“Mamãe & Eu & Mamãe”, de Maya Angelou

4/04/2018 6 visualizações

“Autobiografias são terrivelmente sedutoras. Quando comecei a escrever, percebi que estava seguindo uma tradição estabelecida por Frederick Douglass, que é a narrativa escrava. Falando na primeira pessoa do singular sobre a terceira pessoa do plural. Sempre dizendo ‘eu’, que significa ‘nós’”. (Maya Angelou no documentário “E ainda resisto”, disponível na Netflix)

Vivian Baxter e Bailey Johnson decidiram se separar quando os filhos eram pequenos e, de comum acordo, enviaram as duas crianças, de 3 e de 4 anos, sozinhas, num trem do Missouri para a casa da avó paterna, mãe de Bailey, no Arkansas. O pai visitava as crianças sem avisar e, numa das viagens, decidiu levá-las de volta para a casa da mãe. Maya Angelou, a mais nova, tinha 7 anos quando foi passar uma temporada com Vivian e sofreu um de seus maiores traumas: o namorado da mãe a estuprou, em casa. Após contar para o irmão que havia sido violentada, o agressor foi preso e, solto logo depois, foi encontrado morto. Com medo do poder de suas palavras, que causaram até a morte de alguém, ela passou os cinco anos seguintes sem falar. Já de volta ao Arkansas, ela leu e decorou de Shakespeare a Balzac, passando pelos grandes clássicos da literatura mundial que lhe caíam às mãos. Maya frequentava os cultos da igreja protestante e a casa de uma senhora, vizinha da avó, que lia poemas para ela. Essa senhora um dia a desafiou dizendo que um poema só pode ser entendido e sentido quando se sabe lê-lo. A menina voltou a falar.

Quando completou 13 anos, Maya voltou para o estado da Califórnia, com o irmão, para se reconciliar com a mãe. Se logo cedo ela percebeu que as palavras, as músicas de louvor e a literatura tinham poder, foi na convivência com Vivian Baxter, a mãe a quem ela chamava de Lady, que ela aprendeu a enfrentar o racismo e o machismo e ganhou o afeto necessário para se tornar uma mulher independente e com autoestima. Dançarina, cantora e militante, Maya foi convencida por um editor a relatar as suas histórias incríveis em livros. A escritora e poeta lançou então uma série de autobiografias, entre elas “Mamãe & Eu & Mamãe”, em que conta a história de sua relação com a mãe e como, com a força dela, enfrentou episódios difíceis de sua vida, entre eles o espancamento que sofreu de um namorado e a gravidez não planejada de seu único filho.

Vivian Baxter é uma personagem tão importante e forte quanto Maya. Enfermeira, agente imobiliária, dona de casas de bilhar e apostas, empresária respeitada na São Francisco dos anos 60 e 70, Vivian aprendeu com o pai e os irmãos que deveria enfrentar qualquer briga na rua no braço. Destemida, ela arrumou um emprego num navio ao descobrir que mulheres que trabalhavam na marinha mercante eram proibidas de se filiarem ao sindicato da categoria. Quando a filha surgiu com o dilema de aceitar ou não ser dançarina e stripper numa casa noturna de Los Angeles, ela não titubeou: levou Maya para comprar os figurinos e a apoiou. Foi contra o casamento da filha, com um homem branco, mas a recebeu de braços abertos quando Maya se separou. “Minha mãe me dava exemplos de coragem grandes e pequenos. Estes últimos ficaram entremeados com tanta sutileza na minha psique que mal consigo distinguir onde termina a minha mãe e eu começo.”

“Mamãe & Eu & Mamãe” é o segundo título do selo Rosa dos Tempos, relançado este ano pelo Grupo Editorial Record. O livro chega às livrarias em abril.

ORELHA:

Por Giovana Xavier

Como não amar?

Atriz, bailarina, cantora, diretora de cinema, Maya Angelou (1928-2014) é uma mulher de muitos caminhos. Caminhos abertos que contrastam com definições lineares do que é ser uma Intelectual Negra. Fortemente influenciada pela avó, responsável por seus cuidados em boa parte da infância, a escritora é dona de um estilo literário ponta de lança, muito bem exemplificado na instigante frase “E eu me levanto”, presente no poema homônimo, imprescindível para compreensão das experiências de Mulheres Negras no mundo.

É do ato político de erguer-se que brota o livro Mamãe & Eu & Mamãe. Audaciosamente escrito e editado no formato 2 em 1, em Mamãe & Eu, Maya assegura o direito de narrar em primeira pessoa seu papel como filha da apaixonante empresária Vivian Baxter. Já em Eu & Mamãe, ela nos presenteia com um refinado deslocamento da filha-autora, no qual sua mãe ganha a cena como a querida Lady, uma mulher que luta de formas nada convencionais para colocar em prática o amor aos dois filhos.

Conduzindo-nos a um portal no qual acessamos em profundidade temas como casamento, cuidado, família, maternidade, lazer e trabalho, tendo como pano de fundo os EUA da segregação racial e da luta por direitos civis, Mamãe & Eu & Mamãe é um clássico, representativo do universo no qual Mulheres Negras são do começo ao fim autoras, sujeitas e donas de suas próprias histórias.

Marcada por um intervalo de cinco anos entre a primeira edição e esta que temos em mãos, a obra chega ao público brasileiro em pleno 2018, data em que completamos 130 anos da abolição da escravatura. Termos no Brasil, país de maioria negra e feminina, um livro que fala do ato político de amar, empreendido por Mulheres Negras que escalam as “alturas impossíveis”: como não amar?

*Historiadora, Professora da Faculdade Educação da UFRJ, coordenadora do Grupo Intelectuais Negras

TRECHO:

“Telefonei para a minha mãe. ‘Vou para Nova York e adoraria que você viesse me encontrar em Bakersfield ouFresno. Queria ficar um pouquinho com você antes dedeixar a Costa Oeste.’

Ela disse: ‘Oh, meu amor, eu também quero te ver, porque vou me aventurar no mar.’

‘Se aventurar onde?’

‘Eu vou me tornar marujo.’

Perguntei: ‘Por quê, Mãe?’ Ela tinha licença de agenteimobiliária e havia sido enfermeira e era dona de um cassinoe um hotel. ‘Por que você quer se aventurar no mar?’

‘Porque me disseram que nenhuma mulher pode participardo sindicato deles. Insinuaram que o sindicatocom toda a certeza jamais aceitaria uma mulher negra.Eu disse: ‘Querem apostar?’  ou enfiar o pé na porta deles até o quadril e só tirar depois que todas as mulherespuderem entrar nesse sindicato, embarcar num navio eir para o mar.’

Eu não tive dúvidas de que ela faria exatamente o quedisse. Nós nos encontramos alguns dias depois em Fresno,na Califórnia, em um hotel que recentemente passara apermitir a entrada de negros. Eu e ela chegamos ao estacionamentoquase ao mesmo tempo. Quando apanhei aminha mala, Mamãe disse: ‘Ponha isso no chão, ao ladodo meu carro. Ponha aí. Agora venha.’

Entramos no saguão. Mesmo naquele hotel, recentementenão segregado, as pessoas ficaram literalmenteespantadas ao verem duas negras entrando. Minha mãeperguntou: ‘Onde está o carregador?’ Alguém caminhouaté ela. Então, ela disse: ‘As minhas malas e a mala da minhafilha estão lá fora ao lado do Dodge preto. Por favor, traga-as para cá.’ Eu a segui enquanto ela ia até o balcão edizia ao recepcionista: ‘Sou a Sra. Jackson e esta é a minhafilha, a Srta. Johnson. Temos duas reservas.’

O recepcionista olhou para nós como se fôssemoscriaturas selvagens. Olhou para a agenda e descobriu quede fato tínhamos reserva. Minha mãe pegou as chavesque ele nos ofereceu e acompanhou o carregador com asmalas até o elevador.

Lá em cima, paramos em frente a uma porta e ela disse: ‘Pode deixar minha bagagem aqui com a da minha pequena.’ Ela deu uma gorjeta ao homem.

Mamãe abriu sua mala e, no topo, sobre suas roupas,havia um revólver calibre 38. Ela disse: ‘Se eles não estivessempreparados para a integração racial, eu estariapreparada para lhes mostrar isso aqui. Meu amor, procureestar preparada para qualquer situação que você possa encontrarpela frente. Não faça nada que acredite ser errado.Faça simplesmente o que acha que é certo e depois estejapreparada para bancar sua decisão, ainda que seja com asua própria vida. Tudo o que você disser deve ser dito duasvezes. Ou seja, uma vez você diz para si mesma e, em seguida,se prepara para dizê-lo nas escadarias da prefeiturae esperar vinte minutos até atrair uma multidão. Nuncafaça isso para ser notícia. Faça para que todos saibam queo seu nome é sua garantia, e que você está sempre prontapara bancar o seu nome. Nem toda situação negativa podeser resolvida com uma ameaça de violência. Confie emseu cérebro para encontrar a solução e, depois, tenha acoragem de segui-la.”

 

SOBRE A AUTORA:

Maya Angelou(1928-2014) foi cantora, atriz, dançarina, ativista, cineasta, escritora e mãe. Além das autobiografias, que incluem o bestsellerEu sei por que o pássaro canta na gaiola, ela escreveu diversos livros de poesia entre eles PhenomenalWoman, And Still I RiseeOnthe Pulse ofMorning.

www.mayaangelou.com