“Na medida do possível”, de Fernando Rocha

21/08/2018 181 visualizações

Por Natalia Castro

Jornalista e apresentador do programa “Bem estar”, da TV Globo, Fernando Rocha define seu primeiro livro, “Na medida do possível”, como um “não manual para uma vida saudável e feliz”. Ao longo das 150 páginas da obra, não é difícil entender por quê. Rocha não impõe regras ou dá dicas de dietas da moda, muito menos tenta doutrinar seu leitor. Com muito bom humor, linguagem coloquial e uma prosa que cria empatia imediata com quem está lendo, o mineiro fã da costelinha frita da mãe, de pão de queijo e de cerveja de garrafa, abre o jogo em uma conversa franca, cujo produto final chega às livrarias pela BestSeller em setembro.

No texto, Fernando contempla o esforço para emagrecer 20 quilos no projeto apelidado de “Afina, Rocha”; narra a experiência no palco da “Dança dos Famosos”, quadro popular do “Domingão do Faustão”; e conta ainda sobre a preparação para correr a São Silvestre – ele já cruzou a linha de chegada cinco vezes. “Quis mostrar três desafios que são comuns às pessoas, de uma forma geral: emagrecer, correr e dançar. As pessoas não dançam por vergonha, não correm por falta de iniciativa e não fazem atividades físicas por preguiça”, diz Fernando na entrevista abaixo.

O apresentador fala ainda sobre um episódio de depressão que acabou atrasando um desses desafios – e é uma condição da qual ele se trata até hoje. Um relato sincero, ao mesmo tempo leve e divertido, que cativa até o leitor mais desajeitado, ou descompassado, a querer entrar no ritmo. E que mostra que o importante é estar bem, mesmo sem se adequar às medidas das passarelas.

Confira a entrevista completa a seguir.

 

“Na Medida do Possível” é um não manual e também um livro de encontros. Por quê? Afinal, a fórmula mágica não existe?

O manual não existe. Cada um que encontre a sua verdade, seu melhor jeito de viver a vida com saúde. E eu quero conversar com as pessoas durante os lançamentos, quero ter encontros com elas. Mais legal do que apenas assinar o livro é abrir espaço para falar, ouvir e responder.

De onde veio a vontade de escrever e dividir suas experiências com o público?

Quis mostrar três desafios que são comuns às pessoas, de uma forma geral: emagrecer, correr e dançar. As pessoas não dançam por vergonha, não correm por falta de iniciativa e não fazem atividades físicas por preguiça. Sempre gostei de tomar cerveja, faz parte da minha personalidade de mineiro, gosto de sentar na mesa do bar e conversar. E eu passei muito tempo me amparando nisso para defender que, embora metade de população estivesse acima do peso, eu não precisava mudar minhas regras, e que a balança não era e não é o único parâmetro de qualidade de vida e de vida saudável. O que me fez ter certeza de escrever o livro foi ter conseguido manter o peso depois de três anos. Eu me peso todos os dias, mas me permito nos fins de semana, tenho uma vida bem regrada.  Eu passo 80% do tempo com controle, 20% com menos, mas nunca sem controle. Quando vejo que estou engordando já me sinto incentivado a mudar. É muito mais difícil manter o peso do que fazer regime. O grande estímulo do livro é eu ter continuado magro, estar mantendo este peso nos últimos três anos e meio. Pode parecer que eu perdi o timing? Não. O timing é esse, história sendo contada porque estou segurando a onda todos os dias, com alegria, disposição e responsabilidade com o público.

E o processo da escrita em si, como foi?

Escrevi nos últimos dois anos, basicamente nos fins de semana e feriados em Ibiúna (município na região metropolitana de Sorocaba onde ele tem casa) e pedaços de férias maiores. Escrevi sozinho, relembrando os fatos com o auxílio de anotações que vinha fazendo. Primeiro, o que seria a corrida, o emagrecimento e a dança e o processo de depressão. Isso meio cronologicamente.

Você conta suas experiências com muitos detalhes, reprodução de diálogos e até com as notas e nomes dos jurados do Dança dos Famosos (você lembra bem da nota 7,8 dada pelo cenógrafo e carnavalesco carioca Renato Vieira rs). Você já vinha registrando isso com o intuito de escrever algo?

A minha participação no quadro foi muito marcante para mim. E aquele 7,8 não existe! Não se dá essa nota nem pra criança nem pra recém-nascido (risos). Aquilo me tirou do prumo totalmente, eu não iria para a repescagem. Não tenho mágoa, aproveitei o tempo que me foi dado, só acho “sacanagem” a nota tão baixa (risos). E os diálogos com os médicos foram sempre muito marcantes também, até hoje me lembro claramente de muitas conversas durante esse período.

Você fala de suas vitórias, mas também expõe abertamente suas derrotas, como a eliminação do Dança dos Famosos ou o episódio em que teve depressão durante a participação no quadro “Quem Dança Seus Males Espanta”, do próprio “Bem Estar”, e acabou sendo retirado da atração. É difícil se abrir assim?

Tem muito de mim no livro, eu espero que o público que gosta do “Bem Estar”, de me ver dançando e das minhas histórias, possa me conhecer um pouco mais e ver como eu engrenei os desafios por um outro viés, um lado que nem sempre foi mostrado, como de fato foi difícil e verdadeiro tudo o que passei. É um livro para pessoas que estiveram e estão do meu lado, para entender um pouco mais. É pra quem me curte e curte o programa falar “Nossa, mas foi assim? Perder 20 quilos em dois meses sem passar fome?” (risos).

Você está sempre animadíssimo no programa, é um sujeito alegre. Como é lidar com a depressão? Acha que esse diagnóstico pode soar surpreendente?

Eu faço terapia, fui diagnosticado com depressão. Ainda me consulto com o psiquiatra, é um tratamento que segue a vida toda. Mas segue sob controle, sei quais são os gatilhos que não devo puxar. As pessoas não associam a depressão a pessoas alegres e bem-humoradas.  Até penso em me aprofundar neste tema, vamos ver o que o público vai demandar.  É o meu primeiro filho agora, muito sincero, com muita verdade e empenho. A partir do que eu achar que foi interessante para as pessoas, posso ir me aprofundando.

Você declara no livro que nunca sentiu qualquer tipo de pressão da emissora para emagrecer, que a iniciativa foi sua. Mesmo assim, sentiu alterações na autoestima com 20 quilos a menos?

Sim, eu nunca fui obrigado. Eu fui escolhido para apresentar o programa porque representava a população acima do peso. Mas é saudável você se perceber mais magro em uma cadeira de avião, no ônibus, na bicicleta. Não é a fórmula da felicidade, mas um caminho bacana quando você faz de forma consciente, quando entende isso. E a minha grande alegria é a atividade física.  Faço pelo menos nove horas de atividades por semana. Aboli o carro, vou a pé para o trabalho, procuro dar 10 mil passos por dia. A linha que separa o cara ativo da pessoa sedentária é essa. Eu extrapolo e vou além.

E você conta, também, que o compromisso com o espectador do “Bem Estar” fez com que não desistisse da primeira São Silvestre. Esse acordo ainda pesa muito em suas decisões pessoais?

Isso aconteceu no primeiro ano do programa (em 2011). Eu tinha um compromisso ainda tênue com meu público e não sinto essa obrigação, tanto que contei que desisti de outro desafio, acabei contaminado pela depressão, e não pude continuar. E até hoje não entendi o que aconteceu. E eu já corri a São Silvestre cinco vezes, espero correr a sexta, sou movido por estes desafios, mas ainda me considero um representante dos gordinhos, que confunde a perna esquerda com a perna direita (risos), um representante de quem ainda não aprendeu, não emagreceu. Espero influenciar pessoas como influenciei na dança.

Como é a aproximação das pessoas na rua? Pedem conselhos para emagrecer, aquela dica de dieta mágica?

Atualmente o que está pegando muito é a história da clara com ovo e eu me divirto muito, as perguntas vão de acordo com a onda do programa, com o que está rolando. A gente fala de dança aí pedem que eu dance; falamos de assuntos sérios, me pedem dicas de médicos. Eu me considero aquela moça que fica na cabine do pedágio, ouve pedacinhos de várias histórias. Na verdade a gente tem uma cultura geral rica, mas não se aprofunda em nada. E o “Bem Estar” é um programa com informações úteis, práticas e rápidas, com médicos aos quais a população não tem acesso.

E seu estilo de vida atual ainda tem espaço para a comidinha da mamãe?

Sim. Durante a semana nada me tira do sério, não existem tentações, sendo assim me sinto liberado no fim de semana. No meu sítio em Ibiúna pratico esporte, mas também tomo cerveja com os amigos. A farra começa na sexta à noite e termina no sábado à noite. E em Belo Horizonte não existem restrições: costelinha, dobradinha e frango com quiabo, torta de palmito, de sardinha. E depois ainda tem sobremesa e eu como feliz. A mesa está sempre posta.