De Próprio Punho, por Nélida Piñon: “Não temo o futuro”

10/08/2020 485 visualizações

Não aceitei resignar-me, declarar-me vencida sem ter sido sequer atingida pela epidemia. Decidi, portanto, a partir do dia 12 de março, após a última sessão na Academia Brasileira de Letras, enfrentar a quarentena como se semelhante ocorrência fizesse parte da vida que não escolhera mas tocara-me viver. A partir desta deliberação, amparada em ditames éticos e religiosos, a reclusão absoluta se impôs, tornou-se a oportunidade de usufruir das chaves secretas de um cotidiano que traz consigo fantasia e revelações. Uma realidade cujos encantos ensejam sondar a própria alma que eu tivera até então.

Desde aquele decreto segui entregue ao término do romance, “Um dia chegarei a Sagres”, iniciado em 2018, em Lisboa, onde me instalei para escrevê-lo enquanto apurava meus saberes sobre o transcurso histórico de Portugal a partir do século XV. Ciente da necessidade de acentuar a minha sensibilidade narrativa com os primórdios sigilosos de uma língua que os meus personagens, na vigência do século XIX, terão falado em seus solilóquios. Confiante de certo que as verdades livrescas que eu propugnava adviriam dos monumentos, da paisagem, do que falava e guardava na memória ossos e carne do passado, de sua miséria e grandeza.

E assim foi. Com os originais prontos, retornei ao Brasil e avancei nas seguidas versões. Até que o advento da pandemia, com seus estigmas trágicos, cedeu-me um tempo propício para viver ou para morrer, e que ocupei para criar, para imergir na soberana arte da escrita. A debruçar longas jornadas sobre cada frase, na expectativa de encerrar aquela odisseia narrativa, a despeito das dores que me laceravam oriundas da realidade externa. Pois como distanciar-me das mortes, dos sofrimentos coletivos, da economia dilacerada, da humanidade em chamas ?

Encerrada em casa, não desci sequer ao playground do prédio, e nem pedi asilo ao elevador, que este cubículo me desse a ilusão de estar viajando, de um andar a outro. Meu lar era a imaginação que tinha à sua disposição o universo. E os próprios objetos em torno diziam-me porque ali estavam, convocando-me a dar-lhes destino após minha despedida, uma vez que não poderiam ficar sem dono.

Estes instantes que ora relato expressam discretos regozijos que nunca arrefeceram. Sobremaneira à chegada em casa das sacolas trazendo legumes, pão, queijos, embutidos, o que dava alento ao espirito e ao corpo. Eu preparava então pequenas mochilas a serem entregues a um casal querido, praticamente vizinho, e eles em troca regalava-me com suas iguarias. Também outros farnéis faço chegar aos amigos no afã de surpreendê-los. De que maneira proclamar meu amor pelo humano, além de me ocupar na prática com quem carece do básico?

Ao redor de mim nada parecia fraquejar. Como se fora combinado espelhava no dia a dia minha fé nas pautas civilizatórias.  Não registro nos meus sentimentos uma mínima estridência, talvez lágrimas secretas que no entanto não me desgovernam. Afinal há muito que prantear diante da miséria que assola o mundo.

Os pequenos prazeres, contudo, brotam de diversas fontes, em especial do pão sobre a mesa. Graças a eles louvo a vida a cada amanhecer. Estou serena. Embora estremeça diante das convulsões que ora perpassam a humanidade que jamais repousa. Mas conto com a presença de Suzy e Pilara Piñon, minhas amadas cachorrinhas. Alegres, elas enriquecem o sentido do lar, alardeiam dias e noites benfazejas. E a este convívio agrego a música que me acompanha desde a infância, dela jamais me aparto.

Não temo o futuro, o que há de advir. Por agora, após entregar meu novo livro à editora Record, aguardo sua publicação em outubro. Os editores Sonia Machado, Carlos Andreazza e eu, em gesto audaz, assumimos tempos amargos, mas confiamos na grandeza da literatura brasileira. Atados pela crença no porvir, daremos o bom combate paulino. Seremos certamente bafejados pela brisa da esperança. Amém, queridos leitores.