Destino: Paraty com Ana C., Cacaso, Leminski, Torquato e Waly

24/06/2016 38 visualizações

Por Cláudia Lamego

 

No ano em que Ana Cristina César é a homenageada da Festa Literária Internacional de Paraty, a José Olympio lança nova edição de “Destino: Poesia”, uma antologia que reúne obras da poeta e de outros quatro autores da chamada “Geração 70”, ou “Geração marginal”: Cacaso, Paulo Leminski, Torquato Neto e Waly Salomão. Organizado pelo professor Italo Moriconi, o livro é um convite ao leitor que quer conhecer ou revisitar cinco vozes, segundo ele, inauguradoras da poesia contemporânea brasileira.

Na apresentação da obra, Moriconi afirma que os cinco, que nos deixaram cedo, em épocas e por causas diversas, foram “discípulos, na literatura, do impacto produzido na cultura e no comportamento pelo advento do rock internacional e da MPB local”. Também se falou deles como “geração mimeógrafo”, pelo caráter artesanal dos livrinhos de poesia, populares na época, vendidos pelo próprio poeta em portas de cinemas, teatros, bares. Os cinco deram respostas vivenciais e estéticas a seu tempo, regido pela lei número 1 da loucura utópica: mais vale viver 100 anos em 10, que 10 anos em 100.

Apesar de terem reatualizado o mito do caráter aventureiro e arriscado, fatal ou trágico, de um “destino de poeta”, para Moriconi, Ana C., Cacaso, Leminski, Torquato e Salomão produziram menos uma poesia de angústia e sofrimento que de euforia e celebração, ironia e um certo desencanto.

“Na proposta de fusão entre poesia e vida, traço típico da geração 70, identificado já por sua primeira crítica e antologista, Heloísa Buarque de Hollanda, os cinco poetas aqui apresentados estiveram entre os que exploraram até o limite a inextricável e sempre misteriosa sinergia entre vida, criação e morte. Para o bem e para o mal. Deles e nosso. O bem é a poesia, presença perene. O mal é a saudade, ausência presente. Nos corações e mentes dos demais poetas e artistas surgidos nos anos 1970, ainda vivos e produtivos, chegando por agora à casa dos 60 anos de idade, Ana C.-Cacaso-Leminski-Torquato-Waly permanecem como referência. Seus versos acendem o clarão de nossa imagem da juventude fixada no tempo — efêmera, eterna”, escreve o professor.

“Destino poesia” chega às livrarias com nova capa, fac-símiles dos manuscritos, biografias, apresentação de Italo Moriconi e bibliografia. Selecionamos uma poesia de cada um dos autores. Leia esses trechos abaixo.

 

 

Ana Cristina César

 

NOITE CARIOCA

Diálogo de surdos, não: amistoso no frio. Atravanco na contramão. Suspiros no contrafluxo. Te apresento a mulher mais discreta do mundo: essa que não tem nenhum segredo.

 

 

Cacaso

 

LOGIAS E ANALOGIAS

 

No Brasil a medicina vai bem

mas o doente ainda vai mal.

Qual o segredo profundo

desta ciência original?

É banal: certamente

não é o paciente

que acumula capital.

 

 

Paulo Leminski

 

das coisas

que eu fiz a metro

todos saberão

quantos quilômetros

são

aquelas

em centímetros

sentimentos mínimos

ímpetos infinitos

não?

 

 

Torquato Neto

 

LET’S PLAY THAT

 

quando eu nasci

um anjo louco muito louco

veio ler a minha mão

não era um anjo barroco

era um anjo muito louco, torto

com asas de avião

eis que esse anjo me disse

apertando a minha mão

com um sorriso entre dentes

vai bicho desafinar

o coro dos contentes

vai bicho desafinar

o coro dos contentes

let’s play that

 

 

Waly Salomão

 

GRUMARI

Entra mar adentro

Deixa o marulho das ondas lhe envolver

Até apagar o blá-blá-blá humano.

Maré que puxa com força, hoje.

É a lua cheia, talvez…

As retinas correm a cadeia de montanhas que circunda a praia.