“Moriarty”, de Anthony Horowitz

13/02/2016 46 visualizações

Por Thaís Britto

Não é exatamente uma história de Sherlock Holmes, já que o famoso detetive e seu parceiro, o Dr. Watson, não participam da ação. Mas “Moriarty”, de Anthony Horowitz, é diversão garantida para os fãs que já devoraram todas as aventuras da dupla escritas por  Arthur Conan Doyle e sentem saudade das histórias de mistério passadas na Inglaterra vitoriana. Escolhido pelos herdeiros de Doyle para levar à frente seu legado, Horowitz consegue navegar pelo universo do brilhante detetive usando algumas das melhores influências do escritor britânico: uma história bem contada que fisga o leitor, o clima sombrio da Londres do século XIX, as surpresas e reviravoltas, e o carisma e a química de uma certa dupla de protagonistas.

A história começa logo após o incidente das cataratas de Reichenbach narrado por Doyle  em “O problema final”. Neste clássico de 1893, a  trama se encaminha para um desfecho impressionante: o embate final entre Sherlock Holmes  e seu arqui-inimigo, Moriarty, enfim acontece, nas cataratas. Depois de lutarem, os dois encontram seu fim ao despencarem lá de cima. No começo de “Moriarty”, o detetive Athelney Jones, da Scotland Yard, é enviado para investigar o crime. O corpo de Moriarty (será?) é encontrado no local e, com ele, um bilhete que sugere a existência de um novo e perigoso criminoso em Londres. Jones conhece ali também o detetive Frederick Chase, da agência Pinkerton, de Nova York. Ele está na Europa seguindo as pistas de Clarence Devereux, um perigoso bandido americano que tenta se estabelecer em Londres. Os dois dois se unem para descobrir o paradeiro do vilão.

Horowitz faz ótimo uso das referências na construção da dupla de protagonista: Athelney Jones já havia sido visto em histórias anteriores como mais um daqueles detetives simplórios que acaba humilhado por Holmes na resolução de um caso. Na imaginação de Horowitz, no entanto, o trauma faz com que ele fique obcecado pelo gênio e tire uma licença para aprender tudo sobre seus métodos dedutivos. Já Chase faz as vezes de Watson, narrando a história e servindo de ajudante. Os dois chegam a fantasiar com o aluguel de um apartamentinho na Baker Street e em “arrumar uma sra. Hudson para cuidar deles”.

Leia um trecho de “Moriarty”:

“Sua estratégia era óbvia. Ela queria falar comigo a sós e havia tomado providências para esse fim. Durante toda a noite, eu me divertira observando meu amigo, Athelney Jones, na privacidade de seu lar. Tão enérgico e determinado quando desenvolvia sua investigação, era muito mais quieto e menos expressivo na companhia da esposa. A proximidade dos dois era indiscutível. Eles enchiam os silêncios um do outro e antecipavam suas necessidades. No entanto, eu teria dito que ela era de longe a pessoa mais forte do casal. Em sua companhia, Jones perdia muito de sua autoridade e isso me fez pensar que até Sherlock Holmes poderia ter sido um detetive inferior se tivesse optado por se casar.

Seu marido se levantou. Ele pegou o embrulho, deu-lhe um beijo gentil na testa e deixou a sala. A mulher esperou ouvir a porta abrir e fechar. Depois olhou para mim de uma maneira completamente diferente, não mais a anfitriã, e percebi que estava me avaliando, decidindo se me atrairia para um círculo íntimo de confidência.

— Meu marido me disse que o senhor trabalha como detetive para a Pinkerton há algum tempo — começou ela.

— Por mais tempo do que me lembro, Sra. Jones — respondi. — Embora, estritamente falando, eu seja um investigador, não um detetive. Não é exatamente a mesma coisa.

— Qual é a diferença?

— Somos mais diretos em nossos métodos. Um crime é cometido. Nós o investigamos. Mas, na maioria dos casos, é simplesmente uma questão de procedimento, o que quer dizer que, diferentemente dos britânicos, não somos tão favoráveis à duplicidade e ao engano.

— O senhor gosta desse trabalho?

Refleti por um momento.

— Sim. Há pessoas neste mundo que são muito más, que não trazem nada além de sofrimento para outras, e penso que é certo coibi-las.

— O senhor não é casado?

— Não.

— Nunca se sentiu tentado a isso?

— A senhora é muito direta.

— Espero não o ter ofendido. Desejo apenas conhecê-lo um

pouco melhor. É importante para mim.

— Neste caso, vou responder à sua pergunta. Claro que já me senti tentado a casar. Mas sou de natureza solitária desde criança, e, nos últimos anos, tenho permitido que meu trabalho me consuma. Gosto da ideia do casamento, mas não estou seguro de que para mim seria o ideal. — Eu me sentia incomodado com o rumo que a conversa estava tomando e tentei mudar de assunto. — A senhora tem uma bela casa, Sra. Jones, e uma família encantadora.

— Meu marido o aprecia muito, Sr. Chase.

— Pelo que sou muito grato.

— E eu me pergunto que ideia o senhor faz dele.

Pousei minha xícara de café.

— Não sei ao certo se entendi o que a senhora quer dizer.

— O senhor gosta dele?

— Quer mesmo que eu lhe responda?

— Eu não teria feito a pergunta se não quisesse.

— G osto muito dele. Ele me acolheu como um estrangeiro neste país e tem sido particularmente bondoso comigo, quando outros, tenho certeza, teriam sido difíceis. Ele é também, se posso dizer isso, um homem brilhante. Na verdade, eu iria além e acrescentaria que nunca conheci um detetive como ele. Seus métodos são extraordinários.

— Ele lhe lembra alguém?

Fiz uma pausa.

— Ele me lembra Sherlock Holmes.

— Sim. — Sua voz ficou subitamente fria. — Sherlock Holmes.”