“Emagreci o texto do Kafka”, conta Schroeder, autor de Aranhas

9/03/2020 111 visualizações

As temporadas de férias em Garopaba nunca mais foram as mesmas para o escritor catarinense Carlos Henrique Schroeder depois que seus filhos nasceram. Com receio que pudessem ser picados pelas aranhas que costumavam aparece na casa de praia, Schroeder passou a monitorar o aracnídeo. O instinto paterno não tardou em se transformar numa obsessão, esmiuçada não apenas em seus aspectos biológicos como também artísticos. O autor encontrou referências nas artes – o francês Redon imortalizou espécimes assustadoras em duas gravuras – e Roland Barthes estabeleceu um paralelo entre o ofício do escritor e dos fascinantes artrópodes de oito patas. “Não seria o escritor “uma aranha que se dissolve ela mesma nas secreções construtivas de sua teia?”, questiona Schroeder, citando o semiólogo. Este emaranhado de referências e curiosidades sobre o universo que ronda o bicho deram origem a Aranhas (Ed. Record), livro que chega às livrarias em março.

Cada um dos 32 contos é batizado em homenagem a uma espécie diferente. Aranhas pequenas mereceram textos mais curtos, espécies maiores, narrativas mais elaboradas, como em Golias-comedora-de-pássaros. Esta tarântula, que pode superar os 30 centímetros, foi a escolhida para batizar o texto que recria A metamorfose, de Franz Kafka. Gregor Samsa acorda de sonhos inquietos metamorfoseado em aranha, em vez de barata. O livro, recomenda Schroeder, é para ser lido na ordem que foi estruturado, pois as histórias se conectam no final. “Escrevi mais de cem contos, ficaram 32, talvez não os 32 melhores, mas os que formaram a melhor teia narrativa. Existem aranhas pequenas e grandes, e contos pequenos e grandes. Algumas aranhas pequenas são bem venenosas, como a Marrom, e alguns contos pequenos também podem ser.  E assim como no romance, no conto, tamanho não é documento não”, argumenta o autor de Aranhas, que discorda que o conto seja um gênero menor.

Nesta terça (10), Schroeder promove noite de autógrafos em São Paulo, na Travessa de Pinheiros. Outros três lançamentos estão agendados para Santa Catarina em março. As datas podem ser conferidas aqui.

  • Seu novo livro de contos é inspirado no seu fascínio pelas aranhas. Como surgiu o interesse pelos aracnídeos?

Eu passava os verões numa pequena casa, rodeada por Mata Atlântica, em Garopaba, em Santa Catarina. E todos os dias me deparava com ao menos cinco aranhas, das grandes. Eu invadia o espaço delas, a mata, e elas estavam entrando em meu espaço. Em sua maioria eram as de jardim, tipo a Lobo, que não são agressivas, e que para você levar uma picada, sem gravidade, é preciso meter o dedo nelas. Mas também apareciam as da espécie Armadeira, que são bem agressivas, e sua picada tem ação neurotóxica e cardiotóxica. Resumindo: pode matar. Eu tremia de medo delas. Já me levantava com os olhos arregalados, procurando aranhas pela casa, pois meus filhos eram muito pequenos – hoje um tem 6 e o outro 10 anos – e precisava evitar acidentes.

  • O fascínio tornou-se, então, uma obsessão?

Sim. Comecei a estudar o comportamento e as espécies mais comuns e, quando percebi, estava vendo algumas representações artísticas na literatura, artes visuais, no cinema, e já estava escrevendo histórias inspiradas na aparência, no comportamento delas, colocando como personagens ou alterando clássicos da literatura – em um dos meus contos, Gregor Samsa acorda como uma aranha e não como uma barata. Acredito que um escritor deve ser fiel às suas obsessões. A obsessão de Borges com a mitologia, por exemplo, é claramente refletida em seus contos. Assim como o sentido de deslocamento da família tradicional americana, nos contos de Lucia Berlin. E, como já escreveu o escritor catalão Enrique Vila-Matas: “Não há melhor forma de se livrar de uma obsessão do que escrever sobre ela”.

  • Nota-se que você pesquisou sobre as aranhas. Quais das descobertas sobre as aranhas mais te surpreendeu?

Fiquei surpreso com a imensa quantidade de espécies de Aranhas, são muitas, milhares, e com características muito próprias. Uma que me surpreendeu e até usei no conto “Saltadora”, é sobre uma aranha-saltadora do leste da África, conhecida como aranha vampira. A espécie prefere se alimentar dos mosquitos Anopheles fêmeas, mas apenas de espécimes que tenham se alimentado recentemente do sangue de mamíferos e outros vertebrados. Ou seja, só caça as gordinhas, com a pança cheia de sangue. O mais curioso é o motivo: as pesquisas descobriram que o sangue daqueles mosquitos é afrodisíaco para essas aranhas.

  • Em “Saltadora”, você aborda uma relação lésbica num colégio católico. Há neste caso uma relação entre as características desta espécie com a trama?

A família das aranhas saltadoras (Salticidae) tem mais de 5.000 espécies, mas todas conseguem seu alimento saltando sobre sua presa. Elas podem saltar até 20 vezes a sua altura e 50 vezes o seu comprimento, e algumas comem outras aranhas. Depois de um corte na mão, a professora Ana começa a sofrer alguns assédios, com algumas pessoas saltando sobre sua mão, sobre seu corpo. São vários paralelos, não apenas nesse texto, mas em todos, por isso é um livro-jogo, com múltiplas interpretações e camadas, algumas mais visíveis, outras nem tanto.

  • Você teve a intenção de fazer um paralelo entre os ofícios das aranhas de tramar suas teias e dos contistas, que também conjecturam sobre suas tramas? Por que?

Não seria o escritor “uma aranha que se dissolve ela mesma nas secreções construtivas de sua teia”? Os parênteses são de “O prazer do texto”, do Barthes. Os escritores fazem teias diárias, como as aranhas, mas as nossas são narrativas, e muitas delas não vão para o papel, são derrubadas pelo vento, ou pela realidade.

  • Você tem outros dois livros publicados pela Record que são romances, que exigem uma estrutura narrativa mais elaborada. Em Aranhas, há contos de apenas um parágrafo. Qual é o desafio no caso dos textos mais curtos?

Este é um livro de contos. Não uma antologia, não uma reunião. Cada conto ali tem uma razão de estar, e naquele lugar, e naquela ordem, e todos eles acabam se conectando no final, lá no penúltimo conto, o da Armadeira. Ou seja, é uma grande teia, onde o leitor vai se defrontar com uma aranha, com o fim. Tem muito mais trabalho ali que em muitos dos romances que saem por aí, tem muita pesquisa, muita edição, montagem estrutural.

Escrevi mais de cem contos, ficaram 32, talvez não os 32 melhores, mas os que formaram a melhor teia narrativa.

Existem aranhas pequenas e grandes, e contos pequenos e grandes. Algumas aranhas pequenas são bem venenosas, como a Marrom, e alguns contos pequenos também podem ser.  E assim como no romance, no conto, tamanho não é documento não.

  • Você discorda , então, que seja um gênero menor?

Discordo totalmente. Erroneamente muita gente acha o conto um gênero menor, até amigos meus: “De contos, é?!”, me disseram. Romances são mais fáceis de etiquetar, rotular, é um produto muito mais fácil de vender pela editora. Mais fácil de resenhar, ganha mais espaço nas livrarias, nos jornais. Mas uma coisa é o mercado, outro a escritura, e embora tudo se abarque diante da palavra literatura, há caminhos e caminhos, e eu sigo o meu.

  • O conto inspirado em A metamorfose, de Kafka, é dedicado ao escritor argentino Pablo Katchadjian, que enfrentou uma acusação de plágio. “O Aleph engordado” me parece muito mais um exercício de criatividade do que um plágio, como os herdeiros de Jorge Luís Borges insinuaram. A dedicatória é de alguma maneira um protesto em favor da liberdade criativa?

Em “O método Albertine”, a Anne Carson se apropria da Albertine do Proust, da teoria em cima do livro, de tudo, e faz a sua história. Nem por isso alguém a processou.

O escritor argentino Pablo Katchadjian engordou “O Aleph” do Borges e foi parar na justiça, por conservadorismo da Kodama, a viúva. Eu emagreci o texto do Kafka, já que aranhas são mais fáceis de matar do que baratas.

Mas muita coisa ali é do Kafka, o encadeamento, a sequência. É Kafka. E não é. A dedicatória é um aceno amistoso ao Katchadjian, é um “tamojunto”.

  • Neste texto para Pablo Katchadjian, em vez de Gregor Samsa se metamorfosear em barata, ele vira uma aranha. Como foi imaginar-se no corpo de uma para criar o conto?

Foi assustador. Principalmente na hora de sair da cama, de se locomover. Hoje tenho uma pena enorme das aranhas, olha para elas com compaixão. Tudo que elas querem é matar, comer e se reproduzir. E são eficientes e felizes nisso. São práticas, como grande parte dos personagens do livro. Já nós, os humanos, fracassamos em quase tudo, tudo mesmo.

  • Você é praticamente homônimo ao diretor da TV Globo. Já viveu algum episódio curioso em função desta semelhança?

Vários. Uma vez fui dar uma palestra em Criciúma e a sala estava cheia de estudantes de jornalismo, uns duzentos, que foram ver o diretor da Globo mas encontraram o escritor catarinense, para sua imensa decepção. Foi uma confusão da universidade e da comunicação. Morri de vergonha.

E todas as semanas recebo pedidos nas redes sociais, por uma chance na Globo, no Faustão, ou um teste para uma novela.