“Meshugá”, de Jacques Fux

7/11/2016 239 visualizações

Por Manoela Sawitzki

Jacques Fux está lançando seu novo livro pela editora José Olympio.  Meshugá  é um romance que reinventa a vida e a obra de diversas personalidades – da filósofa Sarah Kofman ao cineasta Woody Allen – no intuito de desvelar os mistérios da insanidade, do auto-ódio, do olhar perverso do outro e do erotismo. Misturando dados históricos, literários e ficcionais desses célebres personagens, o narrador entra na mente de seus protagonistas buscando construir seu próprio “ensaio sobre a loucura”. Alternando capítulos narrativos com ensaios ficcionais que dialogam e ironizam os dados históricos e científicos sobre a loucura, Meshugá é um livro intenso, profundo, potente, que propõe uma leitura marginal da história e da literatura.

 Meshugá, como é dito logo nas primeiras linhas, trata de mitos e crenças atribuídas (pela cultura, pela História e muitas vezes pela ciência) ao louco judeu, ou ao judeu como louco potencial.  Por que decidiu investir nesse tema?

A questão da loucura, de uma forma geral, é muito interessante e desafiadora. Caminha no limiar da dor, do sofrimento, do ridículo e do risível. De longe, bem de longe, parece algo controlável, algo passível de entendimento e compreensão. Mas quando você mergulha fundo, você se espanta e, por vezes, se apavora.  No meu livro, submergi em busca das raízes e histórias do “judeu louco no jardim das espécies” – uma releitura de um capítulo do livro História da Loucura, de Foucault. Quis investigar de onde viria essa palavra – meshugá ou mishigne (em ídiche) – que ouço e leio desde muito criança. Seria a nossa loucura mais especial e mais excêntrica do que as outras? Quais seus mitos e falácias? Como resolver o problema autoreferencial (lembrando da Alice no país das Maravilhas, ou do Alienista) de quem é/está realmente doido?  O que descobri, ou inventei, é que vivemos bem na fronteira da insanidade, da ficção e da realidade.

Sua pesquisa recente de pós-doutorado foi sobre testemunhos escritos da Shoá. Como essa investigação e esses textos atravessaram a escrita do livro?

O tema Shoá me é muito tocante. Especializei-me na questão francesa e como a França, depois do término da Segunda Guerra, resolveu ‘reescrever’ e ‘inventar’ a sua própria memória coletiva.  Segundo eles, todos foram contrários ao regime nazista e, por isso, decidiram esquecer os “detalhes” de sua participação no genocídio e seguir, felizes, em frente. Porém, não enfrentar a memória, se mostrou (e tem se mostrado) muito assustador. A onda de ódio que cresce na França contemporânea é, sem dúvidas, fruto desses muitos anos de silêncio, de ficção e de recalque em relação à sua participação e coautoria na Shoá. Nesse período de estudo, conheci a minha personagem Sarah Kofman, que abre dolorosamente o livro.  Sua história é pesada, sofrida, implacável.  Ela foi uma criança que viveu na pele a perversidade da sociedade francesa. Conseguiu sobreviver, mas não foi capaz de enfrentar a própria memória. No meu livro tento entrar na cabeça dessa filósofa. Dessa que foi uma das maiores acadêmicas francesas. Dessa mulher/criança que nunca suportou seu corpo, sua história, e ter sido “salva” do extermínio.

O narrador de Meshugá é tragado, numa espécie de efeito Zelig, por esses personagens que acabam sustentando ou ilustrando mitos que pretendia derrubar. Todos os personagens de que fala e as teorias científicas que apresenta são/foram reais, certo? Há, portanto, uma gravidade e um enorme risco em jogo, ambos difíceis de contornar. Qual foi sua margem para apropriação e invenção em relação aos personagens e suas trajetórias?

Sim! Gosto muito desse “efeito Zelig”! O narrador conta a história de vários personagens, mas acaba se metamorfoseando em todos eles. Ele se torna seus protagonistas, e eles, seus heróis, sufocam, intimidam e apavoram o próprio narrador. Mas, é tudo ficção – essa é a beleza e a leveza do livro e da literatura, talvez. Apesar de toda leitura teórica e biográfica, tudo inventado. O narrador entra na cabeça de seus personagens, imagina que assim pode desvelar a loucura e o sofrimento do outro. Sonha em descobrir os mistérios e os segredos que levou, alguns, ao ato derradeiro. Mas o narrador é limitado. Ele está preso na sua própria experiência. E por mais que deseje ser honesto e fiel à “verdadeira” história biográfica e canônica, mais e mais ele tem que criar.

Os entreatos em que são apresentadas teorias científicas (muitas aspas aí), como a de Fliess, interlocutor de Freud, e sua tese sobre a menstruação masculina, são fiéis às teorias originais?

Essa questão da apropriação e da citação permeia minha literatura. No mundo acadêmico, somos obrigados a sempre ser fiéis em relação às referências, porém, na literatura, sobretudo a contemporânea, podemos (e devemos) subverter toda essa lógica e toda essa prisão. Jorge Luis Borges criou biografados, críticos, autores e leitores que não existiram. Georges Perec plagiou citações e referências e, se não conhecêssemos suas regras, diríamos que tudo aquele é dele. Em meus livros levo isso ao extremo. Há citações exatas, fiéis, honestas. Mas há muita invenção, muitas digressões, muita liberdade. Chamo isso de plágio literário. Fliess e Freud se corresponderam. Questionaram-se sobre a menstruação masculina… mas poderiam não ter feito isso. Ou poderiam ter feito (será que fizeram?) de outra forma.

O narrador do livro acreditava que seria possível falar dessa loucura com humor e ironia, mas isso se revela uma impossibilidade, ou uma possibilidade restrita. O diretor Woody Allen, ele também personagem do livro, tem explorado em muitos de seus filmes os estereótipos dos judeus neuróticos, usando, inclusive, elementos de sua própria família. O humor, recurso que você também tem usado como autor, torna-se difícil aqui, diante da loucura concreta. Como foi esse processo, a quebra da expectativa do projeto inicial?   

O narrador começa o livro imaginando que toda neurose, loucura e perversão judaica não passaria de algo risível e ridículo. Sim, ele imaginava apenas narrar ludicamente a história dos outros, não se envolvendo com seus tormentos. Ele até escreve o livro em terceira pessoa, para se distanciar ainda mais. Mas não é nada disso que se sucede. Ele se consubstancia – há uma coautoria, uma criação compartilhada, um calvário dividido. Há também um estudo sobre o humor – esse humor que quer enfrentar o dominador, mas que subjuga e inferioriza o próprio dominado. Em muitos momentos – como é visto nos filmes de Woody Allen, ou em escritores como Philip Roth, Saul Bellow – o narrador ri e ironiza diversas situações, mas, lá no fundo, ele está se transformando e se transtornando. O chiste aqui é violento e implacável.

Alguns personagens do livro trazem à tona algo que pode parecer impensável, o antissemitismo entre judeus. Você pode falar um pouco sobre esse ponto?

Quando meu primeiro livro Antiterapias, recebeu o Prêmio São Paulo de Literatura, muitas pessoas começaram a conhecê-lo. Vários comentários sugerindo um suposto auto-ódio ou antissemitismo do autor/narrador apareceram. Como o livro foi classificado como uma autoficção, as críticas foram direcionadas a mim. Já que tenho um projeto literário, e algumas dessas questões levantadas no meu primeiro livro foram pensadas a priori, resolvi ir a fundo no problema do auto-ódio. Ao longo da minha história literária, fui colecionando esses judeus que queriam se desvencilhar das amarras culturais e estereotipadas, mas que acabaram se atolando cada vez mais nelas. No livro, decidi apresentar os casos mais extremos: o judeu que criou o Partido Nazista e foi membro da KKK nos EUA, o filósofo que se tornou referência de Hitler, e se matou por ser judeu e homossexual. E essa teoria se estende a vários grupos minoritários que, sendo atacados, acabam assimilando toda ideia preconceituosa e odiosa que lhes é atribuído.

Mas esses livros não poderiam ser escritos por um não judeu, concorda? Falar “de dentro” de uma herança, desse lugar do pertencimento é um risco, mas também te dá legitimidade.

Sim e não. Pode ser que a recepção da minha obra, por eu ser judeu, seja diferente. Pode ser que eu tenha um pouco mais de liberdade, mas o olhar do crítico e do leitor ainda é atento e inquisidor. Acho que falar de dentro, falar com propriedade, com estudo, com pesquisa e com investigação criteriosa, é o fazer literário no mais belo ato de concepção. Tudo é um risco, mas tudo também é um jogo, uma brincadeira com as letras e com a ficção.

A loucura seria, para alguns, o preço da sobrevivência (quando não própria, de uma sobrevivência ancestral, rastro, portanto, de perseguições, diásporas, extermínios)?

Alienação, ironia, distanciamento – tudo ajuda a seguir caminhando. Mas, como é mostrado no livro, uma hora isso vai ressurgir e deflagrar uma série de eventos. E cada um vai enfrenta-los de uma forma bem original.

O que nos leva a Ron Jeremy, “um cara feio, gordo, baixinho e cabeludo” que se torna um porn star, o Mister Fucking Jew. Ele seria a personificação do que você chama de “sofrido humor judaico”?

Ron Jeremy existe. Todos podem dar um google e encontra-lo esbanjando seus atributos! A questão do Ron Jeremy é o mito que os judeus seriam mais sexualizados e tarados que o resto da população. Ele se encaixa bem nessa questão. Mas, mesmo cultuado e louvado, sofre muito com isso. É visto como um abjeto – alguém desejado e desprezado. Alguém idolatrado, mas que todos o querem bem longe de si. Será que isso seria a questão judaica também?

Esse humor pode ser visto como uma estratégia de sobrevivência? Nos exemplos que seu livro traz, parece que onde o humor tonou-se impossível, aconteceram os piores danos…

Acho que o humor e a tragédia andam juntos. Onde há perseguição, depreciação, ódio e violência, há também uma tentativa – por mais simples que seja – de combate e enfrentamento. E, muitas vezes esse confronto se dá através da ironia, do humor, do chiste. Por isso, nos meus livros, sempre podemos encontrar uma forma debochada de guerrilha!