Leia trecho do novo romance do fenômeno Carla Madeira

4/01/2022 302 visualizações

A mineira Carla Madeira se tornou um dos grandes fenômenos editoriais de 2021 ao superar a marca de 45 mil exemplares vendidos de Tudo é rio, relançado pela Editora Record em 2021. Seu novo romance, Véspera, segue o mesmo caminho de sucesso. Os leitores vão se deparar novamente com o estilo poético da autora de narrar as maiores tragédias e a galeria de personagens profundamente humanos.

Confira abaixo um trecho de Véspera.

Há nas famílias uma demarcação de território onde as fronteiras dizem: daqui para dentro somos nós. Dentro é onde cresce um tipo de vegetação particular, que a um estranho parecerá mato, mas que na família é flor. E pode ser flor aos olhos do visitante o que é espinho entre os que se machucam faz tempo. As sonoridades também exigem ouvidos apurados ali, naquelas solenidades. Há entonações que vibram mágoas, e trinados de alegrias ou saudade. Há sempre uma faixa de volume tolerado ao desrespeito, a textura da ironia consanguínea, os tons menores da tristeza e a resiliência do amor, quase sempre nas pausas, além do som, ora estridente, ora sutil, das entrelinhas. Coisas ouvidas na fermentação dos anos. Nas famílias, desiste-se muito das palavras para evitar exílios e, assim, nascem desertos. Se, por um segundo, essa sintaxe de húmus própria da família Antunes fosse um tecido, poderia se ver, aqui e ali, a trama esgarçada, prestes a romper, sustentada pela malha rala das fibras. Certamente, os lanches aos sábados eram uma dessas fibras resilientes. Ao se ver no meio desse terreno, onde Veneza já era iniciada, Vedina, árvore alta, teve a sorte de estar usando uma blusa tecida por Custódia. A malha vermelha com um arremate roxo na gola e nos punhos rapidamente se tornou o assunto.

Custódia contou do dia em que Vedina e a avó estiveram lá para comprar blusas.

— Levaram boa parte do estoque — disse, entusiasmada. Logo Veneza e Caim deduziram, sincronizados, que estava explicada a presença de Vedina: devia-se ao consumo generoso. Aos poucos a conversa migrou para outro território, o da amizade. E ali os três recuperaram rapidamente a desenvoltura, foram se atualizando dos respectivos cursos, das antigas histórias e dos boatos divertidos sobre Lourenço e sua erudição empoeirada.

Abel se demorou no banho. Desde a festa na arquitetura não se encontrava com Veneza e, debaixo do chuveiro, adiava esse momento ao máximo. Quando, finalmente, atravessou a sala, ouviu a voz de Vedina e precisou parar. As duas juntas tornavam tudo mais imprevisível. Encostou as costas na parede fria ao lado da porta de acesso para a varanda, os olhos fechados, a respiração penosa, reconheceu a sensação: buscava o ímpeto de atravessar aquela distância. Há anos estava ali… De muito longe vinha o presente agudo de suas costas na parede fria. Precisou de um pouco de tempo, ou de se livrar do tempo que aprisionara dentro de si.

O tempo, inabalável na mansa malha dos dias e das noites, nunca ofega. Inspira e expira o ventre onde tudo se cria. A mais sutil mudança na pedra, o deslocamento da menor partícula de ar divisível, o mínimo escorrer das águas, a insignificante transformação humana se dão nas tramas airadas do tempo. O tempo flutua invisível e em espesso presente. Nada apodrece sem ele. Nada floresce. Nada se torna amável. Nenhum ódio viceja. Nenhuma umidade seca. Nenhuma sede cede. As tempestades não inquietam nele ventos, as avalanches não podem soterrá-lo, a perplexidade não o paralisa, o mal não o ameaça e o bem não faz com que se demore. Mais eis que um acontecimento, um único acontecimento, captura o tempo e o aprisiona.

O puçá da vida, com sua rede inescapável, baila à espreita… Entre gestos, olhares, palavras, vazios, intensidades e, súbito, como se fossem borboletas, recolhe a véspera de uma dor, o desamparo sem palavras, a sutil alegria, a faísca cadente, o assombro fugidio e o desejo… E, assim, aprisiona o tempo e o faz corpo marcado.

No dia em que levou a surra do pai, ao descer do abacateiro, Abel se escondeu no buraco do muro bem lá no fundo do quintal. Uma reentrância na parede, um nicho gradeado, onde antes se guardavam ferramentas. Ali ficou como um feto, envolvido por um útero de paredes frias. Queria que a mãe viesse pari-lo novamente, e o pusesse de volta no mundo. Desejou ouvir o choro do pai nas notas graves e cavernosas do remorso e o ronco do nariz adunco tentando conter a gosma transparente e contaminada de álcool que sempre envergonhava Abel quando o pai chorava. Mas o que mais esperou foi ouvir a voz de Abelzinho gritando seu nome, sem nunca desistir de encontrá-lo. E, ao vê-lo, veria o entusiasmo do irmão em dividir mais um útero com ele e acalmá-lo com sua coragem. Pelas mãos do irmão saberia nascer. Mas apenas escurecia e os sons da noite começaram a chegar, e estava esquecido ali, como os frutos caídos naquele quintal. A dor assustada no corpinho medroso das alturas do pé de abacate roubara-lhe os ímpetos de atravessar a distância penumbrosa sozinho e se desviar do vulto das árvores e dos primeiros voos dos morcegos… Abel não conseguia se lembrar de como saíra dali — apertou as costas na parede fria… e soube que talvez nunca tenha saído.”