“Enigmas da Primavera”, de João Almino

17/10/2015 7 visualizações

Desde que estreou na ficção, em 1987, com Ideias para onde passar o fim do mundo, o potiguar João Almino tem chamado a atenção da crítica pelo estilo inovador e envolvente que imprime à sua obra. Os romances que produziu compõem o chamado “Quinteto de Brasília”: histórias nas quais a capital federal é não apenas cenário, mas também “laboratório de experiências linguísticas, políticas e existenciais”, como afirma João Cezar de Castro Rocha no prefácio da obra.

Enigmas da primavera também transcorre, em parte, na cidade planejada. Mas, desta vez, o leitor segue também por Madri e Granada, e ainda pelas fábulas e histórias do mundo árabe, no encalço de Majnun, o protagonista do romance. Instável e romântico, contraditório e imprevisível, ele encarna as idiossincrasias de nosso tempo. Majnun é um jovem enfadado com seu cotidiano, que busca preencher seu vazio nas redes sociais. Tem todo um futuro pela frente, que em vez de alimentar sua utopia, o faz mergulhar inicialmente num pensamento antiutópico, já que flerta com a volta a um passado que nunca vivenciou”, diz o autor.

João Almino, assim, consolida algo raro entre os ficcionistas: encara a atualidade, enquanto aborda a sensação de vazio, as tentações da tirania, a intolerância. A Primavera Árabe e os protestos de julho de 2013, os indignados europeus e os arroubos do fundamentalismo islâmico se enovelam numa trama densa e sedutora, que lança luz ao estilo singular deste diplomata e escritor, vencedor de prêmios como o Casa de las Américas 2003 e o Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura 2011.

Leia o trecho abaixo e o prefácio escrito pelo professor João Cezar de Castro Rocha:

TRECHO

“Nunca Majnun havia se sentido tão livre. Livre para imaginar, imaginar‑se viajando com Laila pelo mundo. Esta era sua versão da liberdade. Viajava pelo mundo sem dele conhecer nada, além de São Paulo e do Planalto Central. O mundo era o que lia nos livros de História e sobretudo o que via pela internet. De cidade em cidade, de país em país, presenciava atrocidades: crimes, violência, miséria, fome, desastres ambientais…

De uma hora para a outra não sabia onde estava, em que cidade, em que país. Estava num hospital ou num asilo? Que língua falavam a seu redor? Como um bêbado. Um drogado. Como quando afirmava não ser brasileiro e sim um egípcio chamado Ibrahim bin Ayyub. Então sua avó Elvira ameaçava leva-lo ao médico.

Preso à sua cadeira, sentia‑se livre para imaginar; para mentir. Como as passagens eram gratuitas, sempre viajava com conforto e rapidez, sem turbulências, atrasos ou cancelamentos. Ia de um continente a outro em companhia de Laila numa fração de segundo. Mas tinha de reconhecer, estava preso àquele lugar, àquele quarto, àquela cadeira e àquele computador.

Naquela madrugada, diante da tela do computador que iluminava seu rosto, ninguém se interessava por suas aventuras por terras estranhas. Ninguém, a não ser Ava Gardner, que queria encontra‑lo. Mas quem seria Ava Gardner, além da atriz já morta que desviava sua atenção de Laila e de suas reflexões sobre o futuro? Viveria em algum lugar com Laila? Teria algum dia uma profissão? O computador lhe fazia companhia. Sua paixão pela História o salvava. Mas, reconhecia, não era nenhum gênio e tinha problemas de concentração. De outra forma, como explicar que quase tivera de repetir ano na escola e não conseguira passar nas provas medíocres do vestibular? Talvez tivesse sido para seu bem. Se passasse, que futuro o aguardaria? Não seria o seu êxito, mas o seu fracasso, que encheria sua bagagem de informações e experiência e o levaria, passado o período de indefinição, a participar de grandes acontecimentos. A caminhar para seu grande destino. Seria esperar demais do futuro?

Seu fracasso não era apenas seu, pensava então; era também de um tempo agitado e sem rumo. Se os objetivos e esperanças da época em que vivia estavam em falta, era preciso fazer um gesto heroico: com independência e ousadia, enfrentar o vazio, construir o passado e o futuro. Sim, o passado também. Isso ele poderia fazer escrevendo a novela. Claro, sua vida estaria incompleta sem um trabalho. Mas qualquer trabalho? Sacrifício feito em troca da sobrevivência? Não conseguia imaginar um emprego que não o desviasse de seus desejos e interesses, que não o alienasse do que lhe era caro, que não exaurisse suas energias criativas. Melhor o ócio, luxo de um tempo sem relógios.

Definitivamente não estava acostumado à disciplina. Na escola, quando lhe pediam para resolver um problema ou analisar uma questão, perdia‑se em desvios e divagações, embora ninguém o superasse quando se tratava de inventar ou, nas palavras dos detratores, de mentir. Devia ter feito o serviço militar, mas um médico amigo de seu avô Dario, sabendo de seus planos de se preparar em São Paulo para o vestibular de História na Universidade de Campinas, conseguiu inclui‑lo no excesso de contingente.

Sua cabeça, girando sem parar como o furacão de Saturno, encheu‑se mais ainda de fantasia, de pensamentos soltos, de histórias lidas e imaginadas.

No fundo, era capaz de construir um mundo novo e de restabelecer tal qual o passado mais longínquo, mesmo que desconhecido, o que podia leva‑lo ao mais revolucionário ou reacionário. Via‑se como um radical, destruidor ou inventor, disposto a restabelecer ou romper com as tradições. Seria, quem sabe, um homem de ação como seu avô Dario. Militante político? Não como nos tempos de seus avós. Não havia mais ditadura contra a qual lutar, e não era suficiente juntar‑se à mediocridade, agregar uma pequena peça na engrenagem, corrigir uma injustiça aqui e outra ali, fazer trabalho de formiguinha, tapar um buraco, consertar um defeito. Sua avó Elvira fazia projetos para prefeituras. Mas ele nunca conseguiria ser prático. Poderia, sim, pintar, como sua outra avó, Mona. Mas com que resultado, se não tinha talento?

Por enquanto nos seus olhos negros o futuro não brilhava. Aos vinte anos, ele era uma tela em branco.”

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