“Frei Betto – Biografia”, de Américo Freire e Evanize Sydow

25/11/2016 275 visualizações

Filho de uma tradicional família mineira, com mãe católica e pai avesso aos homens de batina, Frei Betto teve uma infância e adolescência agitadas em Belo Horizonte na década de 60. Com um primo, se fantasiava de Zorro para entrar na casa dos amigos à noite e assustar as “vítimas”. A dupla fazia dublagens de artistas como Elvis Presley e Maurice Chevalier e chegou a marcar uma apresentação na TV Italocomi, da qual Frei Betto desistiu. Sua carreira artística não decolou, mas a paixão pelos livros já era latente e o talento para escrever, também. O adolescente Betto namorava, andava com uma turminha do bairro que aprontava pelas ruas e chegou a ser expulso de uma das escolas onde estudava por se recusar a apresentar um trabalho em francês numa aula. Foi na mudança para um colégio público, onde estudava à noite e com colegas de várias classes sociais, que Betto começou a mudar. Logo depois, conheceu e entrou para a Juventude Estudantil Católica e percebeu que tinha uma vocação: a religiosa.

Essas e tantas outras histórias saborosas estão na biografia “Frei Betto”, escrita pela jornalista Evanize Sydow e o historiador Américo Freire e publicada agora pela Civilização Brasileira. Os dois revelam detalhes da vida e da obra de Frei Betto, passando por momentos-chave como a descoberta de sua vocação, a militância na educação e na Igreja e o engajamento na luta contra a ditadura no Brasil instaurada pelos militares em 1964. Sua resistência lhe rendeu uma prisão, mas também um dos seus principais livros: “Batismo de sangue”, em que conta a participação dos frades dominicanos do Convento das Perdizes na Aliança Libertadora Nacional e na captura e morte de seu principal líder, Carlos Marighela. Abaixo, os autores conversam sobre o livro.

 

Vocês contam no livro que a ideia de escrever a biografia de Frei Betto surgiu depois de tomarem depoimento dele para o CPDOC da Fundação Getulio Vargas. Em algum momento, temeram que, depois que o biografado concordou, vocês não pudessem ter liberdade para tocar em eventuais pontos polêmicos de sua vida?

Evanize: Sempre esteve claro para a gente que tínhamos liberdade para tocar o livro e tratar de assuntos que poderiam ser mais polêmicos. Sequer tratamos disso com Frei Betto, porque entendemos que ele aceitou que fizéssemos a biografia, sabendo que tínhamos total autonomia para trabalhar. Frei Betto já me conhecia de um trabalho anterior – a biografia de dom Paulo Evaristo Arns – e acho que confiou mesmo na gente e na nossa capacidade de fazer um livro sério e amplo. Em nenhum momento houve interferência dele para que o livro tendesse mais para um lado ou outro. Esse temor de que ele pudesse vetar alguma coisa não foi questão durante o processo de produção da obra. Estava subentendido que tínhamos liberdade para trabalhar.

Ainda sobre a pergunta anterior, vocês falam no livro de questões sensíveis, como o fato de Frei Betto ter sido poupado de tortura na prisão, pelo fato de ter um tio general e próximo aos militares; contam que ele já tomou o Santo Daime e é muito assediado por mulheres; não passam em branco pelas críticas que ele sofreu de petistas e de pessoas próximas a Lula por ter escrito um livro ao sair do governo. Como foi a conversa com ele sobre esses temas?

Evanize: Ele tratou desses temas todos conosco de uma maneira muito natural.  Frei Betto é uma pessoa muito aberta a experiências e acostumado com a curiosidade das pessoas em torno de sua vida. É interessante. Ele respondeu a tudo o que perguntamos. Não se esquivou de nenhuma pergunta ou assunto.

No livro, há uma opção de em alguns momentos seguir uma ordem cronológica e em outros agrupar os capítulos por assunto. Como chegaram a esse formato, para dar conta de uma vida tão complexa?

Evanize: Pois é, conseguir fazer um alinhavo da vida de alguém como Frei Betto não é tarefa fácil. Não é à toa que pensamos, no início, em dar ao livro o título de “As muitas vidas de Frei Betto”. Ele está em redes tão diversas que tivemos, sim, muita dificuldade em estabelecer um formato na biografia para que o leitor pudesse acompanhar o personagem. Entendemos que alguns assuntos ficavam melhor se contados em ordem cronológica e outros, de forma temática. Estudamos várias composições para o livro; escrevemos e reescrevemos vários capítulos até chegar à distribuição de temas. Eu espero que tenhamos escolhido o melhor caminho para contar essa história. 

O livro traz detalhes da infância e da adolescência de Frei Betto, mostrando suas peraltices nas ruas de Belo Horizonte com os amigos, o seu desempenho nas escolas em que estudou e fala em até namoricos e paixões. É um mergulho também na vida mineira daquela década de 60. Nos agradecimentos, vocês lembram da boa acolhida da família e de amigos. Como foi absorver toda essa energia positiva que parece girar em torno do biografado, que circula entre vários setores da sociedade com a maior desenvoltura?

Américo: Adotamos como critério ouvir um conjunto de pessoas que pudesse nos ajudar a compor um panorama amplo e diversificado da vida e da obra de Frei Betto. Tivemos também a preocupação de recolher depoimentos que, sob diferentes ângulos, abordassem alguns temas polêmicos, tais como a participação do dominicano no governo do presidente Lula. De uma maneira geral, fomos muito bem recebidos. Frei Betto é bastante respeitado pelas pessoas em geral e muito querido pelos seus inúmeros amigos. Esse clima positivo facilitou muito o trabalho e ajudou a quebrar eventuais resistências.

 Frei Betto foi um dominicano que ajudou militantes de esquerda em sua luta contra a ditadura; militou em movimentos pela educação de bases populares e inspiradas nas teorias de Paulo Freire; participou do principal movimento de esquerda da Igreja Católica, a Teologia da Libertação; esteve à frente, com o ex-presidente Lula e religiosos, das greves no ABC paulista na década de 70, da fundação do PT e do apoio ao Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra. Num momento em que a esquerda no Brasil, e no mundo, é questionada e enfrenta uma série de revezes, qual a importância de celebrar a vida e a obra de Betto?

Américo: Frei Betto fez parte de uma geração de militantes que, nas décadas de 1970 e 1980, ajudou a construir uma das principais vertentes das esquerdas brasileiras. Essa vertente apostou todas as fichas no trabalho de base, na formação de entidades populares representativas e na formação de uma agremiação partidária que expressasse os principais anseios da classe trabalhadora. Os resultados de tudo isso são conhecidos: o contínuo crescimento dessa vertente até a vitória de Lula nas eleições presidenciais de 2002.

Hoje em dia, em meio a um quadro bastante adverso, novamente está em pauta a necessidade de um novo giro crítico e autocrítico por parte das esquerdas. Ou seja, faz-se necessário rever erros e aprender com os processos que deram certo e que contribuíram para a democratização do país. Frei Betto tem participado desses debates e defende a retomada da construção de um projeto político de esquerda de caráter radicalmente democrático e plasmado pela presença popular. Tudo isso está registrado em detalhes no livro e pode ajudar o público leitor a firmar posição sobre esses temas controversos.

Ainda sobre o tema, Frei Betto escreveu no livro “A mosca azul”, depois que deixou o governo do PT, que não via “futuro para a esquerda fora destas três vias: o rigor ético, o trabalho de base e a elaboração de um projeto socialista.” De certa forma, ele antecipou a crise que ora o partido enfrenta no Brasil? 

Américo: É complicado tratar Frei Betto como alguém que antecipou a crise do PT e das esquerdas. Creio que nem ele e nem ninguém poderia prever tudo o que tem ocorrido no país – e no mundo – nos últimos anos. Procuramos evitar esse tipo de abordagem mais personalista que vai exatamente de encontro a um dos princípios que orientaram a elaboração do livro, qual seja: não queríamos o transformar em profeta ou herói.

No nosso modo de entender, estamos diante de um quadro novo que tem como principal característica e motivação promover o isolamento – ou, se possível  – a supressão da esquerda. Portanto, a situação é bem mais complexa e está relacionada também a um panorama internacional de intensificação de conflitos e à crise da chamada globalização. No meio de tudo isso, a esquerda tende a servir como espantalho perfeito – afinal, esteve no poder no Brasil nessa última década.

Frei Betto não tem nada a ver com esse movimento direitista e conservador que serviu de ponta de lança para a derrubada do governo do PT. Suas críticas ao governo e ao PT estão situadas no campo da esquerda. Crê que o PT perdeu o rumo e defende a necessidade da agremiação retomar suas origens populares e democráticas.

Por fim, uma curiosidade sobre o método de trabalho de vocês: o livro tem uma linguagem jornalística, objetiva e bem uniforme. Como foi a sua escrita a quatro mãos?

Américo: Temos uma parceria antiga. Conversamos muito sobre o modelo de livro que queríamos. Estamos acostumados a escrever para públicos mais amplos. Tudo isso nos ajudou a dar um tom mais jornalístico ao livro.