“Memória de minhas putas tristes”,Gabriel García Márquez”

20/02/2016 53 visualizações

Por Mariana Moreno

A julgar pelo título, pode-se esperar que “Memória de minhas putas tristes” seja um romance erotizado. E logo na primeira frase, o leitor pode sentir um certo desconforto ao imaginar a concretização do desejo do protagonista:  “No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem”. Mas, ao conhecermos com mais profundidade o professor e jornalista nonagenário, descobrimos que se trata de uma história sobre envelhecimento, solidão, amor e, sobretudo, vida.

O narrador-protagonista vive sozinho em uma casa deixada de herança pelos pais e escreve crônicas para um jornal aos domingos. Durante toda sua vida, pagou por sexo (“O sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança”). Aos 20, começou a contabilizar com quantas mulheres já havia transado e parou de contar aos 50, quando estava na marca de 514. As experiências seguintes, mais espaçadas conforme a idade ia chegando, foram contadas na mão. Em meio a essas aventuras, quase casou, mas abandonou a noiva no dia do casamento.

Tudo mudou quando resolveu se presentear com a noite de sexo com a adolescente virgem na comemoração pelos 90 anos. Aquilo que parecia a realização de um desejo derradeiro na verdade representou um novo fôlego para uma vida mais leve e plena, ainda que o plano com a jovem não tenha saído exatamente como o planejado.  A vida monótona e cinzenta ganhou um brilho diferente. Ele começou a reler clássicos e retomou o ânimo para escrever as crônicas, que passaram a ter o amor como tema principal.

“Memória de minhas putas tristes” é um livro sensível que traz à tona a solidão de um homem que sempre teve a vida movida pelo sexo. O incômodo da diferença de 76 anos entre a adolescente e o protagonista vai se amenizando na medida em que vão sendo revelados os códigos desta “relação”. Sobretudo porque a grande descoberta do nonagenário é um despertar tardio para a vida (muito mais do que para o amor), que aconteceu ironicamente quando sua bela estava adormecida.

Trecho

“Saí radiante para a rua e pela primeira vez me reconheci no horizonte remoto do meu primeiro século. Minha casa, calada e em ordem às seis e quinze, começava a gozar das cores de uma aurora feliz. Damiana cantava a toda na cozinha, o gato redivivo enroscou a cauda em meus tornozelos e continuou e continuou caminhando comigo até a minha mesa de escrever. Estava organizando meus papéis murchos, o tinteiro, a pena de ganso, quando o sol explodiu entre as amendoeiras do parque e o barco fluvial dos correios, atrasado uma semana por causa da seca, entrou bramando no canal do porto. Era enfim a vida real, com meu coração a salvo, e condenado a morrer de bom amor na agonia feliz de qualquer dia depois dos meus cem anos.”