“Foi um filósofo sofisticadíssimo, dos mais cultos de seu tempo”, elogia Andreazza

16/01/2020 126 visualizações

A morte do filósofo inglês Roger Scruton, anunciada no último domingo (12) inspirou homenagens e análises de jornalistas e formadores de opinião. Na Folha de S. Paulo, o cientista político João Pereira Coutinho ressaltou a coragem de Scruton em fazer “perguntas incômodas para o marasmo da academia” e citou o conceito de “cultura do repúdio”.  Autor de livros como Como ser um conservador e, mais recentemente de Conservadorismo – Um convite à grande tradição, Scruton era uma referência para o pensamento conservador no mundo todo, defendendo suas convicções com argumentos que são um convite à reflexão. Scruton veio ao Brasil em 2019 a convite do evento Fronteiras do pensamento.

A Editora Record lança ainda em 2020 dois livros de Scruton: Sobre a natureza humana e Onde estamos. Em entrevista por e-mail ao jornal Nexo, o editor-executivo Carlos Andreazza analisou a relevância de sua obra e seus posicionamentos. Leia abaixo a íntegra de sua resposta.

“Um filósofo sofisticadíssimo, dos mais cultos de seu tempo, capaz de falar de arte e de meio ambiente com erudição, que dedicou boa parte de sua obra a explicar as origens do conservadorismo e suas manifestações práticas, concretas, ao longo dos séculos e mesmo nos confusos dias atuais. Ele ajudou a dar materialidade – carne, noção de dinâmica, de movimento – a algo que tendia ao velho, ao difuso, ao meramente conceitual. Mostrou que o cultivo das boas tradições – do legado dos que nos antecederam – resultou na firme institucionalidade, no valor da impessoalidade, no espírito das leis e, portanto, no Estado de Direito.

Num mundo em que o ímpeto para a destruição é muito atrativo, ofereceu balizas para que jovens se sentissem representados pela ideia de que chegamos até aqui não por obra de revoluções e rupturas, mas em decorrência de um lento e sólido processo de reformas e aprimoramentos ancorado no valor de que havia uma cultura a ser preservada. Convenceu-os de que isso talvez fosse enfadonho – mas era real.

Penso que a obra de Scruton se tornou importante – referencial mesmo – para a direita brasileira, mesmo para aquela que não lê (e que não o leu), por essa razão; em resumo: por haver informado a um conservadorismo vago, afastado de uma tradição, a brasileira, que se perdera no tempo, que existia uma história, sobretudo europeia, capaz de legitimar, de oferecer algum grau de pertencimento, ao conservador brasileiro sem lastro literário.

Muitos leram Scruton rapidamente, e somente a parte de sua obra destinada a desconstruir – com pancadas duras – pensadores de esquerda, e com isso saíram convencidos de que um conservador como ele endossaria o ressentimento reacionário que ora se chama de conservadorismo no Brasil. Scruton não teve tempo de olhar para isso, mas – dada, inclusive, sua experiência com que se passa na Hungria – imagino que, informado, gostaria de não se misturar”.