sua origem vem de quem somos.

Quando sugiro que a beleza me excita, quero dizer meus sentimentos, que são privados, não públicos. Que eles estão sujeitos, portanto, às regras do meu ser profundo, da minha ideologia moral. E quando clamo pela liberdade de pensar, também abraço o feio, o escuro, o grotesco, tudo que inspira misericórdia e compreensão. Portanto, cabe a todos, dentro de seus muros, reformar o conceito canônico do que é belo.