“Luxúria”, de Fernando Bonassi

7/10/2015 182 visualizações

Por Simone Magno

 

15_Bonassi_Divulgacao_27Um operário resolve construir uma piscina no quintal de casa e para isso precisa se desfazer de um cachorro. Nesse processo, a família de classe média baixa se desarticula. A desesperança social e política e a onda de conservadorismo do atual momento do país movem os personagens de Luxúria, novo romance de Fernando Bonassi: um metalúrgico pressionado pelo consumo desenfreado, a dona de casa que se torna dependente de remédios controlados e desconta suas frustrações na empregada, e o filho em plena puberdade convivendo na escola pública com alunos que se mutilam em troca de dinheiro.

O protagonista é um homem comum, que depois da jornada de trabalho só quer chegar em casa e encontrar um prato quente de comida e a mulher pronta para o sexo. No entanto, disposto a levar adiante a compra que surgiu por impulso, se vê atolado em dívidas que nunca poderá pagar, e alvo da ira da vizinhança do bairro popular onde vive. Pontuado por cenas de violência urbana, com diálogos em que muitas vezes ninguém diz o que pensa, o livro critica as relações de trabalho, o sistema de saúde, a educação pública e a religião. A tecnologia também tem papel fundamental para a tensão que vai levando o leitor ao clímax.

O ponto de partida do romance é a política ou a piscina?

A construção dessa piscina causa um transtorno para os vizinhos, que acham que todo mundo tem que ter o mesmo nível de desconforto. É um pouco a situação que a gente está vivendo, de desesperança, com as pessoas se transformando em consumidoras e não em cidadãs. Sou eleitor de esquerda mas esse foi o maior erro dos últimos governos. Fui criança na ditadura e sei como é ruim, cantei o hino nacional de 1969 a 1974 todos os dias. Isso não pode voltar. O ensino de história acabava na Proclamação da República. Nunca estudei história do século XX. Mas os governos de esquerda não conseguiram articular um modelo de poder em que as pessoas fossem incluídas como agentes culturais. Se você pegar a história recente do país, é uma história de profundas frustrações. O projeto político da minha geração não aconteceu e esse ambiente de decepção está no livro. Tenho 53 anos e faço parte de uma geração em que a política fez parte da trama narrativa. Isso se perdeu com os mais jovens com esse projeto da autoficção, que é maravilhoso também, mas a literatura se deslocou para o indivíduo, para as questões emocionais, como se tivesse perdido a visão geral do país. O cinema novo, por exemplo, repercute um ambiente social. Fazer literatura e política é o barato do século XX. O mais bacana de Luxúria é colocar esta família sob a perspectiva do que está acontecendo agora. E dei um azar/sorte terrível, porque ele trata deste momento, embora tenha sido escrito antes. O livro é uma tentativa de olhar para o que sobrou. Agora você pode comprar uma TV de plasma, mas morre com o crediário. Digamos que é um romance sobre o atual estado de coisas. As coisas já estavam ruins há dois anos, foram piorando e a gente fez de conta que nada estava acontecendo. Toda política social enfrenta muita oposição no Brasil, que é um país muito conservador. As diferenças sociais nunca deixaram de ser muito grandes. Quando parece que vai melhorar, anda para trás. O Brasil é isso.

Por que o protagonista é um metalúrgico?

Eu era metalúrgico no ABC paulista até os 16 anos, fiz Senai, sou ajustador mecânico, é uma realidade que eu vivi. Minha família inteira era de lá. O ambiente da fábrica, o macacão, o cheiro de óleo sempre existiram para mim. E tem uma cena do livro que eu assisti na empresa em que eu trabalhava, a ZF, que fazia caixas de câmbio para a Volkswagen. Eles chamaram todo mundo no pátio para ver uma máquina nova. Eu, que não estava nem aí para aquilo, achei ótimo, parei de trabalhar, tomei um café, mas quando ela começou a funcionar, meus tios ficaram em pânico, porque era uma máquina que fazia muito melhor o que eles faziam. Meus tios ganhavam bem, tinham casa, telefone, carrão, e isso tudo acabou. A máquina cortava um pedacinho de ferro e cuspia a engrenagem ali em três minutos; antes levava 40. Essa cena sempre ficou na minha cabeça, o patrão rindo. É um trabalho altamente técnico, é triste, mas de fato a máquina faz melhor. A modificação do mundo do trabalho na indústria metalúrgica foi muito grave. Queria mostrar com o livro que o trabalho no Brasil é muito ruim. Trabalha-se muito, sob condições ruins e ganha-se muito pouco.

Como você escreveu o livro, enquanto trabalhava como roteirista na TV Globo?

Escrevia o livro à noite, quando chegava em casa, por isso ele demorou dois anos para ficar pronto. Fiz três temporadas do seriado Força tarefa e depois O caçador. Agora em outubro estreia uma série nova, Supermax, que é a história de um presídio de segurança máxima na Amazônia, escrevi com Marçal Aquino, com quem eu trabalho bastante. Então, tive que dividir o tempo, é normal.

Você costuma fazer muita pesquisa?

Para Luxúria, só relembrei coisas do meu passado do Senai, o processo de tornear uma peça, como se fabrica uma engrenagem, a manipulação da forja, trabalhar com ferro e aço. Isso tudo eu tinha estudado. Pesquisei um pouco sobre piscina, mas nada muito técnico, senão fica chato. Sobre essa coisa do remédio, tem muito da minha família, gente que passa o dia todo de pijama, que come mal, engorda, gente feia, que anda de cabeça baixa, brucutus mesmo, então o remédio, o álcool, a religião eram o amparo desses imbecis. Eu convivo com esse ambiente até hoje, de gente incapaz de lidar com a vida, essa situação de indiferença e ódio que tem no livro. Às vezes a gente ia entregar alguma peça na Volkswagen, tinha uma placa na entrada da fábrica, algo como hoje nos temos 7 mil e tantos funcionários e 300 visitantes. Quando fiz a adaptação do livro Carandiru para o cinema, fui ao presídio e na entrada tinha a mesma placa, hoje temos tantos presos e tantos visitantes. A mesma placa está no presídio e na fábrica. Isso dá uma clareza ao que eu quero dizer. E é triste porque as pessoas acham que a solução para este tipo de situação que estamos vivendo é mais trabalho. Não deveria ser. O projeto para o desenvolvimento era que trabalhássemos menos e usufruíssemos mais. Em lugares civilizados isso é uma realidade para algumas classes sociais.

Você brinca muito com o tempo no livro, o relógio às vezes anda para trás.

Nas relações de trabalho, o patrão é o dono do tempo. A gente não se dá conta que passa dez horas dentro de um lugar fazendo uma coisa que não quer fazer. Por que produzir coisas que a gente nem sabe para que servem? Mas o mais terrível é a compra do tempo. Você chega e bate o cartão. Como o seu tempo não lhe pertencesse. Era uma humilhação ser chamado no RH para assinar as férias, por exemplo, e ficar lá esperando horas. O mundo do trabalho é vampiresco mesmo.

Em determinados momentos, você relata rapidamente cenas de violência urbana: carros de autoridades que explodem ou são metralhados.

Fiquei muito impressionado quando houve aqueles ataques em 2006 em São Paulo. Estava ensaiando uma peça e a polícia apareceu no teatro e disse que a gente tinha que ir sair dali porque ele iria fechar. Os policiais estavam com medo. As ruas ficaram vazias e as pessoas evitavam ficar perto dos carros de polícia. Era a barbárie, a degradação. Isso pontua o livro. Outra coisa em Luxúria é que ninguém fala o que pensa. Isso é a cara da gente, essa situação de hipocrisia generalizada.

(Foto de Cris Bierrenbach)