“Jornal do Brasil”, de Belisa Ribeiro

15/02/2016 104 visualizações

Por Cláudia Lamego

 

O ano de 2015 foi especialmente doloroso para os jornalistas brasileiros: houve registros de mais de 1400 demissões no país, em veículos impressos, online, de TV e rádio.  Neste cenário de mudanças nos meios de produção, de fechamento de veículos, de predomínio do digital, uma coisa parece certa: o jornalismo, como função social e profissão, não pode e não deve acabar. É essa a impressão que Jornal do Brasil – Memória e história, de Belisa Ribeiro, deixa ao leitor.

O livro registra depoimentos de alguns dos mais importantes jornalistas brasileiros que, em épocas diferentes, marcaram a trajetória do jornal e contribuíram para torná-lo um dos maiores de seu tempo. O JB, que em março completa 125 anos e foi criado para defender a monarquia, passou pela fase popular de jornal de classificados e pelas reformas editoriais que modernizaram a imprensa, foi trincheira muitas vezes para o combate à censura, para a denúncia de corrupção e maus feitos com o dinheiro público, má administração e outras mazelas da República. Foi também veículo de vanguarda, ditando moda, descobrindo tendências e revelando culturas.

Em suas 400 páginas, a jornalista Belisa Ribeiro conta histórias de edições corajosas, como a que noticiou a morte do presidente chileno Salvador Allende na primeira página inteira do jornal (sem manchete, como mandara a censura); de grandes reportagens, como a que revelou a reunião, no interior do Rio, de um grupo nazista, ou a que desvendou a farsa militar da bomba no Riocentro; e um pouco da trajetória de alguns de seus jornalistas.

A ideia para escrever o livro surgiu de um dos encontros dos jotabeninos, como se chamam os profissionais que lá trabalharam. Durante um ano e meio, Belisa manteve no ar um site para recolher depoimentos: “Ouvindo os colegas relembrarem seus “feitos”, os casos do passado, as reportagens históricas, decidi escrever não somente sobre a história do Jornal do Brasil, mas sobre as memórias de quem tornou o veículo inesquecível. E contar também quem são ou quem foram essas pessoas.”

O livro, que teve patrocínio da Petrobras, chega às livrarias, pela editora Record, em fevereiro. Belisa Ribeiro nesta terça, 16 de fevereiro, dia do repórter, uma homenagem aos que ajudaram a escrever essa história.

Leia a seguir entrevista da autora.

 

Numa reunião sobre o livro, você se mostrou bem pessimista em relação ao jornalismo atual, sobretudo após as várias demissões de profissionais que vêm acontecendo desde o ano passado, e o enfraquecimento, com isso, das redações. Como você acha que os leitores sairão dessa leitura: motivados pelas histórias sensacionais do livro ou pessimistas com o estado geral da profissão?

Primeiro, confiantes na raça humana, através das histórias em que  coragem, ousadia e criatividade e trabalho em equipe são fatores preponderantes. Mas, tristes, por que a  comparação com o jornalismo que se fazia com o que temos hoje choca, até. O jornalismo investigativo é um produto caro. Interessa, sim. Está aí o sucesso, por exemplo de Segredos Revelados, contando no cinema uma cobertura sobre pedofilia, baseado em um livro de sucesso e em um caso real. Mas vejo a mídia que tem dinheiro, no Brasil, principalmente, cada vez mais próxima do modo de se fazer notícia na internet e não interessada nele.

Como surgiu a ideia de contar as histórias do Jornal do Brasil? Conte um pouco sobre o projeto, que tem um site, uma coleção de belíssimos depoimentos e também um filme.

O site  esteve no ar durante  um ano e meio, colhendo os relatos para o livro e exibindo trechos do documentário. Estes arquivos, a partir de março, estarão integrados ao meu site www.belisaribeiro.com.br . A ideia surgiu em um dos almoços anuais que reúnem o pessoal que trabalhou no jornal – os “jotabeninos”. Ouvindo os colegas relembrarem seus “feitos”, os casos do passado, as reportagens históricas, decidi escrever não somente sobre a história do Jornal do Brasil, mas sobre as memórias de quem tornou o veiculo inesquecível. E contar também quem são ou quem foram essas pessoas. A trajetória e o caráter delas.

Sua trajetória no JB é bem curiosa: chegou como modelo da página de moda, se apaixonou pelo ofício, tornou-se estagiária e depois voltou como editora. Lá, também conheceu seu segundo marido. Além de considerá-lo um dos melhores jornais que o Brasil já teve, o JB é, também, uma extensão de família, a segunda casa? Como você define o diário em sua vida?

Foi muito importante, porque lá aprendi a profissão de verdade. Na  faculdade, a PUC do Rio, naquela época, ensinava-se muita teoria. Cheguei ao jornal achando que a pauta era obra de algum mágico, por exemplo… Aprendi também a Política, com P maiúsculo, e entedi sobre o meu país. Tudo isso com 21 anos, estagiária, e logo pomovida a reporter. Enfrentar a decadência, muitos anos mais tarde, como editora de Cidade e, depois, como titular do informe JB e Chefe da Sucursal de Brasília, foi duro, mas também importante como experiência profissional e de vida. Na dureza também se consolidam amizades duradouras. E se aprende.

Complementando a pergunta anterior: o Jornal do Brasil tem uma mística que talvez nenhum outro jornal de sua geração tenha tido. Os estudantes de comunicação queriam se formar para trabalhar lá; os profissionais lembram do trabalho no jornal com um orgulho incomum, alguns relutaram muito em deixar o jornal, mesmo no auge de sua maior crise; há leitores de luto até hoje, com saudade do velho JB. Para quem ainda não leu o livro, como explicar essa mística?

Acredito que quem melhor explicou isto no livro tenha sido o Luiz Orlando Carneiro e faço minhas as palavras dele. Foram as pessoas. Principalmente as pessoas. O corpo e alma. Circunstâncias – que estão explciadas no livro – permitiram que, durante um certo período até relativamente longo, décadas, o jornal tenha tido condições de reunir corações e mentes realmente privilegiados, que queriam e tinham, ao mesmo tempo, gana e prazer em fazer um jornalismo de qualidade superior. Não é uma mística. Era uma realidade. O Jornal do Brasil era o melhor jornal do Brasil. Era o The New York Times do Brasil.

 O livro foi dividido por temas-chave, como as grandes reportagens, a influência do caderno B no cenário cultural e social do Rio e do Brasil, o escândalo da Proconsult, a cobertura do Caso Riocentro, a resistência à censura. E, ao mesmo tempo, traz breves biografias dos profissionais que participaram desses momentos. Você teve dificuldade em ouvir alguém? Lamenta ter deixado alguém de fora?

Não tive dificuldade em ouvir ninguém. As pesoas queriam colaborar de bom grado porque todos nós temos saudades e amamos o que fizemos no JB. Lamento, sim, ter deixado muita gente e muitas histórias de fora. Como as que contei, existem muitas e muitas outras tantas maravilhosas. E pessoas, muitas pessoas que certamente mereciam estar nas páginas de um livro sobre o Jornal do Brasil. Foi muito difícil decidir e o Dines comenta sobre isso na orelha. Mas penso que consegui espelhar um pouco de cada setor e dar um bom painel ao leitor.

No livro, você reproduz uma entrevista do empresário Nelson Tanure, que comprou o jornal e suas marcas. Você chegou a procurá-lo para falar do livro? Ele conhece o projeto?

Ele conhece o projeto porque negociamos a compra das imagens das páginas do JB de que ele é o dono – o que até me surpreendeu, é o dono até da primeira imagem, da primeira edição do Jornal do Brasil de abril de 1981 – , mas não quis entrevistá-lo ou ao Josa (Jose Antonio do Nascimento Brito, filho do M. F. Nascimento Brito). Meu livro não trata de adminstração e ambos foram adminsitradores do jornal. Meu livro não trata também dos problemas financeiros que quase levaram o jornal à falência e ambos poderiam, creio, falar melhor sobre estes dois temas.

Muita gente ignora, mas o Jornal do Brasil online ainda está ativo. Em 2011, chegou a sair uma notícia sobre uma possível volta do impresso. Em março, o JB completaria 125 anos de história. Você acredita que algo ainda possa acontecer?

É um sonho…o que torna a análise difícil! Mas, falando a razão, não. Ainda mais com a crise econômica que enfrentamos e que não dá sinais de nos deixar nos próximos meses ou quem sabe nem até 2017. Como disse o Evandro Teixeira em seu depoimento: vivemos outros tempos, bola pra frente. E como ponderou o Taríciso Baltar: sobre o fim do JB, melhor ficarmos com o samba do Monarco, compositor da Portela e guardador de carros no estacionamento do jornal, você sabia?

Leia o livro para ver o que cantar, sem muitos lamentos, com ele e com todos nós, ex e eternamente JB!