Primeira biografada na coleção Brasileiras, Niéde Guidon foi guardiã de um dos maiores sítios de pinturas rupestres do mundo, o Parque Nacional Serra da Capivara. A arqueóloga que morreu na madrugada desta quarta, aos 92 anos, tem um longo histórico de lutas pela preservação ambiental. Seu legado já seria admirável se, em meio a investigações que nunca cessaram, não lançasse hipótese arrojada de que os primeiros povos das Américas habitavam a região muito antes do que o consenso científico admite atualmente, vindos da África por meio de barcos que atravessaram o Atlântico.
Independentemente da comprovação do seu argumento, Niéde mostra, com sua trajetória, que o fazer científico não é desprovido de luta política. Abordando este contexto político e científico no qual a arqueóloga precisou se movimentar e atenta a uma infinidade de sutilezas da arqueóloga e seu entorno, Adriana Abujamra constrói um retrato multifacetado em Niéde Guidón: uma arqueóloga no sertão (Ed. Rosa dos Tempos).
O perfil apreende seu talento empreendedor e humor bravo. Entre afetos cultivados no decorrer de décadas e conflitos inerentes ao papel desempenhado local e globalmente, a jornalista conta, também, bastidores das pesquisas arqueológicas em todo o mundo e o dia a dia dos sertanejos que vivem nas vizinhanças do parque. O legado de Niéde é um marco na história ambiental do Brasil. Suas descobertas e projetos impactaram legislações e mudaram o curso de vidas humanas e animais no Parque Nacional Serra da Capivara.
Confira um trecho de Niéde Guidon: Uma arqueóloga no sertão, no qual a autora revela o roteiro do velório desejado por Niède.
“Um conjunto de fatores naturais de degradação, como intemperismo – processos mecânicos, químicos e biológicos –, ninhos de insetos e vegetação, podem afetar progressivamente os sítios arqueológicos, até o ponto de destruí-los. A urina ácida dos mocós – roedores em número cada vez maior na Serra da Capivara, por causa da diminuição de seus predadores, explica a arqueóloga – coloca em risco os desenhos dos paredões, isso sem citar o mau cheiro. Numa entrevista no programa Roda Viva, em 2014, o jornalista Bernardo Esteves perguntou se o parque era dependente de Niéde. “Não”, respondeu ela. “Mas quem está disposto a esta briga cotidiana? É um estresse muito grande, ir a Brasília, briga aqui, briga lá.”
Marcia Chame, diretora científica da Fumdham, e outros pesquisadores do Piauí têm assumido a frente dessa briga. A mais recente, contra a autorização do ICM-Bio para que fosse instalada uma fazenda na região do corredor ecológico, criado em 2005 pelo governo e situado entre o Parque Nacional Serra da Capivara e o da Serra das Confusões. O corredor permite o trânsito dos animais entre as duas áreas, especialmente durante a seca. O impacto seria devastador: afetaria os sítios ecológicos, as plantas nativas, a produção de mel, o solo, o abastecimento de água e o turismo, acarretando consequências para o ecossistema.
A caatinga, com grande valor estratégico, tem muito a ensinar sobre resistência e adaptação, ainda mais no momento de ameaça de colapso ambiental, com previsões apontando que o planeta enfrentará eventos extremos, como secas prolongadas.
“Com o tempo, o patrimônio histórico da humanidade vai desaparecer, vai tudo desaparecer”, lamenta Niéde, antes de mais um gole de vinho. “Agora não está mais nas minhas mãos.”
“Doutora”, diz Isabela, entrando na sala. Fecha rapidamente a porta para que os cães não invadam, e prossegue: “A moça mandou agradecer. Disse que já está indo comprar a ração para os 52 bichinhos que ela tem em casa.”
Muita gente acha que o parque não resistirá sem a supervisão férrea de sua guardiã. A preocupação maior de Isabela, porém, parece ser outra: o destino dos animais quando a doutora faltar, afinal, mantê-los é custoso e demanda cacife. “Você já andou na cidade? Os bichinhos, tadinhos, passando fome, e os que não tiverem dono a prefeita vai mandar sacrificar”, relata, condoída. Após se certificar de que ninguém quer mais vinho, sai com as taças vazias.
Isabela acende o fogão a lenha na varanda para preparar uma galinhada. Depois de um tempo a observar a chama e a fumaça, Niéde diz: “Já se foram todos. Um dia desses sou eu também que vou embora. Não tenho medo de morrer, o normal é morrer. Não quero morrer doente.”
“Como acha que será lembrada?”
“Espero que esqueçam logo de mim”, avisa, e então complementa: “Niéde Guidon, arqueóloga e ponto.”
Isabela pergunta lá de fora se vou voltar com o mototáxi de sua sobrinha. A moto, como me explicou Aline na vinda, tinha sido um presente de Niéde, uma maneira de garantir que ela pudesse levar a filha diariamente à escola.
“De mototáxi?”, provoca Niéde, apontando para o céu com prenúncio de toró. “É capaz de você ir antes de mim.”
O aroma da comida no fogo aos poucos inunda a casa e atiça os cães, todos abanando o rabo para comover Isabela a lhes dar um naco.
“Está pensando em quê?”, pergunta Niéde.
“No que tem na outra pasta”, respondo.
“Você sabe tudo de mim e eu não sei nada de você”, diz ela, abrindo o arquivo “Documentos pessoais”.
Depois do diploma do curso de história natural, de 1958, da carteirinha da Sorbonne e de um texto distribuído na missa de sétimo dia de morte de Giácomo Guidon, o tio Giacolim, vem à tona um registro que faz sorrir. Niéde alisa a folha, leva-a para mais perto do rosto e, de maneira compassada, lê em voz alta o codicilo, um texto oficial no qual deixa orientações para o seu funeral.
“Não quero que seja feito velório. Não quero que nenhum representante de nenhuma religião seja chamado, ou que seja realizada missa ou cerimônia. Se algum padre ou ministro se apresentar, não vai ser permitido que ele chegue até meu corpo.”
Levanta os olhos, estuda minha reação e volta ao texto, agora referindo-se a si mesma em terceira pessoa: “Se sua morte ocorrer no Piauí, não quer ser enterrada nem cremada. Que seja o seu corpo levado até o Parque Nacional Serra da Capivara e deixado sobre…” Faz uma pausa, espreme os olhos para entender o que está escrito e então continua: “…sobre o solo rochoso da Toca do Caboclo, uma homenagem aos primeiros povos que aqui viveram. Se sua morte ocorrer fora do Piauí, deseja ser cremada e que suas cinzas sejam jogadas no mar.”
Dobra o papel e o coloca de volta na pasta. “Todo mundo diz que não posso fazer isso”, queixa-se. Na sequência, revela já ter um plano para lograr seu intento. “Então, se eu sentir que vou morrer, vou para o parque e fico lá. Aí os bichos me comem. Pelo menos assim eu sirvo para alguma coisa.”