“Manual do covarde”, de Guilherme Fiuza

15/08/2018 394 visualizações

Por Nelson Corrêa

Em seu novo livro, o jornalista Guilherme Fiuza mais uma vez aponta sua crítica para a corrupção capitaneada pelo PT durante seu período na presidência da República. Relato inédito, documentado e muito bem-humorado, “Manual do covarde” cobre o período que começa com impeachment de Dilma, passa pela operação Lava-Jato e chega até a prisão de Lula, em abril de 2018. No texto, Fiuza ensina o modus operandi daqueles que considera os covardes: personagens que simulam altruísmo para obtenção de ganhos pessoais, e que estão em todas as esferas da sociedade, não somente na política.

O autor pode ser considerado um antipetista de primeira hora: sua obra é um registro de quem nadou contra a maré do partido desde o primeiro governo Lula até o impeachment de Dilma. Entre os textos assinados por ele durante este tempo estão por exemplo os livros “Não é a mamãe – Para entender a era Dilma” (2014) e “Que horas ela vai? O diário da agonia de Dilma” (2016), que reúnem dezenas de artigos publicados semanalmente na imprensa brasileira, sempre batendo forte nos líderes do partido.

O estilo claro e informativo de Fiuza já é conhecido do público de best-sellers como “Meu nome não é Johnny” (2007) e “3.000 dias no bunker” (2006) – que tiveram adaptação para o cinema. Nesta entrevista, Fiuza comenta práticas e figuras que ele chama de “demagogia coitada” e “cafetão da bondade”, por exemplo.

 

“Manual do covarde” seria ainda mais engraçado, não fossem seus relatos tão trágicos. Como manter o humor quando se trata de PT & cia?

R: Achei que a ideia do “Manual” seria uma ironia interessante pro título do livro. Quando me dei conta, estava levando a “farsa” adiante no texto, e não consegui mais sair dela – felizmente. É muito eficiente tratar falsos heróis como heróis… A falsidade e o ridículo deles ficam mais evidentes. Criar expressões como “roubar dos pobres para dar aos defensores dos pobres” é o meu brinquedo predileto – e a matéria-prima está toda aí, abundante: personagens que se dizem progressistas, simulam solidariedade para ter poder e continuam sendo levados a sério… Contando ninguém acredita.

Quem são e onde estão os covardes a que você se refere?

R: A grande covardia do mundo atual é a simulação de altruísmo para obtenção de ganhos pessoais e paroquiais – ou seja, um paradoxo. Você pode hoje tranquilamente conquistar espaço, voto e grana só com slogans politicamente corretos, sendo a pessoa mais egoísta do mundo. Ninguém nota! (Rs) Esses covardes estão por toda parte. Dedico especial atenção aos do STF, do Ministério Público, das artes (sic), dos partidos que se dizem de esquerda, enfim, pra onde você olhar você vai encontrar um cafetão da bondade patrulhando o inimigo imaginário e se dando bem com isso.

Qual o peso das redes sociais sobre a participação política do cidadão comum? Há uma guerra de informações – ou de narrativas – que deixa todo mundo desnorteado. Como o sujeito consegue se defender no meio desse tiroteio?

R: A internet e as redes sociais não são um ente, não são nada. São só um meio. Quem consome informação continua tendo a mesmíssima responsabilidade por seu próprio discernimento, como era com a imprensa marrom, as revistas sensacionalistas, as fofocas de salão de cabeleireiro ou as discussões de bar. Não é porque a discussão de bar foi pra dentro do computador que você passa a conferir solenidade a ela. Ainda vão entender que o herói do Facebook e o do botequim são a mesma pessoa.

Como Lulinha Paz&Amor consegue encantar personalidades internacionais como Barack Obama, Bono Vox, Papa Francisco, Esquivel e outros tantos?

R: Não é que ele os encante. É encantado por eles. Todos esses se dão bem fingindo defender o falso defensor dos pobres. Uma das teses do Manual é a do falso despertar político: explodiu um imenso mercado para causas humanitárias de 1,99, onde ninguém checa nada direito e um herói fake que regeu o maior assalto da história das democracias e foi em cana por isso continua sendo tratado como oprimido. A demagogia coitada é o investimento mais seguro para o picareta moderno.

A classe artística brasileira é PT de carteirinha e, pelo jeito, releva todas as acusações de corrupção, pedaladas e armações afins. A palavra desses formadores de opinião pesa sobre a opinião pública?

R: Ninguém é PT. Estão todos fantasiados de altruístas com o truque mais à mão, exatamente como ocorre em Hollywood, onde um narcisismo infantil fantasiado de consciência social resulta até em apoio ao sanguinário Maduro para tentar descolar um verniz socialista. É patético – e, naturalmente, covarde.

O PT tem salvação? Você vê, de alguma maneira, que o PT consiga se reestruturar e voltar à presidência?

R: O PT não tem a menor importância. Se o PT acabar, o truque dos parasitas disfarçados de progressistas prospera no PSOL, na Rede, no PDT, no PC do B… A grande malandragem é forjar uma “decepção” com a suposta traição aos ideais humanitários, quando não houve traição alguma: todos eles foram e têm sido absolutamente fiéis aos seus verdadeiros propósitos, que é afetar solidariedade como meio de vida.

Lula consegue sair da cadeia a tempo de se candidatar?

R: Acho que Lula preso ou solto não muda nada. O que muda tudo é a percepção de quem ele é – e uma das linhas centrais do Manual do Covarde é justamente o que vai acontecendo com o dogma da santificação dele, que vai sendo minado a duras penas pela avalanche de evidências. Ao final da leitura, se você tiver compreendido as lições da verdadeira covardia, terá a desinibição necessária para perguntar cadê as provas.

Você já está trabalhando no segundo volume do “Manual do covarde”? Não falta assunto.

R: Temos covardia na praça pra uma antologia de dez volumes! Enquanto houver malandro se escondendo atrás da falsa dicotomia direita x esquerda e bancando o justiceiro ou o misericordioso das almas imaginárias estaremos aí para legendar as piadas prontas.