“Não tive nenhum prazer em conhecê-los”, de Evandro Affonso Ferreira

19/09/2016 195 visualizações

“Minha vida? Insípida? Desconfio que não há insipidez no vazio”, reflete o protagonista de Não tive nenhum prazer em conhecê-los. Nonagenário, habitante de um “quarto-claustro” e entregue ao que chama “decrepitude inescrupulosa”, o narrador do novo romance de Evandro Affonso Ferreira é alguém que experimenta um mergulho visceral na memória e na agonia das horas vazias. A aproximação da morte, a solidão, a loucura e a melancolia, que têm sido matéria-prima primordial para a prosa do autor, surgem ainda mais contundentes neste novo livro. Temas que, porém, dividem espaço com reflexões inquietantes sobre o fazer literário. O protagonista-narrador, afinal, também é alguém dedicado à escrita. E, como Evandro, cultiva o gosto pelas andanças e o hábito de escrever sentado em confeitarias e em cafés. “Você poderia imaginar um escritor brasileiro-mineiro escrevendo Memórias do subsolo sem o talento magistral de Dostoievski? Foi o que eu fiz”, descreve o autor, em entrevista abaixo.

Mineiro de Araxá, radicado em São Paulo há 40 anos, Evandro Affonso Ferreira surgiu na literatura em 2000 – apresentado por José Paulo Paes. Participou de uma coletânea de contos em Portugal (Editora Cotovia), organizada por Alcir Pécora. Vencedor do prêmio Jabuti 2013 na categoria romance com O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam, do Prêmio APCA 2012 com Minha mãe se matou sem dizer adeus, e terceiro lugar no Jabuti de 2015 com Os piores dias de minha vida foram todos, Evandro Affonso Ferreira lança agora seu mais novo romance, Não tive nenhum prazer em conhecê-los. A obra chega às livrarias em setembro, pela Record.

 

1 – A finitude tem sido tema central em seus últimos romances. Qual o maior desafio de narrar o limiar da morte?

Falo demais da morte na minha literatura para me esquecer dela na vida real.

 

2 – Andar pela cidade, observar pessoas e escrever sentado em cafés e confeitarias. Sua obra literária nasce, em geral, desse processo. “Não tive nenhum prazer em conhecê-los” surgiu a partir de alguma situação específica nas suas andanças?

Desde o livro “Minha mãe se matou sem dizer adeus” que escrevo nas confeitarias, ando pelas ruas da cidade. Jeito matreiro que encontrei para andar atrás das palavras escondidas talvez em bueiros, ruas sem-saídas, atrás de postes e árvores, no olhar das pessoas, essas coisas. Andar para não doidejar — costumam dizer meus narradores.

 

3 – O senhor qualifica este novo livro como “romance mosaico”. Por que a escolha pelos fragmentos? Uma vez justapostos, que tipo de desenho fazem surgir?

Você poderia imaginar um escritor brasileiro-mineiro escrevendo “Memórias do subsolo” sem o talento magistral de Dostoievski? Foi o que eu fiz. Romance mosaico cujo desenho final poderia simbolizar a palavra SOLIDÃO em caixa alta.

 

4 – Seu narrador ensaia várias definições para a velhice. Qual sua predileta?

Velhice? Tropeçar a todo instante nos evocatórios, nos rememorativos — e cair no esquecimento.

 

6 – Citações a escritores e filósofos são frequentes em seus romances: o senhor costuma dizer que gosta de convocar parceiros. Neste, uma presença marcante é Jorge Luis Borges, que se infiltra em diversas passagens. Podemos dizer que há algo de borgeano em sua obra e em sua vida?

Não consigo escrever um livro sozinho: sempre apelo para parceiros: Borges, Bruno Schulz, Hilda Hilst, Hermann Broch… Sim, psicografo todos eles: acho que sou escritor mediúnico. Sei que gosto de dialogar com eles, meus deuses do Olimpo Literário… São inúmeros… Almeida Faria, Lúcio Cardoso, Alberto Helder, Cornélio Penna, etc etc etc

 

7 – “Gostaria de ser escritor taciturno”, conta o protagonista. Que tipo de escritor o senhor gostaria de ser? Que tipo de escritor o senhor tem sido?

Vida toda tive vários sonhos, entre os quais jogar futebol com a elegância de Ademir da Guia, compor com a elegância de Paulinho da Viola e escrever com a elegância de Graciliano Ramos — fui pretensioso demais: dei com os burros n’água nesses empreendimentos todos. Jeito foi terminar a vida evandrianamente: andando flanando pelas ruas às vezes inconscientemente rápido para apressar o dia, talvez, ou para tentar iludir vigilância do tédio, da angústia que a todo instante embosca-se para me surpreender amiúde nele, meu quarto-eremitério.

 

8 – Seus livros têm a fama de serem algo herméticos. E, também, de comporem um conjunto bastante singular, reconhecido pela crítica e pela conquista de vários prêmios. Hoje, com 10 títulos publicados e 70 anos de vida, como é sua relação com o ato de escrever e com as interpretações a respeito de seu trabalho?

Não consigo interpretar os próprios livros… De modo que depois de publicado cada um diz o que bem entender… Depois de velho, adeus às bazófias e cousa e lousa.

 

9 – O senhor já tem trabalhado num novo livro ou projeto?   

 Sim: escrevendo um livro no qual falo de cinco menores abandonados. Narrador saiu da rua 30 anos atrás, virou professor, e narra os dez anos nos quais viveu na rua. Acho que está ficando bonito, poético, devastador, mas, como já disse, sou péssimo comentador de mim mesmo.