“Lapa” e “Noturno da Lapa”

20/01/2016 599 visualizações

Por Andressa Camargo

Cronista curioso da vida boêmia do Rio de Janeiro, Luís Martins fez da Lapa o personagem principal de suas obras literárias. Seu romance de estreia, que leva o nome do bairro, foi lançado em 1936 e deixa à mostra um lado escuro da cidade, com personagens destinados à dor e à miséria. Noturno da Lapa, publicado quase 30 anos depois, é um livro de memórias que venceu o Prêmio Jabuti em sua categoria. Escritos em momentos diferentes da história, os dois títulos de Martins figuram entre os clássicos da literatura nacional e foram escolhidos para integrar a Biblioteca oficial do projeto Rio 450.

Lapa, como o próprio autor define em uma nota introdutória, “é uma crônica trágica da prostituição carioca”. Um romance brutal, escrito de forma crua e realista. Com o título sugerido por Jorge Amado, rendeu a Luís Martins muitos problemas com a censura do Estado Novo. Taxado de subversivo e imoral, o livro foi apreendido e destruído, o que levou o autor a exilar-se em uma fazenda em São Paulo. Lapa entrou para a história, injustamente, como uma obra clandestina. Mas hoje, muitas décadas depois, impressiona por seu impacto literário e ousadia.

Na edição da José Olympio, o texto de Lapa é apresentado por um prefácio de Ruy Castro, que revela detalhes da trajetória de Luís Martins. Dentre as passagens abordadas por Castro, chama a atenção a que se refere ao namoro do autor com a modernista Tarsila do Amaral, 21 anos mais velha que ele. Além disso, o prefácio lança luz sobre a convivência de Martins com outras personalidades do Rio.

Noturno da Lapa (também publicado pela José Olympio) é um livro de memórias por meio do qual Luís Martins acerta contas com sua juventude. Passeiam pelas páginas do livro personagens como Rubem Braga e Odylo Costa, filho, aos quais se juntam artistas e boêmios anônimos. Por meio das memórias do autor, surge então a história do bairro – do seu tempo de glória à sua decadência. “O seu assunto específico não é a minha autobiografia”, diria Martins sobre o livro. “É a Lapa”.

 

Leia abaixo um pequeno trecho do texto que Ruy Castro escreveu sobre Luís Martins e sua relação com a Lapa:

        A Lapa de Luís Martins era mais da poesia e da literatura que da malandragem e da valentia. Talvez fosse isso que ele quis dizer ao escrever no Noturno: “A belle époque do Rio acabou justamente quando eu entrei em cena.” E, no entanto, seu relato também é de dar água na boca. Uma das especialidades da turma era fazer serenata às três da madrugada sob a janela de Manuel Bandeira, e aguentar os baldes d’água, tomates e outros produtos atirados pelos vizinhos do poeta. Outra era a de saírem pelos bares recitando Villon, Baudelaire ou Verlaine, com rápidas incursões às francesas entre um verso e outro, mas não exatamente para checar a pronúncia. Um deles, Magalhães Jr., por ser o mais abonado (na época, já tinha vários empregos), mantinha uma conta-corrente à disposição dos amigos num bordel da rua Conde de Lage. E, certa noite, Henrique Pongetti brigou a socos com um leão de chácara no Túnel da Lapa, e foram todos — Pongetti, Luís, Odylo, Lucio e o leão — parar no distrito da rua das Marrecas, acusados de provocar distúrbio. Mas o delegado, ao ver de quem se tratava, pediu desculpas, serviu-lhes cafezinho, liberou-os e só prendeu o leão, por “desacatar aqueles moços tão distintos”.
        Se isso também não pode ser chamado de belle époque…