“Humilhado, como a era da internet mudou o julgamento público”, de Jon Ronson

12/12/2015 19 visualizações

Por Mariana Moreno

Em 2012, quando percebeu que alguém havia criado um perfil falso para ele no Twitter, o jornalista inglês Jon Ronson se surpreendeu com as reações a seu favor. Pessoas que até mesmo não o conheciam se uniram para defendê-lo, sugerindo as maiores atrocidades contra os criadores da página falsa. Após ter sido vítima da suposta brincadeira e ter observado a comoção na internet, ele resolveu investigar o movimento virtual em que os usuários ganham voz e se sentem como intermediadores da justiça, fazendo ressurgir, em contornos modernos, a prática da humilhação pública. Depois de três anos de pesquisa, incluindo extensas entrevistas com as vítimas dos casos mais emblemáticos de humilhação na internet, Ronson lançou “So you’ve been publicly shamed”, que chegou ao Brasil pela Editora BestSeller com o título “Humilhado, como a era da internet mudou o julgamento público”.

Apesar de se tratar de um tema com significativa carga dramática ao considerarmos a forma como as vidas dos “humilhados” foram devastadas, a linguagem bem-humorada e o modo como Ronson costura as histórias dão incrível leveza ao livro. Da série de personagens reais entrevistados pelo jornalista, se destacam Jonah Lehrer, Justine Sacco e Lindsey Stone. Lehrer teve sua reputação profissional arruinada quando um repórter descobriu distorções de fatos sobre Bob Dylan em seu livro “Imagine, How creativity works”. Ao tentar pedir desculpas publicamente em um evento, ele acabou aumentando ainda mais a ira dos internautas que o acompanhavam pelo Twitter. Foi também no microblog que a americana Justine Sacco viu sua vida virar de cabeça para baixo. A caminho da África do Sul, ela postou uma piada sobre a epidemia de AIDS no continente africano (Going to Africa. Hope I don’t get AIDS. Just kidding. I’m white!). Pessoas indignadas a aguardavam no aeroporto da Cidade do Cabo. Era apenas o começo de uma difícil jornada. Sacco foi demitida e entrou em depressão. Lindsey Stone também foi dispensada do emprego depois de postar uma foto no Facebook fazendo um gesto obsceno e fingindo gritar em frente a uma placa de “Silêncio e respeito” no cemitério nacional de Arlington, nos Estados Unidos.

Enquanto revisita teorias sobre a psicologia das multidões para entender o ressurgimento da prática da humilhação pública, Ronson acompanha de perto os desafios dos “humilhados” para refazerem suas vidas. Sem entrar no mérito de avaliar os limites do que deve ser aceito ou não socialmente, o autor investiga o fato de as pessoas viverem em alerta, aguardando a transgressão alheia. Diferentemente de Lehrer, que mentiu e foi acusado de plágio, a maioria dos casos de humilhações na internet são de pessoas que tinham a intenção de serem engraçadas, mas acabaram despertando o ódio coletivo. “Humilhado” é um livro sobre falhas humanas, não só daqueles que foram atacados, mas também daqueles que usam a humilhação como forma de controle social.

Trecho do livro:

Justine Sacco: “Apenas uma pessoa insana pensaria que brancos não pegam aids. Para mim, foi um comentário tão louco para um americano fazer que pensei que de forma alguma alguém pensaria que era uma afirmação literal. […] Foi um comentário completamente revoltado sobre as estatísticas desproporcionais da aids. Infelizmente, não sou uma personagem de South Park ou uma comediante, então não cabia a mim comentar sobre a epidemia de um modo tão politicamente incorreto em uma plataforma pública. Para resumir, eu não estava tentando conscientizar as pessoas sobre a aids, irritar o mundo ou destruir minha vida. Morar nos Estados Unidos nos coloca em uma espécie de bolha no que diz respeito ao que está acontecendo no Terceiro Mundo. Eu estava debochando dessa bolha.”