Coronavírus e economia: Eduardo Moreira promove reflexão nas redes sociais

15/05/2020 170 visualizações

O economista Eduardo Moreira, que acaba de lançar “Economia do desejo: A farsa da tese neoliberal” (Ed. Civilização Brasileira), promove uma reflexão em vídeo publicado nas suas redes sociais: “E se a crise durasse por muito tempo?”.

O conteúdo, também disponível no Instagram da Editora Civilização Brasileira (@civilizacaobrasileira), pode ser conferido abaixo na íntegra:

“Às vezes eu fico pensando, “e se essa crise durasse mais muito tempo?”, mas muito tempo mesmo, muitos anos e todos tivessem que continuar confinados se desejassem não morrer pela doença COVID – 19

Ia ser curioso porque as pessoas mais ricas que a gente conhece, elas não teriam nada, não teriam sequer o que comer. Iam perceber que não produzem riqueza nenhuma, não produzem o que comem, não produzem a riqueza que acumularam, e toda aquela riqueza na qual elas estão sentadas em cima não adiantaria pra nada se não tivesse alguém que pudesse usar ela pra poder fazer mais riqueza, como fazem os trabalhadores. Aliás, para os trabalhadores ia ser muito ruim também, talvez até mais angustiante, porque eles sabem produzir a riqueza, mas não iam poder produzir e provavelmente também morreriam de fome.

Imagina que angustia ter conhecimento, ter habilidade, ter a capacidade de produzir aquilo que se precisa, mas não poder fazer porque o dono daquilo que inicia todo processo não é você. Eles iam descobrir o que é o capital e descobrir também que não têm nada desse capital. Aliás, os ricos iam parar de receber juros nos seus investimentos e iam descobrir de quê que são pago os juros. Iam descobrir que os juros são pagos com o trabalho daquelas pessoas que usam o seu capital. Iam descobrir que, na verdade, aqueles juros que ele recebe também fazem parte da forma como eles exploram aqueles trabalhadores que são quem sabem produzir a riqueza de verdade.

Agora, pra alguns grupos, talvez essa crise não fosse tão desesperadora assim, os indígenas continuariam tranquilos, tendo o que comer, tendo o que beber, tendo por onde andar, estando protegidos e livres. Os assentados da reforma agrária também não passariam fome, tem a sua criação, tem as suas verduras, os seus legumes, as suas frutas e não precisariam sequer sair do lugar onde moram para poder continuar vivendo uma vida feliz e saudável. Aliás, se tivéssemos hiperinflação, se tivéssemos qualquer tipo de mazela econômica, essas pessoas seguiriam vivendo uma vida em paz e saudável. Eles iriam descobrir que são livres, de verdade, economicamente, mas principalmente para escolher seu próprio caminho. Eles iam perceber que essa liberdade vem deles terem o conhecimento e a capacidade de produzir, e também o capital, aquilo que os mais ricos usam como uma moeda de barganha, de chantagem, pra fazer os trabalhadores gerarem toda aquela riqueza que eles acumulam nos seus cofres e mansões. Os acampados da reforma agrária, os membros do MST e de outros movimentos populares também iam estar tranquilos, tendo o que comer, sabendo plantar e sobrevivendo por quantos anos demorassem a crise.

Talvez, depois de muitos anos, nós vivêssemos algumas situações curiosas, como esses ricos indivíduos de hoje em dia, que tanto criticam movimentos como o MST, batendo na sua porta com máscaras, equipamentos de proteção, afinal de contas ainda estaríamos com a doença, pedindo um pouco de comida pra poder sobreviver, pedindo um pouco de riqueza, aquela mesma que eles não sabem gerar. Não, não seria bom essa crise durar por muito tempo, seria muito sofrimento, muita dor. Independente de quem a dor aflige, ela deve ser evitada, ela é ruim. Mas, que se essa crise durasse muito tempo todos teriam uma baita aula de economia… Ah, isso teriam!”