“Meu livrinho vermelho”, de Rachel Kauder Nalebuff

19/03/2016 39 visualizações

Por Helena Mayrink

Logo na introdução, a organizadora Rachel Kauder Nalebuff já anuncia: “a primeira menstruação é um tema constrangedor. Meu livrinho vermelho está aqui para mudar isso”. Lançado em 2012 pela Galera, a obra tem tudo a ver com o mês das mulheres – e faz companhia forte à volta de O papel de parede amarelo às livrarias e ao lançamento de Vamos juntas? – O guia da sororidade para todas.

Composto por relatos da primeira menstruação, de 1916 a 2008, de mulheres de diferentes idades, gerações e criações, o título virou best-seller do New York Times. A inspiração para a antologia surgiu quando tão marcante acontecimento se tornou uma realidade para Rachel, que, ao ter sua novidade compartilhada com toda a família, percebeu quantas histórias sobre o assunto existiam ali e que jamais seriam contadas.

Dos Estados Unidos à China, passando por lugares como Guatemala, Quênia, Gana e Turquia, vêm temas universais: relacionamentos com familiares, falta de confiança, diversidade cultural, dificuldade de lidar com o crescimento. Aqui, textos de figuras conhecidas, como a ativista Gloria Steinem e a escritora Meg Cabot, encontram poesias sobre “virar mocinha”, um parágrafo escrito por uma cega, uma conversa por mensagens instantâneas de uma adolescente americana e outras tantas vivências – algumas vindas de tradições e situações bem diferentes das que estamos acostumadas.

Meu livrinho vermelho tem uma mensagem simples: não há motivos para sentir vergonha de seu corpo. Mais do que uma forma de mostrar às meninas o que elas devem esperar e lembrá-las de que não estão sozinhas, a obra surge como uma ponte de diálogo. Afinal, menstruação ainda é um tabu. E até quando mulheres entenderem e trocarem experiências sobre seus próprios corpos será considerado algo estranho?

Leia um trecho:

“Eu tinha onze anos de idade quando tive ‘A Praga’ pela primeira vez, que era a gíria para o período menstrual em 1939. Eu sei, eu sei, acontece com todas as garotas em algum momento de sua juventude. A diferença era o meu ambiente. Eu morava em um orfanato, que na verdade era uma instituição para meninos e meninas cujos pais não podiam tomar conta de seus filhos e tinham um emprego ao mesmo tempo, especialmente durante a Grande Depressão. Havia 125 crianças alojadas em seis prédios, uma mistura de meninos e meninas. Minha primeira menstruação chegou à mesa do jantar. Eu não fazia ideia do que estava acontecendo. Lá estava eu, sentada à mesa, como sempre, exceto que havia algo molhado escorrendo pela minha perna. Primeiro eu pensei que uma das outras crianças havia derramado leite. Não. Não era isso. Olhei debaixo da mesa e ali, perto da minha cadeira, estava uma pequena poça de sangue. O que estava acontecendo? O que eu faria agora? Devíamos pedir permissão para deixar a mesa; eu só me levantei e corri para o banheiro. Para o andar de cima eu fui, arranquei minha calcinha, sapatos e meias, todos cobertos de sangue. De onde ele tinha vindo? E como?”