Lobão lança no Rio “Em busca do rigor e da misericórdia”

23/11/2015 540 visualizações

Leia o primeiro o capítulo de  Em busca do rigor e da misericórdia:

Ação fantasmagórica à distância

Ainda não havia percebido o quanto de minha vida, de minha maneira de ver as coisas, de minhas relações com as pessoas, seria radicalmente afetado após o desafio de escrever a minha biografia.

Então, o momento de cumprir a promessa feita a mim mesmo, de “desengavetar” grande parte do que arquivara com meu método pessoal (o de “dar um tempo para digerir o tranco”), havia chegado. As emoções estavam afloradas, com todas as recordações em desfile. Uma bela conjugação para se criarem canções.

A primeira coisa que me veio à cabeça: vamos compor um disco novo, João Luiz? (Essa é a forma como me trato quando falo sozinho.) Com um estúdio atrás de minha antiga casa, na Pompeia, todos os instrumentos ao meu redor e uma alma renovada pelo feito de ter escrito mais de novecentas páginas em uns seis meses, imaginei que algo de novo pudesse brotar em termos de música.

Vasculhar as próprias entranhas resulta sempre num estado emocional muito sensível e propenso à criação, e o sentimento que primeiro saltou de meu coração, para minha surpresa, foi uma saudade imensa de meu pai.

Escrever sobre nossa tumultuada relação, nossas impossibilidades e entraves afetivos, sobre sua morte abrupta me encheu de amor filial. Senti que a hora de sair de um luto velado, catatônico e não assumido, de mais de oito anos, estava por chegar.

Nada poderia ser mais emocionante e desafiador do que tentar compor uma canção de amor e reconciliação para meu pai.

Vocês devem imaginar o quão perigoso é escrever obras dessa natureza, porque o risco de se tornarem piegas e artificiais é imenso. Assim, iniciei uma busca exaustiva de um conceito, de uma forma interessante e original por meio da qual pudesse veicular meus mais sinceros sentimentos.

Para dar início ao processo de criação, logo me veio a lembrança de um depoimento de Michio Kaku, professor de física teórica do City College de Nova York, autor de vários livros e apresentador de programas sobre ciência e ficção científica, que certa vez declarou sentir falta da presença da poesia nas novas descobertas da ciência, lamentando perceber uma grande lacuna na produção poética contemporânea, que não abordava temas tão maravilhosos como os que a ciência tem nos presenteado.

Novas teorias, a física quântica, as fotos estonteantes de longínquos rincões do universo, buracos negros, nebulosas, berçários de estrelas, supernovas monumentais, quasares, pulsares, viagem no tempo, energia escura, matéria escura, horizonte de eventos, teoria das supercordas, universos paralelos, e por aí vai, num sem-número de descobertas e formulações altamente inspiradoras.

Sempre fui fascinado com tudo isso e instantaneamente me apareceu uma ideia que poderia ser desenvolvida: a do entrelaçamento quântico! Ou, trocando em miúdos: a de que duas partículas podem se entrelaçar, interagir, se abraçar, se comunicar de maneira tal, que uma afetaria imediatamente a outra, não importando o limite de distância entre elas, mesmo que situadas em lados extremos opostos do universo.

Einstein chamou esse fenômeno de “ação fantasmagórica à distância” (spooky action at a distance), e o nome em si já seria um prato cheio ao desenvolvimento artístico do tema.

Imaginei minha relação com meu pai, onde ele pudesse estar (ou não) depois de morto, através de um teletransporte transcendental, uma metafísica do possível no impossível, por entrelaçamento quântico. Nesse instante, tive o pressentimento de que o universo clamava por ser observado por nós, e de que nós seríamos uma espécie de sentido do universo. (Tratarei desse forte sentimento com o universo posteriormente.)

Esses insights iriam me perseguir por semanas (na verdade, me perseguem até hoje) antes que saísse alguma coisa de objetivo. Como a tal letra não vinha, dei uma desapegada e me pus a procurar um instrumento com que não tivesse lá muita intimidade, que possuísse uma ergonomia diferente do violão ou da guitarra, outra afinação, outra ação; algo que me pudesse conduzir a um reino musical menos explorado e conhecido.

Olhei para a minha viola caipira no canto do estúdio e parti para ela. Imaginei que, por suas características de timbre e afinação, eu seria levado a compor algo predominantemente modal, baseado numa tônica forte, como um ré maior, caracteristicamente nordestino. Para minha surpresa, porém, o que apareceu foi uma espécie de choro híbrido, cheio de harmonias e com um buquê de música celta.

Uma harmonia que dava chão para uma bela melodia na primeira parte, um refrão em tom maior, vigoroso e alegre, seguido de sua conclusão. A melodia logo se encai­xou naquele tecido harmônico, e lá estava eu, feliz da vida, emocionadíssimo com minha nova cria: um tema bem estruturado, cadenciado como um choro, algo que me fez lembrar Paulinho da Viola, Garoto, João Pernambuco… E então só faltava a tal da letra.

Fui dormir exultante, na esperança de que, depois de uma noite bem-dormida, teria a graça de acordar apto a dar vida a mais uma canção. E não deu outra. Pulei da cama de manhã bem cedo, tomei uma xícara de café, um bis­coitinho de castanha, e fui direto para o estúdio. Peguei a viola e executei a melodia sentindo a felicidade e o alívio de não ter me esquecido de nada. Dali em diante, apliquei um método que jamais praticara: gravar o tema, viola e voz, e me debruçar no teclado do computador para pescar a letra do éter com absoluto rigor em relação à métrica e ao ritmo concedidos pela melodia. (Quando fazemos a letra antes, é ela que nos fornece os caminhos para chegar à melodia e ao ritmo musical, que já traz em seu bojo.)

Sempre me utilizei da velha receita que é caneta e uma dezena de blocos ao meu redor, mesmo tendo uma caligrafia horrorosa e ininteligível. Acreditava que o ritmo da escrita no papel me dava um determinado tipo de conexão com meus imprintings baterísticos, facilitando assim minha intuição e fruição. É bom poder demolir certos fetiches. Foi o que aconteceu com o nascimento de minha primeira letra escrita sobre um teclado de computador. E como foi rápido! Em menos de quarenta minutos, estava pronta, já em sua forma definitiva.

Acho que o fato de escrever o livro me aproximou do te­clado, mais um elemento de transformação importante na minha vida, pois a grande maioria das letras que viriam­ depois seria concebida daquela maneira. Sem contar que não mais perderia 90% de tudo que colocava no papel, conse­quên­cia de minha horrível caligrafia.

Confesso que eu mesmo me surpreendi com a descarga emocional que me invadiu. Não conseguia cantar a canção até o final sem desabar num torrencial choro, e logo me ocor­reu que, a persistir, aquela reação constrangedora significaria a impossibilidade absoluta de executá-la em público. Estava possuído de um desejo intenso de abraçar meu pai e de uma tremenda vontade de cantar a música inteira sem fraquejar, o que ainda demoraria.

Após dezenas de tentativas, trêmulo de exaustão, respirei fundo, me concentrei e finalmente consegui levá-la de ponta a ponta. De novo, uma alegria descomunal tomou conta de mim. Eu beijava a viola caipira, beijava o teclado, beijava meus braços, minhas mãos, meus cotovelos, e pulei da cadeira vibrando como se tivesse acertado na loteria. Seria difícil mensurar a intensidade de tantos sentimentos fortes, todos juntos a eclodir na minha alma. Felicidade, tristeza, perda, ganho, descoberta, invenção, criação, reconciliação, amor, entrelaçamento…

Sim! Naquele instante mágico, enfim meu luto acabara, e passei a me entrelaçar com meu pai por pura invenção, por amor, por método, por pura vontade.

Todas as tragédias, impossibilidades, distanciamentos, brigas, tudo isso, como num milagre, desaparecera, evaporara com minhas lágrimas, com minha nova canção, meu novo bebê, com a sensação mágica de perceber que aquele pedaço de letra misturado àquela sequência de acordes nunca havia existido e que se manifestava pela primeira vez ali, naquele momento.

Uau! Não havia como negar que me dava um presentão.

Por isso, sempre afirmei que compor, tocar um instrumento, escrever, essas práticas integram um processo de cura. Isso é uma realidade sólida, pelo menos para mim. Percebi claramente que, a partir daquele instante, jamais me deixaria entrar em depressão de novo, que jamais me recolocaria naquela ciranda mórbida de suicídios familiares, que jamais me reaproximaria daqueles infortúnios e torturas na alma que por tanto tempo me impeliram a repetir padrões.

Meu Santo Deus!

Que dádiva maravilhosa me foi concedida ao poder desfrutar de uma habilidade que me conduz, ela mesma, à minha própria redenção. Impossível ignorar a transcendência de tudo. O universo é inteligente. Eu sou o universo sendo curioso. Sou um sentido do universo.

E assim, numa manhã de outono de 2013, nascia a primeira canção da safra que resultaria no repertório de meu disco O rigor e a misericórdia. Nascia a minha tão esperada canção de amor e reconciliação com meu pai, uma canção de alforria, de libertação de um luto de oito anos. Nascia uma canção que simboliza a sublimação de vários eventos trágicos e que foi fruto de todo o estofo acumulado pela escrita da minha vida.

Era a minha vida, cantada, vindo ao meu socorro.

Deu certo!

Nascia, de todo esse entrelaçamento, a “Ação fantasmagórica à distância”:

Vou te contar,

Como tenho feito nesse tempo

Pra não gritar,

Toda falta que eu sinto

Daquelas coisas pequeninas

Que a gente tentava viver, mesmo com as brigas,

Mesmo longe de você

Não vou deixar

Que alguma coisa impeça de você

Me habitar

E viver comigo toda a minha vida e além

Numa espécie de ação fantasmagórica

Onde poderemos ser

Um só

Ser o Amor

E botar toda a conversa em dia e rir

de toda a dor

Que a gente, por bobagem, passou

E brincar, e viver todos nossos sonhos

Sem a distância para nos maltratar

E, enfim, desfrutar

E, enfim, concordar

E, enfim, e, enfim… um só

 

No vácuo da simpatia e do entusiasmo em ter ritualizado uma reconciliação com a minha história através da música, imaginei ser esse um caminho aberto para outras façanhas do mesmo porte.

Apesar de, não sei por que cargas d’água, ainda não haver tido na intenção dela o mesmo estímulo emocional espontâneo que se destinou a meu pai, me vi instigado a adotar o mesmo caminho em busca de minha mãe.

Algumas semanas depois, eu receberia uma relíquia: meu violão Del Vecchio voltava de uma reforma radical, por meio da qual, seguidas as minhas recomendações, consegui replicar o primeiro instrumento da minha vida. O violão da minha mãe, em que aprendi, com ela, os primeiros acordes, de que acabei me apoderando depois e que permaneceu comigo até quando me o roubaram, logo depois da conclusão do repertório de Cena de cinema, todo composto nele. (Criei no mesmo instrumento “Girassóis da noite” e “Tudo veludo”, músicas anteriores ao meu primeiro disco, mas que só seriam gravadas em 1987, no Vida bandida.)

Era uma nova encarnação, agora todo preto, boca branca, cordas Canário de pompom. Uma joia rara! Tudo me levava a crer que estava diante de um novo e intenso processo criativo-catártico, de modo que a primeira coisa que fiz foi entrar no estúdio e dedilhar meu novo instrumento, que trazia o mesmo cheiro, a mesma pegada, a mesma sonoridade daquele que me formou musicalmente.

Com tantos fatores significativos, não demoraria a surgir um tema interessante, logo pavimentado com uma melodia. Ao cair da tarde, ali já havia uma canção para minha mãe. No entanto, a tal mágica não aflorava como esperado… Mesmo assim, não hesitei e comecei a escrever a letra, em busca da emoção que não vinha, não com a espontaneidade esperada. A letra acabaria saindo, cantei o resultado algumas vezes, mas, sinceramente, não sabia exatamente o que sentir. Pensei com meus botões: “João Luiz, não encana e vai dormir. Grava a música e amanhã você ouve.”

E assim foi. Acordei bem cedinho, como me é de costume, curiosíssimo para saber o que sentiria ao ouvir aquela canção. No estúdio, liguei o som, acionei o play na máquina e, para meu espanto e total constrangimento, achei uma tremenda porcaria. Quanto sentimento postiço e forçado, quantos artifícios sentimentaloides! “Mas que canastrão, João Luiz!”, murmurei com um sorriso triste. Que vergonha senti de mim mesmo. Fiquei com uma inexplicável ressaca moral por semanas.

Para meu desencanto, percebi que nem sempre as mágicas funcionam e que temos a obrigação de seguir com honestidade os nossos sentimentos, pois, quando assim ocorre, nada pode deter o processo criativo. Contudo, quando a criação afetiva é engendrada de forma artificial, estamos fadados ao fracasso.

Portanto, minha mãe, deixemos o tempo dizer quando nos entrelaçaremos de novo.