“Fernando Pessoa – O cavaleiro de nada”, de Elisa Lucinda

17/03/2016 262 visualizações

Elisa Lucinda, nascida em Vitória, no Espírito Santo, leu um poema de Fernando Pessoa pela primeira vez na adolescência. Mais tarde, ela também se tornaria poeta. Além de atriz, jornalista e cantora. Uma artista múltipla. Aos poucos, a relação com esse português, que também se multiplicou em heterônimos, se estreitou e aprofundou. Ela o levou para o palco, e passou a sentir que o habitava. Em seu primeiro romance, Lucinda revelou-se também uma prosadora de fôlego. Para escrever Fernando Pessoa – O Cavaleiro de Nada, uma autobiografia ficcional, mergulhou na vida e na obra deste personagem complexo e brilhante, uma das vozes mais pungentes da língua portuguesa, outra vez como quem o habita. Como disse o escritor Mia Couto,“Ela não traduziu o poeta. Ela traduziu-se nele”. Nesta quinta, às 20h, Elisa participa de um bate-papo no Sesc Santana dentro do projeto De|Generadas, e depois autografa exemplares do romance para o público.

 

Como foi o seu primeiro encontro com Fernando Pessoa?

 Aos treze, quatorze anos, conheci o Poema em linha reta do Álvaro de Campos, que me foi apresentado pela minha queridíssima professora de declamação Maria Filina, que já me tinha iniciado uns dois anos antes em José Régio, com seu famoso poema Cântico Negro, e como amigo e contemporâneo do Fernando Pessoa. Eu era muito menina, muita coisa não entendia, mas aquela revolta, aquela subversão do Álvaro já me atraía muitíssimo.

Em 2009 você estreou o espetáculo A Natureza do olhar, baseado nas Notas para a recordação de meu Mestre Caeiro, texto de Pessoa ainda inédito no Brasil. Há alguma relação entre esse trabalho e a gênese de Fernando Pessoa – O Cavaleiro do Nada

Diria que emocionalmente e indiretamente sim. Eu e Geovana Pires, minha sócia na Casa Poema e parceira de elenco e criação na Companhia da Outra, quando voltamos de Portugal, onde ela achou o texto que nos inspirou a montá-lo, a gente ainda não tinha vivenciado essa viagem única que um poeta/dramaturgo tenha feito, ou seja, uma discussão real dessas vozes que todos trazemos na alma. A Natureza do Olhar é isso, dois homens que não existem senão na cabeça do mesmo homem. O palco da Natureza do Olhar, ou seja, a conversa entre  Álvaro de Campos e Alberto Caeiro, se não fosse genial como é, seria facilmente considerada loucura. Isso nos lançou pra uma região de muita intimidade com aquela inquietude, aquela perturbação existencial tão produtiva. Me senti dentro dele. Tudo que eu conhecia da poesia dele ganhou uma densa intimidade naquele ambiente que passamos a frequentar como num teatro dentro da alma dele. Mas até aí eu nem imaginava que iria escrever alguma coisa como o Cavaleiro de Nada. Isso talvez já estivesse na estrada do destino mas ainda não mostrara a sua cauda. Foi então que Pedro Almeida, meu amigo e editor, me sugeriu que escrevesse sobre Fernando Pessoa, uma biografia do homem, para crianças, mais ou menos de 100 páginas e o projeto acabou naturalmente por se transformar em um livro para adultos de 416  páginas. Eu nunca havia feito uma biografia e essa inocência, essa inexperiência, me levaram a  fazer escolhas ousadas sem que eu soubesse, e a andar na beira de abismos sem saber que era perigo.

Mia Couto, que apresenta o livro, e muitos outros, além do próprio Fernando Pessoa (em poemas, cartas e textos íntimos), já defenderam que o poeta foi mais efetivo na escrita do que na vida, que esteve mais nos poemas e em tudo o que escreveu do que no mundo. No entanto, ele passou parte da infância na África, escreveu textos críticos e polêmicos em jornais, foi boêmio, o principal agitador do Primeiro Modernismo português ao lado de Mário de Sá-Carneiro, teve uma relação profunda com ciências ocultas, há toda uma polêmica em torno do seu celibato… Não se pode dizer que Pessoa teve uma vida exterior e socialmente inócua, certo? Gostaria de saber como você vê o cruzamento entre a persona pública e a persona íntima do poeta.

Fernando era um deslocado do seu tempo e pouquíssimos de seus contemporâneos alcançavam aquela vanguarda dele. A força lírica e rítmica em versos brancos, ou seja, sem rimas, a intersecção indissociável entre a filosofia e a literatura, sua iniciação na literatura universal tendo sido feita pelos ingleses e tendo como maestro Shakespeare, isso tudo deu ao nosso homem uma peculiaridade que nunca se tinha visto antes e nunca mais, até agora, se tornaria a ver num poeta. Acrescente-se a isso as intenções de sua sexualidade, o possível celibato, sua amizade íntima com artistas homossexuais, sua boemia, sua inteligência, seu humor, seu gosto pelas piadas, seu interesse romântico e não erótico pelas mulheres. Tudo isso junto num homem só fez dele um incatalogável. Dessa aparente intempérie, F.P fez uma grande limonada. Entendia que deveria trabalhar em escritórios comerciais tendo apenas como exigência a permissão de ter a chave dos estabelecimentos, a fim de que ele tivesse a liberdade de fazer o próprio horário para que ele pudesse finalizar sua obra literária. Pode parecer pretensioso isso da parte dele, mas ele sabia que era um gênio. Acreditava nisso. E em nome disso se dispôs a concentrar sua vida na palavra escrita. Diante disso, nada, absolutamente nada poderia se atrever a intrometer-se no tempo destinado à sua obra. Ophélia, por exemplo,  sua única namorada conhecida, esforçou-se (inutilmente) para  compreender porque o homem que ela amava preferia estar mais com a poesia dele do que com ela. Por que interrompia encontros entre os dois para ir para casa escrever como se fosse um homem que tivesse uma amante? Felizmente, todo um grande circo, tudo que acontecia sob a lona do seu coração ele nos deu na vastíssima obra que nos deixou escrita. Felizmente, o que parentes e até ele próprio chamava de inércia transformou-se num tesouro mundial da língua portuguesa. Há um verso dele que diz: escrever é a minha incompetência para agir.

Nesse romance você se ocupou de eventos mais ou menos conhecidos da biografia do poeta, mas também e sobretudo do que poderia ter sido sua agitada vida interior. Como se processou essa investigação e como foi o processo para chegar a tal interioridade e encontrar em si a voz de Fernando Pessoa?

Aconteceu uma coisa deliciosamente surpreendente: quando li os primeiros dados da biografia dele, que havia nascido entre um teatro e uma igreja, pensei imediatamente que ele escutou um culto e os ruídos que vêm de um teatro com seus ensaios e atores, antes de vê-los. E aí, de posse dessa informação, fui dormir pensando na cabecinha dele, tão imaginativa, escutando aqueles sons, o pai crítico de ópera daquele teatro a ouvir música, espalhando aquela dramaticidade barroca das árias na infância do menino. De repente já quase dormindo mesmo, largando a mão da mão da vigília, veio na minha cabeça, como se meu computador neural  tivesse entendido que era uma ordem buscar alguma coisa que ele tivesse escrito sobre o tema, vieram então na minha cabeça fragmentos da Chuva Oblíqua, um poema em que ele descreve o teatro como seu próprio quintal, com o maestro sacudindo a batuta, e do outro lado, descreve a voz do padre se misturando ao som da chuva e ao som do carro que passa na pista molhada da rua. Aí eu pensei: caramba, provavelmente isso acontecerá muitas vezes durante o processo. Ou seja, há uma grande possibilidade de despontarem insights, lembranças de tantos poemas e prosas que li dele, que ensinei, que aprendi, que declamei, que vivi no teatro. Pensei: é muito provável que da contextualização biográfica surjam esses disparos, esses links com a obra dele e, obviamente  eu saquei que teria ali o testemunho do próprio “biografado” que, em seus escritos falou de si mesmo com mais propriedade do que jamais ninguém o faria. Como gostaria de citar esses disparos, caso acontecessem e como sei que a maioria daquilo que escreve é confessional e escrita em primeira pessoa, decidi escrever Pessoa na primeira pessoa. Para tanto, fui estudando a vida dele, os insights se multiplicando na minha cabeça e escrever a biografia foi ficando muito parecido com o lembrar da história dele como se eu estivesse lembrando das minhas. Como se as minhas próprias eu estivesse acessando. Foi uma doideira, um passeio por um pântano fascinante, profundo e divertido, creia-me.

Pode falar um pouco mais sobre essa uma fusão, a costura entre a sua escrita e a do Pessoa no livro?

Escrevi inocentemente, com muita vontade de estar à altura daquele feitio sofisticado e surpreendente dele, e exigindo de mim que não houvesse um baque na qualidade quando saísse da palavra dele para a minha. Esse era o meu desafio, mas felizmente o que me deu tranquilidade para exercer tal ousadia, sem ficar insegura ou coisa e tal, foi que eu viajei nele como um personagem que eu tivesse que adivinhar e aprender mais ou menos a pensar daquele jeito. A coisa então foi tomando um corpo que, nesses três anos dedicados a essa obra, tudo que vinha da minha alma, do meu espírito, da minha inspiração, até mesmo poemas totalmente da  minha particularidade, desviavam o caminho para irem servir a este romance. Foi incrível… Há um capítulo que eu comecei escrevendo um poema meu para mim: Solidão escrevo num domingo… mas imediatamente pensei: “não, eu não vou fazer poema nada. Eu vou começar o próximo capítulo assim. Aliás, esse poema não é meu, essas palavras são do livro.” E isso não parou mais de rolar.

Seu romance é todo narrado em primeira pessoa, configurando-se como uma autobiografia fictícia, embora sempre relacionada a fatos-motores reais. Por que a opção de assumir, investir nesse Eu e nesse gênero especificamente? O que a conduziu por esse caminho?

Foi sem querer. Na hora nem pensei que isso resultaria numa autobiografia fictícia. O que aconteceu é que quando me deparei com os fatos motores, estes foram acendendo em mim a memória de muito do que eu tinha lido da obra dele e muito de sua obra, heteronímica ou não, é feita em primeira pessoa. Veio-me então a ideia de usar esses insights como parte da narrativa daquela vida já que o homem com maestria insuperável contou sua saga existencial. Para então que ao costurar minha escrita com a dele não houvesse distância de mudança de narrador optei por contar deste lugar seguro: de dentro da alma do poeta. Foi melhor pra mim e espero que o público viaje nessa.  Sonhei-me a mim como se Pessoa eu fosse. Acho que é uma viagem que o ator faz com tranquilidade. E o romancista também. Me sinto confortável pela escolha.

O que mais lhe surpreende e instiga na biografia e na escrita desse homem?

A primeira coisa espantosa é a invenção dos heterônimos. Cada um com sua obra, nome, mapa astral, signo, parentes. Álvaro de Campos descreve o encontro dele com os irmãos de Caeiro. Meu Deus, não fosse isso literatura, qualquer psiquiatra chamaria de delírio! E tem mais, o cara conseguiu, à medida que sua obra foi ficando conhecida, infelizmente postumamente, arrebanhar fãs que se declaram amantes deste ou daquele heterônimo, defendem-nos ferrenhamente e disputam a supremacia de um sobre o outro. Você já deve ter ouvido alguém dizer: “não gosto de Ricardo Reis, quem eu amo é o Álvaro”. Houve, inclusive, inúmeras situações em que seus heterônimos conseguiam ser mais brilhantes do que a própria obra de Fernando Pessoa ele mesmo, não fosse os outros ele também. Parece papo de maluco, né? Ao meu ver, a única bandeira, um pequeno escorregão, talvez tenha sido o fato, de o ponto comum entre todos os heterônimos é que nenhum deles é casado. Ninguém tem mulher, filhos, tal qual o seu autor. De resto, a calma zen de Alberto Caeiro não tem nada a ver com a personalidade perturbada e nostálgica de Fernando Pessoa, que por sua vez difere totalmente da revolução desestabilizadora de Álvaro de Campos, que por sua vez se opõe ao classicismo pagão de Ricardo Reis. Na peça A Natureza do Olhar, há uma cena em que o Álvaro e Caeiro falam mal do Fernando Pessoa. É incrível! A invenção destes autores para mim vem confirmar sua genialidade, sua superioridade como poeta, e acende ainda mais o mistério atraente que envolve seu trabalho.

Também na apresentação do romance, Mia Couto aproxima o ação do escritor de assumir a voz de uma personagem ao trabalho do ator. “Ela não traduziu o poeta. Ela traduziu-se nele”, ele diz. De que maneiras, na sua experiência, esses dois ofícios, atuar e escrever se aproximam e distanciam?

Neste caso, eles foram complementares. Mia Couto intitulou o prefácio de Vestir-se de Outra Alma, e acho que assim traduziu bem o que aconteceu. Vivi dentro o personagem, minha alma ficou habitada do Fernando Pessoa, eu dormi entre seus livros, visitei sua terra duas vezes nesse tempo, fui na sua casa, li sobre os seus amigos, reli, escarafunchei sua obra, e devorei o que os livros diziam sobre. Ou seja, fiz o exercício que faço no teatro ou no cinema ou na televisão quando tenho que emprestar-me a uma outra personalidade. Vesti minha alma desse homem e fui recebendo a colaboração de muitos amigos me oferecendo obras, curiosidades, fotos, documentos. Tive muitas vezes a impressão de que ele  realmente deixou o teatro da vida dele armado dentro da própria obra. E escrever relacionando esta obra aos fatos e as circunstâncias de sua vida foi como matar essa charada. Eu farejava isso, encontrava as pontas do jogo, do tear. Um dia dei de cara com esta frase que dizia mais ou menos assim: “estou a armar este diário…” e comecei a chorar. Chorei pela certeza do caminho.

O desafio de viajar pela identidade de uma das vozes mais importantes da língua portuguesa, em algum momento pareceu arriscado demais? A expectativa em torno de um personagem como Pessoa é sempre muito grande…

Acho que aquele verso do Leminski virou meu anjo da guarda sem que eu soubesse, ou seja, eu, “não sabendo que era impossível, fui lá e fiz”. Só me dei conta do que tinha feito, e que vaidades ele poderia provocar em tantos estudiosos que dedicam sua vida a estudá-lo, quando terminei o livro. Pensei: “ih, os especialistas vão querer me matar.” Mas aí não havia mais perigo, o pior já tinha passado. E depois, não pretendi fazer um tratado da vida dele, e ainda tive a sorte de ter um mentor, um orientador, um conselheiro da melhor qualidade. O jovem Juliano Gomes, meu filho, que ao ver a minha angústia em não esquecer algo importante, em terminar o livro o mais completo que eu pudesse, disse sabiamente: “mãe, toda a abordagem é recorte. E esse é apenas o seu olhar sobre ele”. Então é isso, esse livro não quer provar nada, quer só existir como aliado deste meu amigo português tão maravilhoso. Nascemos em tempos diferentes, e nesse meu romance ele escreve para esse tempo de agora, mas me sinto muito amiga daquela alma. Hoje vejo que muito do que se transformou em mim, minha literatura, minha poesia, minha vida em palavras, foi autorizado pela inquieta liberdade deste ser capaz do mais sofisticado e mais simples pensamento. Aliás, houve até momentos em que eu deliberadamente julguei vingá-lo no livro. Ele foi vítima do conservadorismo, do machismo, da mediocridade dos retrógrados. No entanto, sabia que todos esses um dia ajoelhar-se-iam aos pés do seu triunfo. Póstumo, é bem verdade, mas igualmente triunfo.

Sobre o trânsito entre os gêneros – da poesia para a prosa longa: você é uma poeta bastante reconhecida, o que te levou ao romance? Como foi esse percurso?

Custei a saber que estava escrevendo um romance. Juro. Eu estava pesquisando tanto, e tão voraz na empreitada, que julguei que se tratava de uma biografia mesmo, tanto que o subtítulo do livro era “Uma autobiografia não autorizada”. Mais tarde, quando veio essa discussão polêmica, o subtítulo caiu. Foi então que o Juliano, outra vez, veio em meu socorro: “Não, você está escrevendo um romance, se é em primeira pessoa e não sendo você ele, é ficção”. Adorei a clareza, e esse saber me autorizou a inventar algumas coisas como a admiração dele pelos versos de Noel Rosa ou alguns acontecimentos envolvendo a velha Dionísia, as cenas do Cavaleiro de Nada e outras cositas más. A despretensão foi a madrinha dessa obra. Mas, de qualquer modo, para mim, embora seja meu primeiro romance, não é a primeira experiência em prosa. Há o Contos de Vista e o Parem de Falar Mal da Rotina, mas eu transito entre poesia e prosa sem largar mão de uma ou de outra. Há muito de prosaico na minha poética e há muito de poesia na minha prosa. A poesia formou o que pode haver de intelectual em mim. É morada dos meus princípios, mãe das filosofias que pesco, e está presente espalhadamente na minha vida.  Fazer esse romance foi como aumentar o tempo de uma brincadeira. Me vi num mar de palavras e aaaadoreeeii.